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a moda no Insta são ‘apresentações de PowerPoint’

Quando Avery Francis publicou no Instagram uma ilustração a respeito de “Coisas que não se deve dizer a uma negra”, ela supôs que seu público não iria além de amigos e parentes. Avery, 32 anos, consultora de RH que está passando a pandemia em Toronto, Canadá, estava trabalhando na publicação para um cliente em junho, e usou o conteúdo em sua conta pessoal antes mesmo de “corrigir uma porção de erros ortográficos e gramaticais”, diz ela.

A publicação decolou, chegando a mais de 370 mil curtidas e basicamente transformando Avery em uma figura pública de uma hora para a outra. Nos dois meses transcorridos desde então, ela somou mais de 80 mil seguidores e continua publicando composições de texto em tons pastéis que ela cria no programa de design Canva: “Trouxe minha energia do Twitter para o Instagram”, brinca.

No início do ano, ver uma apresentação em 10 partes no estilo do PowerPoint com múltiplas citações passando pelo seu feed do Instagram seria inesperado. Mas, em meio aos protestos contra a injustiça racial que se seguiram à morte de George Floyd, as pessoas se voltaram para as redes sociais para aprender mais a respeito de tópicos e histórias que elas nem sabiam que estavam perdendo. Os influencers dos infográficos, como poderíamos chamá-los, se tornaram os líderes nesse exercício de educação improvisada, reaproveitando ferramentas usadas no marketing e nos recursos humanos e valendo-se de sua experiência pessoal para explicar ideias antirracistas para um público cada vez maior, mais preocupado com a substância das ideias do que com a escolha de filtros.

Os infográficos do Instagram não são novidade. Grandes organizações de justiça social como Planned Parenthood e Black Lives Matter publicam conteúdo nesse formato há anos. Mas agora esse material está circulando mais amplamente, usando um recurso mais recente. Em 2018, o aplicativo do Instagram finalmente permitiu que os usuários compartilhassem conteúdo de outros, por meio dos “stories” – que facilitam muito a difusão desses infográficos.

Enquanto trabalhava para a campanha de Bernie Sanders, Jess, 27 anos — ela pediu para não revelar o sobrenome porque já recebe ameaças de morte —, reparou no quanto o linguajar político pode parecer hermético para alguém menos familiarizado com tais termos. Ela começou o @soyouwanttotalkabout em fevereiro para simplificar os conceitos políticos, explicando-os em uma linguagem mais clara. Desde então o público da conta explodiu, passando de 500 a 1 milhão de seguidores em apenas três meses, e ela passa a maior parte do fim de semana e cerca de duas ou três horas por noite durante a semana pesquisando e criando apresentações a respeito de temas como, digamos, o posicionamento apolítico, o racismo na medicina ou a dinâmica psicológica dos eleitores de Trump.

Comentários chocados diante das explicações para a reestruturação mal-intencionada dos distritos eleitorais e os distúrbios raciais de Tulsa mostram o quanto foi excluído do currículo escolar americano. Jess lembra de usuários fazendo comentários como, “Acabo de cursar quatro anos de faculdade estudando esse assunto, e bastaria ter lido essa publicação para ter aprendido tanto quanto no curso”.

Muitas dessas contas tentam tornar mais acessível a terminologia dos acadêmicos e ativistas. Isaias Hernandez, de 24 anos, que administra o perfil @queerbrownvegan e vive em Los Angeles, publica a respeito da sobreposição entre questões raciais e ambientais, explicando termos como topofilia, eutierria e tierratrauma.

Hernandez diz que teve dificuldade para compreender os conceitos quando estudava ciência ambiental na Universidade da Califórnia, em Berkeley, com professores geralmente brancos. “Eles estão acostumados a um ambiente acadêmico de pesquisa bastante rigoroso, e sua forma de falar a respeito das comunidades de cor faz com que pareçam mais um objeto de pesquisa do que pessoas de verdade”, lembra ele.

Hernandez cresceu em Slymar, região de maioria não-branca do Vale de San Fernando, em L.A., onde a poluição é mais elevada por causa da proximidade de vias expressas e instalações industriais. Como alguém que sentiu na pele os efeitos do racismo ambiental, ele costuma acrescentar um toque pessoal às suas definições dos termos, tirando essa linguagem do pedestal e trazendo-a de volta para a terra, e para as pessoas mais afetadas por ela.

