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Alguma coisa acontece no meu coração

Segundo pesquisas dos principais portais de tendências, existe um movimento mundial de migração das maiores metrópoles do mundo para cidades menores e mais perto da natureza. Um reencontro com nossas raízes e uma busca por ser parte do ecossistema podem estar na base desse comportamento. Desde que a pandemia mundial começou, a sensação que se tem é de que nos grandes centros urbanos temos mais riscos de sermos infectados pelo coronavírus. Aliada a isso, a possibilidade de trabalhar em home office fez surgir um acelerado descontentamento com a vida na cidade grande e uma nova ideia de lar.

Fiz parte desse movimento sem saber e na primeira semana de quarentena me mudei para o litoral de São Paulo. Passei três meses vivendo e trabalhando sem voltar para a cidade. Fiz amizade com vizinhos, os recebi para cafés no meio da tarde, ouvi suas histórias, contei as minhas, conheci o padeiro, o farmacêutico, o veterinário e estive envolvida com todas as pessoas que fazem parte desse microcosmo onde agora habito. Sabem quem eu sou, sei quem são, posso andar despreocupada pelas redondezas e me sinto acolhida e pertencendo a uma comunidade. O convívio com a minha família também mudou. Fazemos todas as refeições juntos. Essa rotina nos faz sermos vistos e ver de perto, às vezes com lupa. Durante esse período, muitas vezes pensei ter encontrado meu lugar no mundo e a vida que queria ter.

Mas, desde junho, fomos liberados pelas autoridades a abrir a empresa e, assim, voltamos e estabelecemos um sistema de rodízio. A cada semana eu estaria quatro dias cercada pela Mata Atlântica e possíveis banhos de mar, mas em outros três, ficaria na capital, que eu agora, desconfiada, enxergava como um lugar só para cumprir a minha obrigação. Nesse reencontro, enxerguei uma cidade diferente, com menos trânsito, sem a efervescência de restaurantes, padarias e bares abertos a qualquer momento e sem a tradicional vida cultural. São Paulo não parecia tão interessante. Enorme como sempre, mas vazia por dentro, sem recheio. Senti falta de muitas coisas.

Nasci e cresci na capital paulista e sempre entendi a fascinação que ela exerce em quem vem de outros lugares do Brasil. Intensa, barulhenta, caótica, cheia de vida. Existem várias cidades dentro de uma só, um labirinto onde nos perdemos com facilidade e, nesse “perder”, nos achamos. As cidades grandes guardam dentro de si esconderijos secretos, nos quais só somos encontrados se quisermos. Somos um na multidão e isso nos torna livres para sermos só mais um. A cidade grande traz encontros fortuitos no meio da rua, no shopping, no trânsito e no metrô. É palco de momentos sem planejamento, de novidades, de moda a gastronomia.

Paris, Londres, Nova York, Milão ou São Paulo, todas dividem algo em comum, o novo. E neste último mês, indo e vindo do litoral para São Paulo, me dei conta de que apesar de querer a natureza mais perto, quero a imprevisibilidade da cidade grande, quero poder me perder e não ver ninguém conhecido por horas, sair de cena e voltar quando quiser. A possibilidade da fuga. Quero sentar e tomar um café olhando desconhecidos com curiosidade. Não quero ser vista tão de perto nem ver com lupa.

A falta que a vida em São Paulo me faz trouxe reflexões. Quem sabe a saída seja, em vez de escaparmos, integrarmos a cidade a esse novo momento? Em vez de abandonarmos, cuidarmos dessa transformação tão necessária. Trazer a natureza para dentro da cidade grande seria a primeira atitude. Um movimento de ecourbanismo e conceitos de uma vida mais verde. Mais parques e avenidas arborizadas. Urbanistas e paisagistas unidos repensando a relação dos grandes centros com a natureza e seus espaços. Em vez de criarmos novos escritórios em áreas verdes, trazer o verde para os escritórios. E, assim, aquela “alguma coisa” que aconteceu no coração do Caetano, e nos nossos, quando cruzamos as ruas da nossa cidade grande, intensa e recheada do novo, possa continuar a nos inspirar.

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Fonte: Terra

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