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1 ano de Covid: o brasileiro perdeu o medo? Entenda a baixa adesão ao isolamento | Brasil

Aglomeração na Praia do Pepê, na Barra da tijuca, Rio de Janeiro
Cíntia Cruz/Agência O Globo

Aglomeração na Praia do Pepê, na Barra da tijuca, Rio de Janeiro

No dia 3 de março, quando o Brasil registrava recorde de mortes desde o inicio da pandemia
 — 1.910, segundo o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde)
—, Paulo Eduardo, 61 anos, tomava uma cerveja em um bar da zona norte de São Paulo às 11 horas da manhã. Com a máscara no queixo, o comerciante, portador de diabetes
, disse à reportagem do
iG

que não tem mais medo de contrair o vírus. “Se não peguei até agora, não pego mais”.

A negação da gravidade do que está acontecendo não é exclusividade do comerciante. No pior momento da pandemia, o brasileiro abandonou uma das principais medidas de contenção ao contágio: o isolamento social.

Segundo dados da startup In Loco, que disponibiliza o índice de isolamento social de cada estado desde o início da pandemia, São Paulo registrou, no dia 4 de março, 30,2%
de pessoas isoladas. No início da crise sanitária, quando as primeiras medidas de mitigação foram instaladas, o percentual no estado beirava os 60%. O que mudou de lá para cá?

Segundo Ana Gabriela Andriani
, doutora em psicologia pela Unicamp, a adesão maior no início da pandemia se deu, entre outros fatores, pelo “susto”, isto é, o “medo do desconhecido”.

“Era uma situação absolutamente nova. Um vírus que ninguém sabia como se propagava, era um contato com algo ameaçador nunca vivido antes. Lá atrás, ninguém estava muito acostumado a ouvir sobre contágio, ou sobre relato de mortes todos os dias… Por exemplo, não ouvimos todos os dias relatos de quantas pessoas foram assassinadas. Então, acho que houve um susto no início. E agora, as pessoas estão se acostumando a viver essa realidade”, avalia. 

Além do “novo”, a psicóloga enxerga a mudança de comportamento como reflexo de uma série de outros fatoes como: solidão, esgotamento, mental, dessensibilização e negação da realidade.

Floriano Pesaro
, sociólogo pela Universidade de São Paulo e ex-deputado federal eleito em 2014, vê um esgotamento mental
por parte da sociedade. “Um cansaço com a crise de modo geral. Esse esgotamento tem efeitos psicológicos, sociais e econômicos”.

Floriano também se atém ao fato de que, com a suspensão do auxílio emergencial
ou qualquer subsídio do governo para manter empregos, as pessoas — apesar da ciência do risco —  acabam saindo em busca de renda.

Anderson Fiori
, de 25 anos, abandonou as medidas de isolamento social em setembro
. “Decidi levar a vida normal para não ficar doente da cabeça”.

Ele diz que sai normalmente para festas, bares e restaurantes. O jovem é contra as medidas de isolamento social, como fechamento dos bares, restaurantes e comércios.

“Não é só no bar depois das 20h que a Covid-19
se transmite. Imagine a quantidade de pessoas que vão a supermercados e passam horas em transportes públicos. Por que esses lugares não fecham?”, questiona.

O relato converge com o discurso do presidente
Jair Bolsonaro
 — opositor assíduo das medidas de isolamento
. Segundo o sociólogo Floriano Pesaro
, essa descrença na ciência promovida pelas autoridades, incluindo o presidente da República, contribui para o descontrole da doença no Brasil.

Bolsonaro promovendo aglomeração de apoiadores durante visita em Fortaleza (CE); Semanalmente o presidente promove aglomerações sem utilizar máscara
Clauber Cleber Caetano/PR

Bolsonaro promovendo aglomeração de apoiadores durante visita em Fortaleza (CE); Semanalmente o presidente promove aglomerações sem utilizar máscara

“Isso ajudou no desconcerto social que estamos vivendo hoje. Essas informações distorcidas
e propositalmente equivocadas foram e continuam sendo difundidas fartamente. O
negacionismo científico

aprofundou a crise socioeconômica e sanitária”, afirma.

“Hoje temos um efeito prático disso em duas frentes:o claro atraso na vacinação devido à inépcia do governo federal, e um percentual da popuação que aderiu ao discurso negacionista e hoje são vetores da doença”.

Dessensibilização da população e falta de perspectivas

Um ano após a chegada da pandemia no Brasil, não há indicativos de que a situação vá se reverter tão rapidamente. O país vive colapso do sistema de saúde em diversos municípios e, segundo prevê o Ministério da Saúde, o mês de março pode ser avassalador, chegando à marca de 3 mil mortes diárias.

Aline Lima
, 26 anos, estudante do curso de Ciências Econômicas, passou sair mais de casa, dentre outros motivos, quando perdeu as esperanças de melhora na crise sanitária em um futuro próximo.

“Vou à casa de amigos e passei a frequentar espaços abertos. Também viajo a outros estados”, conta. “Acredito que a vida no Brasil só vai se normalizar quando a maioria estiver vacinada, e não faço ideia de quando isso vai acontecer”, lamenta a estudante.

Segundo a psicóloga Ana Gabriela Andriani, a falta de um “prazo” para que a situação melhore faz a população perder as esperanças. “As pessoas começam a retomar suas vidas”.

“Cria-se um processo de negação
. A negação é um mecanismo de defesa para não entrarmos em contato com o sofrimento proveniente disso. Muita pessoas, desde o começo da pandemia, já estavam nesse processo de ‘nada está acontecendo, vamos tocar a vida normalmente’, e isso se intensificou”, continua.

Andriani também afirma que o brasileiro, em geral, tem uma cultura individualista, pautada primeiramente no prazer próprio. “Em outras culturas, vemos que as pessoas não querem ser as responsáveis pela contaminação de alguém. Já o brasileiro é mais do toque, da festa
. Os asiáticos, por exemplo, já saiam de máscara muito antes da pandemia”, lembra.

Ela pede que a população não perca as esperanças e relembra: “A gripe espanhola passou. Levou dois anos, mas passou. Com imunidade de rebanho. Felizmente não vamos viver isso, já que, com o avanço da ciência, já temos as vacinas”.

O sociólogo Floriano Pesaro aborda um tom mais crítico sobre a dessensibilização dos brasileiros no âmbito da quantidade alarmante de mortes diarias.

“Estatísticas de mortes em um país que assassina mais de 40 mil pessoas por ano não chocam. Isso está mais claro com a pandemia. Especialmente em se tratando dos mais pobres — sobretudo a população negra —  onde a violência atinge endêmica e cotidianamente. A morte sempre foi uma infeliz presença”, afirma.

Fonte: Google News

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