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Afastamento deixa Witzel longe de símbolos de poder

RIO – Uma imagem da faixa azul e branca com as armas do Estado do Rio de Janeiro, que o governador Wilson Witzel (PSC) mandou confeccionar para a transmissão do cargo, foi cuidadosamente plantada, por computador, na foto oficial feita no início de seu governo para adornar as repartições públicas fluminenses. Foi a solução encontrada para que o novato, recém-empossado, aprovasse a fotografia produzida sem o adereço. Ficara melhor do que os quadros “oficiais”, produzidos em sessão no Palácio Laranjeiras, residência oficial, no início de 2019. O episódio ilustram uma característica da personalidade do homem que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) afastou do governo fluminense. Ele tem forte apego a símbolos de poder, especialmente a um que evoca a sonhada Presidência da República.

A faixa, ausente das cerimônias de transmissão do cargo de governador do Rio pelo menos desde 1982, foi uma inovação de Witzel. A seu pedido, o então governador em exercício, Francisco Dornelles (PP), passou-a, como se o ato evocasse uma solenidade no Palácio do Planalto. Orgulhoso da conquista, na qual surpreendeu e derrotou o favorito Eduardo Paes (DEM), o governador envergou o símbolo que mandara fazer durante toda a primeira reunião do secretariado, para espanto de alguns presentes. Na posse do secretário da Polícia Militar, coronel Rogério Figueiredo, o governador usou outro adereço, uma faixa de honra da corporação – quem a recebe se torna Grão Mestre da Ordem do Mérito Policial Militar da PM fluminense.

Tanta preocupação com símbolos de autoridade, analisada agora, faz sentido para alguns políticos. Reclamam da distância que o agora governador afastado, à beira do impeachment, impôs nas relações com o Legislativo.

“Como ex-juiz, ele tinha uma compreensão da política de muito pouco diálogo e de muito mais o princípio da autoridade”, diz o deputado oposicionista Luiz Paulo Corrêa da Rocha, ainda no PSDB, mas de saída para o Cidadania. Não há duvida que essa postura ajudou a criar a atual situação de virtual deposição do mandatário.

Na Assembleia, Witzel é visto como arrogante. Sua insistência em se apresentar como ex-juiz, de certa forma acima da política e dos políticos, irrita os deputados. Essa persona do “não-político”, porém, funcionou na campanha eleitoral de 2018, na onda de direita, antiesquerda e antipolítica, que varreu o País. O governador agora afastado brandiu sua condição de ex-magistrado e de ex-militar – na verdade, deixou o Corpo de Fuzileiros Navais com apenas três anos de serviço, como segundo-tenente – para legitimar o discurso de “lei e ordem” que fazia sucesso junto ao eleitorado.

Alguns que o viram se declarar direitista, defender linha dura contra criminosos e proclamar a política do “tiro na cabecinha” dos suspeitos, revelada em entrevista ao Estadão antes da posse, se espantaram. Witzel, não muito antes disso, queria apoiar a candidatura de centro-esquerda de Ciro Gomes (PDT) à Presidência. Aparentemente, mudou de rumo ao perceber o crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Foi uma guinada e tanto, que incluiu a participação no ato em que uma placa com o nome da vereadora Marielle Franco (PSOL) foi destruída por candidatos do PSL a deputado. Depois de empossado, pediu, a familares de Marielle, deculpas pela atitude.

Também se espantaram pessoas que conversaram com o governador após a vitória na eleição e antes da posse. Elas ouviram o governador dizer, aparentemente a sério, que seus planos incluíam, se eleger e se reeleger presidente e depois virar o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Muitos que o ouviram expressar esses sonhos acreditaram que Witzel falava sério.

Bacharel em direito, começou ‘por cima’ na política

Talvez para Witzel, um bacharel em direito nascido em Jundiaí, que começou “por cima” na política – foi eleito governador, primeiro cargo público, aos 50 anos -, o mundo, àquela altura, parecia o único limite. Descendente de alemães, ele é filho de um metalúrgico. Era estudioso. Adolescente, formou-se técnico em informática no Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, na cidade natal. Dos 21 aos 24 anos, integrou temporariamente o Corpo de Fuzileiros Navais. Serviu como oficial especialista em uma área técnica, de computadores, no Rio de Janeiro. A imagem da ocupação em frente a um computador conflita com a figura marcial que ele cultiva – uma espécie de Rambo de si mesmo. Fez, por exemplo, flexões de camisa social e gravata, apertadas por uma camiseta negra marcada pelo símbolo da caveira, com PMs do Batalhão de Operações Especiais, em cerimônia de troca de comando, no início de 2019.

