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a Ferrari está em crise, sim

Mattia Binotto

Foto: Scuderia Ferrari / Grande Prêmio

É MUITO PROVÁVEL que todas as pessoas que vestem o vermelho da Ferrari na Fórmula 1 tenham dado um suspiro de alívio quando a bandeirada do GP da Bélgica foi dada primeiro a Sebastian Vettel, em um melancólico 13º lugar, e logo depois a Charles Leclerc, que precisou ainda superar uma Haas, na parte final da corrida, para cruzar em 14º. O desafogo se deu também como quem acorda de um pesadelo. Afinal, a prova em Spa foi dolorosa demais e expôs todas as fraquezas dessa equipe. Não só de um ponto do carro, mas também do comando, da engenharia e da operação. O que acontece na escuderia é ridículo e não, não é no bom sentido.  

Desde a pré-temporada, é de conhecimento público que o carro vermelho é mal nascido e que o time não teve como desenvolvê-lo por causa da paralisação devido à pandemia. No entanto, grande parte das mazelas enfrentadas por Maranello em 2020 é resultado direto do imbróglio envolvendo o motor da temporada passada, que havia levado a escuderia a vitórias exuberantes nesta mesma Spa e em Monza. O problema: havia algo de errado ali. Tão errado que a esquadra foi pega pelas rivais e precisou até de um acordo secreto com a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) para se safar de uma punição severa. Conclusão: perdeu força e direção. No meio de tudo, ainda tomou decisões questionáveis como a de descartar um tetracampeão para 2021, antes mesmo do atual campeonato começar.

O dia da Ferrari na Bélgica foi terrível (Foto: Ferrari)

Ninguém sairia impune de um enredo como esse. E coube a etapa belga deixar tudo isso ainda mais nítido. É a primeira vez em dez anos que a Ferrari completa uma prova fora da zona de pontos com os dois pilotos. No GP da Inglaterra de 2010, Fernando Alonso foi o 14º, enquanto Felipe Massa terminou uma posição atrás. No sábado de formação do grid, por muito pouco, Vettel e Leclerc não caíram ainda no Q1. O alemão chegou a ser o último colocado no treino que antecedeu a sessão que definiu as posições de largada. Só em 2009, quando Luca Badoer e Giancarlo Fisichella substituíram Massa, é que a escuderia testemunhou performance tão pobre em classificação. Em corrida e por desempenho, foi também na mesma temporada, com Kimi Räikkönen (12º) e Fisichella (16º) no GP de Abu Dhabi.

Agora, a equipe revive anos sombrios de chefia desastrada e carro pouco competitivo. A Ferrari aparece apenas na quinta colocação no Mundial de Construtores. Tem 61 pontos e já vê Racing Point e McLaren abrirem perigosa vantagem. Pior: tem tudo para perder lugar para a Renault já na corrida de casa. Foi na longínqua temporada de 1981 que a escuderia terminou um campeonato fora do top-4 pela última vez. Quer dizer, o momento é mais do que delicado.

O primeiro comunicado de imprensa publicado pelo time após a difícil prova deu a deixa do tamanho do vexame: faltou tudo. “A Scuderia Ferrari saiu do 65º GP da Bélgica de mãos vazias no final de uma corrida decepcionante. Os pilotos não tinham aderência e ritmo e, como consequência, não eram competitivos.”

Que fase! Vettel é ultrapassado pela Alfa Romeo de Räikkönen (Foto: Reprodução)

A natureza veloz do circuito de Spa agravou todas as falhas da SF1000. Da crônica falta de potência ao difícil acerto. Até a estratégia e os pit-stops foram muito ruins. A Ferrari começou o fim de semana buscando velocidade, numa tentativa de minimizar o déficit de força do motor. Trabalhou com um set-up mais agressivo, tirou asa dos carros. Nada deu certo. Precisou recuar com as configurações aerodinâmicas. Foi conservadora. Ainda enfrentou dificuldade com os pneus, que não atingiam a temperatura ideal, o que resultava em perda de aderência. No fim das contas, Vettel e Leclerc viraram presas muito fáceis durante a prova e não tinham nem como se defender.

Sem esconder a frustração, Charles já espera mais problemas. “Nós tivemos dois pit-stops lentos por pequenos problemas. Não conseguimos ultrapassar nem com a asa traseira móvel aberta. É muito difícil do jeito que está e será igualmente complicado em Monza. Para Mugello ou Ímola, há uma esperança, mas para Monza será bem complicado”, admitiu o monegasco, o melhor piloto Ferrari na tabela de pontos.

O alemão, por sua vez, mostrou um discurso ainda mais duro. “O carro é o que é. Precisamos ser otimistas e ver as coisas boas, mesmo que não sejam muitas. Tentei contornar esses problemas, mas não fomos rápidos o suficiente. Não podemos realizar milagres.”

Binotto viveu um GP da Bélgica de desespero (Foto: Scuderia Ferrari)

É um fato. O tetracampeão ainda falou que é importante evitar a frustração, “porque não leva a lugar nenhum”. Outro ponto verdadeiro. Mas é curioso perceber que ambos os pilotos parecem cientes do cenário desolador e não tentam disfarçar que as soluções não são tão simples. Postura diferente do capitão do barco. Mattia Binotto parece navegar em águas calmas, embora veja apenas a situação como uma tempestade momentânea. Após a corrida, disse: “É claro que é um resultado ruim em meio a uma temporada difícil. Sabíamos disso, sabemos desde os testes de pré-temporada. Com a paralisação, veio a impossibilidade de desenvolver o carro. Temos de manter os dentes cerrados, estamos construindo para o futuro. Estamos no meio de uma tempestade, sem dúvida. Mas não estamos em crise, só em meio a uma tempestade. Conhecemos o caminho que devemos seguir e vamos continuar a olhar para o futuro.”

Não, Binotto, não é uma tempestade e nem um caso isolado. É uma crise e precisa ser tratada como tal. A Ferrari não vê resultados como esses há mais de dez anos. Apanha de todos os lados e não há uma perspectiva de melhora a curto prazo. Essa ainda é uma temporada condensada e intensa. E pior: de um regulamento que não muda para 2021. Então, se há um conhecimento do caminho a seguir, é preciso tomar esse rumo o quanto antes.

Afinal, daqui a sete dias, os carros alinham no circuito mais rápido da temporada, onde motor e acerto aerodinâmico são essenciais. E como desgraça pouca é bobagem, essa pista fica na Itália.

Grande Prêmio

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Fonte: Terra

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