Many ancestral BIPOC communities have always implemented traditional, circular, and regenerative embedded practices that allowed/ (allows) them to be interconnected to their land. “We experience the state of Eutierria when we are feeling the oneness of the Earth” (Albrecht 2018). Eutierria is the emotion and thoughts an individual feels when they feel interconnected with Earth and find absolute rest. This type of feeling promotes interconnectedness as we had been talking about in previous posts. When we delve deeper into environments, it’s hard for me to interconnect honestly, because I know at the end of the day I am sitting on stolen land. Yes, it’s true that nature has truly reduced my stress and allow me to gather my thoughts more clearly, but to be honest, I don’t think I have experienced Eutierra since I was a small child. – – Glenn Albrecht expressed that when one is in the “boundaries between self and the rest of nature are obliterated, and a deep sense of peace and connectedness pervades consciousness.” When we think of rest, I think about homeostasis and how our bodies self-regulate themselves to find balance. I remember going to a park when I was young, and walking through the trees and grassy fields; I felt so excited, adventurous, and curious about the creatures, trees, and people! I believe that this experience at a younger age may have been Eutierria since I remember taking naps at the parks and feeling almost connected to that specific environment. – – Eutierria is an interesting term to describe the feeling of interconnectedness to Earth. Have you experienced Eutierria? Please share your thoughts, and how do you see interconnectedness with Earth? – – #sustainableactivism #sustainability #environmentaljustice #environmentalracism #socialjustice #climatejustice #climateactionnow #climatestrikeonline #ecojustice #ecoeducator #queerbrownvegan #ecotips #soliphilia #ecoparalysis #soliphilia #nature #outdoors #pocoutdoors #pocenvironmentalist #outdooradventure #outdooractivity #pollinatorsweek #regenerativesystem

Uma publicação compartilhada por Isaias Hernandez (@queerbrownvegan) em 27 de Jun, 2020 às 8:50 PDT

Enquanto cria suas ilustrações para a conta @eisellety, a designer Eiselle Ty, de 25 anos, imagina como gostaria que conversassem com ela a respeito de assuntos como política e raça. Ela diz que, quando se mudou para San Francisco, evitou o envolvimento político direito: “Eu conhecia muitas pessoas supostamente conscientes que simplesmente reproduziam discursos e diziam aos outros o que fazer e pensar. Era uma atmosfera de intimidação”.

Dom Roberts, de 22 anos, descreve o tom de suas mensagens em @domrobxrts como “leve correção”. Recentemente, a universitária de L.A. tem postado guias a respeito de assuntos como a melhor maneira de abordar alguém que fez um comentário ofensivo, e “perguntas a fazer a si mesmo antes de entrar em debates importantes”. “Acredito no poder da verdade, mas também na importância do amor na mensagem”, diz ela.

As raízes das tendências do Instagram sobrevivem nessas publicações informativas, muitas das quais misturam uma lógica digna de diagramas de livro didático com aquilo que Jess descreve como uma sensibilidade estética da marca Goop. Ao desenvolver a estética do perfil @soyouwanttotalkabout, Jess lembra de analisar os “tipos de modelos do Instagram” e pensar no possível impacto diante do público. “Senti-me muito motivada pelo lado estético porque conheço muitas mulheres da minha idade que não se envolvem nem um pouco com a política”, diz ela. Com o texto espaçado sobre um fundo azul e rosa, as publicações dela têm uma aparência uniforme que lembra a chique decoração de um apartamento minimalista.

No dia em que conversamos, Jess tinha recebido uma mensagem dizendo: “Não concordo com praticamente nada nessas publicações, mas não consigo parar de olhar para elas”. Olhar já é um começo. Alguns criticaram esse tipo de publicação por causa do lado performático, dizendo que mudanças só ocorrerão como resultado de ações tangíveis e reais, sugerindo que debates fora da internet seriam mais produtivas. É uma crítica semelhante à feita ao Blackout Tuesday (quando empresas e usuários do Instagram, em sua maioria não negros, publicaram uma imagem preta como vaga demonstração de solidariedade ao movimento BLM). Mas, diferentemente da imagem preta, no caso dos infográficos, o design não é o elemento principal. Muitos desses influenciadores enfatizam a ação, orientando o público a assinar petições, apoiar organizações e se envolver com o ativismo na vida real.

Eiselle compara sua abordagem ao trabalho que desempenha profissionalmente, no design de embalagens de alimentos. “Quando a pessoa está andando por uma loja, temos cerca de 3,5 segundos para chamar sua atenção”, diz ela. “Se começarmos com um parágrafo grande, ninguém vai ler. Mas, se a ideia for decomposta em frases mais curtas, isso ajuda muito.”

Eiselle começou a publicar infográficos na tentativa de fazer “o oposto” de publicar uma imagem preta. Para Eiselle, o quadrado preto não foi muito funcional, e o design deve ser funcional (seja em uma embalagem de chocolate ou em uma explicação do direito de permanecer em silêncio). “Temos que pensar sempre na pessoa que está do outro lado”, disse ela. “O design é uma arte com empatia, e isso é uma das coisas que mais gosto a respeito dele.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Fonte: Terra

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