Depois do ensino médio, Witzel seguiu estudando. Fez duas graduações: bacharelou-se em Informática na Sociedade de Ensino Superior e Assessoria Técnica (Sesat) e em Direito, nas Faculdades Bennett, no Rio. Também se especializou em Docência Superior, nas Faculdades Bethencourt da Silva, e em Direito Empresarial, na Fundação Getúlio Vargas. O mestrado em Direito Processual Civil foi feito na Universidade Federal do Espírito Santo, um curso que, Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior, recebeu conceito Capes 3 – apenas regular. Também passou em seleções e concursos, além de trabalhar na iniciativa privada. Segundo seu Currículo Lattes, deu aulas de informática e direito, foi assessor da presidência do Instituto de Previdência do Rio de Janeiro, passou para a Defensoria Pública do Rio e para a Justiça Federal, como magistrado.

Para uma fonte que já foi próxima a Witzel, ele é basicamente um concurseiro. É muito disciplinado e especializado em passar em concursos públicos, bom em decorar conteúdos, mas que não sabe bem como lidar com eles. Alguém que é “oco”, “uma casca”, sem muito conhecimento, nem leitura. Parece entender de tudo e tem soluções fáceis – e inócuas – para qualquer problema; não conhece em profundidade nenhum assunto. Por ter sido juiz, usa essa condição como argumento de autoridade para mostrar sua suposta expertise insuperável em questões de direito. Não é, porém, totalmente antipático, apesar do jeito de sabichão.

Foi com postura supostamente superior, porém, que o governador reagiu quando se divulgou que, diferentemente do que afirmava em seu Currículo Lattes, ele não cursara, em “período-sanduíche” em Harvard, EUA, parte de seu doutorado (real) em Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF). Witzel deu explicações com certa irritação e contrariedade. Afirmou que realmente pretendera cumprir o período de estudos no exterior, o que assinalou no currículo, mas isso não foi possível. Em nota, sua assessoria insistiu que ele não tinha mentido. Currículos, porém, não falam do futuro, nem de intenções, mas do que já foi feito.

O jovem Witzel casou-se, primeiro, com uma oficial-médica da Marinha, Sonia de Souza Marques. Os dois se separaram pouco depois de Witzel comprar uma casa no Grajaú, na zona norte, em parte com dinheiro emprestado pela sogra, Mariasita de Souza Marques. Isso gerou um processo para reembolso de pouco mais de R$ 115 mil (valor corrigido), no qual o governador foi notificado em 2019 no Palácio Guanabara – não há mais recurso possível. Witzel tomou a iniciativa de romper o casamento para ficar com sua atual mulher, Helena Brandão, uma ex-aluna mais jovem, com quem se casou e teve mais três filhos: Vicenzo, Beatriz e Bárbara.

Da primeira relação, Witzel é pai de Erick, que fez transição de gênero após os 18 anos. Durante a campanha, ele pediu ao então candidato que não o citasse – a divulgação pública do caso pelo pai o irritou – e se afastaram. No ano passado, voltaram a se aproximar, após uma conversa no aniversário do meio-irmão. Quando fala do primogênito, o governador agora afastado diz amar todos os filhos, sem distinção. Mas pessoas próximas não o veem confortável com a situação, que conflita com seu eleitorado conservador e com a imagem tradicional que cultivou na campanha.

“Acho que todo mundo precisa dar uma despressurizada”, disse Erick, em entrevista ao canal NLucon, no YouTube, pregando que famílias divididas pela política se reconciliem.

O início da carreira política de Witzel aconteceu na Associação de Juízes Federais do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Ajuferjes). Foi na presidência da entidade que ele começou a procurar um partido que o aceitasse. Rigoroso e formal como magistrado, Witzel defendia os interesses da corporação. Assim, durante a campanha eleitoral,foi divulgado pela Rede Globo um vídeo no qual ensinava colegas a, para receber uma gratificação de acúmulo de R$ 4 mil, pedir que o juiz substituto não vá quinze dias por mês à vara. Em sua defesa, sua assessoria divulgou nota em que afirmava que todos os benefícios da magistratura são previstos em lei. Também lembrava que, ao deixar a magistratura, perdera direito à aposentadoria.

Governo

No poder que tanto cobiçou, Witzel continuou a focar no discurso de defesa da segurança, dos policiais e dos militares. Apresentava-se como um deles, alguém que fora da Marinha, e encontrou o setor de segurança reorganizado e com recursos, por causa da intervenção federal sob o governo de Michel Temer. Isso lhe dava oportunidade de apresentar resultados em uma área sensivel aos fluminenses. Ao mesmo tempo, fez seguidos gestos para agradar às polícias. Reclamou que o Ministério Público Federal ia promover um seminário sobre desmilitarização da PM. Ainda em 2019, sempre focado no militarismo e nas simbologias, criou por decreto a patente honorífica de general de uma estrela para os comandantes da PM e do Corpo de Bombeiros, além do secretário de Defesa Civil. A medida, que não gerou aumento de vencimenntos, foi objeto de piadas, gerou contestações judiciais e acabou revogada.

Em agosto do ano passado, em meio a um episódio dramático, atravessou a cidade, de helicóptero, para pousar na Ponte Rio-Niterói. Ali, um jovem com problemas mentais tinha sido abatido a tiros por um sniper, depois de sequestrar um ônibus com uma arma de brinquedo. O rapaz era um auxiliar de padeiro, sem antecedentes criminais. Witzel vibrou como se tivesse marcado um gol. Sob seu comando, a Polícia Militar do Rio matou cinco civis por dia, em recorde de anos. Muitos desses mortos eram moradores de comunidades pobres e foram atingidas em operações policiais, com tiros disparados de helicópteros. Em decorrência desses resultados, o Supremo Tribunal Federal (STF) acabou proibindo ações das polícias em comunidades, a não ser em circunstâncias muito especiais e com cuidados para evitar baixas de civis.

O militarismo marcou outros aspectos da gestão Witzel. Ainda em janeiro de 2019, após uma longa reunião de secretários em um sábado no Palácio Guanabara, Witzel convidou-os para ir até a sede da 1ª Companhia Independente de Polícia Militar (1ª CIPM), que faz a guarda do local. Lá, havia uma feijoada e eles puderam se divertir praticando tiro ao alvo, com armas dos policiais, no estande. A segunda reunião foi no Palácio Quitandinha, em Petrópolis, na Região Serrana – mais um símbolo que o governador via com deslumbramento.

Crise foi gestada no início da administração

A crise que engoliu o governo começou a ser gestada no início da administração. Na época, o presidente do PSC, Pastor Everaldo Dias Pereira, estimulou Witzel a se lançar à Presidência. Houve quem ponderasse que era cedo, mas o dirigente partidário insistiu: “É o nosso candidato”. Foi o meio que ele encontrou para aumentar a sua influência em órgãos do Estado, como o Detran e a Cedae, a estatal de saneamento que, no início de 2020, entregou água com gosto de terra aos consumidores. O estímulo à candidatura levou ao rompimento com o presidente Jair Bolsonaro, que Witzel apoiou para se eleger. Bolsonaro acusou Witzel de forjar provas contra ele, para supostamente envolvê-lo no assassinato de Marielle Franco, mas não apresentou nem sequer indícios da suposta ação criminosa do governador.

À influência de Pereira, contrapôs-se o então secretário de Desenvolvimento Econômico, Lucas Tristão. Ele era muito próximo do empresário Mário Peixoto, o fornecedor preso na Operação Favorito, que começou a dissecar os escândalos da saúde. Os dois tomavam café da manhã juntos, com frequência. Ex-aluno de Witzel, Tristão é descrito como “truculento” e foi acusado de preparar dossiês sobre os 70 deputados estaduais. “É um serviço de informações particular”, acusa o deputado Luiz Paulo. “E nem por isso o governador o afastou. Só depois.”

O próprio Witzel parecia ver a relação com o Legislativo de forma peculiar. Alguns auxiliares testemunharam quando, em seu gabinete, o governador, olhando a tela do computador e conversando ao telefone, comentava processos que seriam de deputados estaduais, com um interlocutor não identificado. Para muitos parlamentares realmente com problemas com a Justiça, ele era um ameaça velada, por ser ex-juiz e com possível influência no Judiciário. A palavra “dossiê” piorou tudo.

Nesse clima, as revelações das Operações Favorito e Placebo, em maio, criaram a cultura para o afastamento do governador. Foram pelo menos quatorze pedidos apresentados ao Legislativo. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) foi mais rápido, mas com a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de validar a comissão do impeachment – que fora anulada no recesso do Judiciário pelo presidente da corte, Dias Toffoli – o processo tende a ganhar tração nos próximos dias. Com isso, pode se tornar ainda mais difícil uma volta de Witzel ao Palácio Guanabara – mais um símbolo de poder na vida do agora governador licenciado.

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Fonte: Terra

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