Avaliado em US$ 1,3 bi, estúdio de games Wildlife se torna o 10º unicórnio brasileiro

O Brasil já pode se gabar de ter mais de dez startups avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão – os chamados unicórnios. Nesta quinta-feira, 5, a empresa de games para smartphones Wildlife Studios se torna a décima empresa a pertencer a este seleto clube. Ao receber uma rodada de aporte de US$ 60 milhões liderada pelo fundo americano Benchmark Capital (investidor de Uber, Twitter e Snapchat), a empresa dos irmãos Arthur e Victor Lazarte, de 35 e 33 anos, respectivamente, será avaliada em US$ 1,3 bilhão no mercado privado.

A empresa tem trajetória discreta até aqui: nasceu com o investimento inicial de US$ 100, na casa dos pais dos Lazarte na capital paulista. “Eu trabalhava no (banco de investimentos) JP Morgan em Londres e meu irmão na (consultoria) Boston Consulting Group (BCG), mas não estávamos felizes. Voltamos para a casa dos pais porque não tínhamos dinheiro para pagar aluguel ou escritório na época”, conta Victor, que é formado em engenharia mecânica pela USP. Já Arthur, é formado em engenharia aeroespacial. “Na época, os smartphones estavam começando a se popularizar e achamos que as pessoas iriam querer jogar nesses computadores de bolso”, diz Lazarte, ao Estado.

Victor Lazarte, da Wildlife: jogos com 2 bilhões de downloads e topo do ranking em mais de 100 países

Foto: Wildlife/Divulgação / Estadão

Chamada inicialmente de Top Free Games (TFG), a Wildlife se dedica a criar games gratuitos para smartphones e recebe agora apenas sua segunda rodada de investimentos. Os números, no entanto, chamam a atenção: com cerca de 500 funcionários espalhados em seis escritórios e quatro países (EUA, Brasil, Irlanda e Argentina), a empresa está prestes a alcançar a marca de 2 bilhões de downloads, divididos entre seus mais de 60 títulos já lançados. Ao todo, mais de 1 bilhão de dispositivos já baixou algum game da companhia.

Seus principais títulos são o jogo de tiro Sniper 3D, o esportivo Tennis Clash ou o “livro de colorir digital “Colorfy – os três são presença frequente no ranking de jogos mais baixados dos sistemas iOS e Android. Para ganhar dinheiro, a Wildlife fatura com anúncios e também com as chamadas microtransações, vendendo itens dentro dos games que auxiliam o desempenho do jogador ou melhoram o visual de seus personagens. “É um modelo em que a maioria das pessoas não paga nada, mas há um grupo de 10% dos jogadores que sustentam o resto da base”, explica Victor.

Segundo os empreendedores, o novo aporte se deve mais à formação de uma parceria estratégica e menos a uma necessidade financeira – a empresa “sempre deu caixa”, nas palavras de Victor. Além do Benchmark, que já fez aportes também na brasileira Peixe Urbano, participaram da rodada cinco investidores individuais. Entre eles, estão Javier Olivan, líder de produtos do Facebook, e Hugo Barra, brasileiro que passou por Google e Xiaomi e hoje cuida de parcerias na área de realidade virtual e aumentada na empresa de Mark Zuckerberg.

Com os recursos, a Wildlife deve aumentar seu time em 60% ao longo do próximo ano, chegando a 800 pessoas, em diversas áreas e países. A maior parte do time da empresa está em São Paulo, mas, no futuro, essa proporção deve se equilibrar pela metade. “O Brasil é um lugar com muito talento em tecnologia, mas pouca experiência, por isso buscamos pessoas fora”, diz Victor. Na visão do empreendedor, as habilidades pessoais são os principais diferenciais de uma empresa de tecnologia. “No mais, todo mundo utiliza os mesmos softwares e os mesmos computadores.”

Segundo André Pase, pesquisador em games da PUC-RS, a caça a bons profissionais é uma disputa global. “O Brasil tem bons profissionais e cursos interessantes, mas há competição forte com o mercado externo: quem tem experiência encontra proposta em países de economia e política estáveis. A briga não é só por salários, mas também por condição de vida.”

Outra parte dos recursos do aporte será utilizada para fechar parcerias com estúdios menores, que poderão utilizar as ferramentas de distribuição da Wildlife. “Um dos maiores desafios de fazer um jogo hoje é distribuí-los. Nós temos um bom canal que são os games anteriores, mas empresas pequenas não possuem essa vantagem”, diz Victor. Não estão descartadas também aquisições de games de outras companhias.

Nova fase. Fãs dos games da Nintendo, como Mario, os irmãos Lazarte se espelham no exemplo da japonesa para o futuro. “Ainda não há uma empresa icônica para os jogos de celular como foi a Nintendo para os consoles. Podemos ocupar esse espaço”, ambiciona o irmão mais novo da família Lazarte.

Mas a competição será dura: além dos milhares de jogos que chegam todos os anos às lojas de aplicativos de Apple e Google, a Wildlife terá de enfrentar a concorrência das duas gigantes de tecnologia. Ambas – com o Apple Arcade e o Google Stadia – passaram a oferecer bibliotecas de games para smartphones nos últimos meses, por assinaturas a partir de R$ 10.

Na visão de Pase, da PUC-RS, a Wildlife tem a seu favor um catálogo “de jogos que serve como um bom cartão de visitas, com qualidade visual e que entende o funcionamento das mecânicas de compra”. Para o especialista, porém, a empresa tem o desafio de seguir criando novos tipos de jogo, evitando os tropeços de outras companhias de games para celular – nos últimos anos, Zynga (Farmville), Rovio (Angry Birds) e King (Candy Crush) tiveram problemas ao lançar títulos com características muito parecidas. “A Rovio, por exemplo, até hoje não consegue tornar populares seus games que não são parecidos com Angry Birds”, afirma o professor da PUC-RS.

Outra dificuldade do mercado de games para dispositivos móveis, segundo de Pase, é conseguir criar atrativos para manter o jogador engajado e, se possível, pagando pela experiência. “Como o jogo tem a presunção de ser gratuito e há forte competição, o usuário baixa uma vez e deleta assim que precisa liberar espaço na memória do celular”, afirma. “A competição entre o que você guarda no telefone e o que fica de fácil acesso na tela é muito forte.”

Para isso, a Wildlife investe não só na criação de jogos, mas também em tecnologias como aprendizado de máquina e análise de dados, buscando entender o comportamento de seus usuários – e como fazê-los consumir mais moedinhas dentro dos jogos.

É um trabalho silencioso, talvez até pouco glamouroso e longe de holofotes – ao Estado, Victor diz que “não é importante que a gente seja conhecido, mas sim que as pessoas gostem dos jogos.” Ele lamenta, porém, estar um pouco distante do sonho que o levou a criar o décimo unicórnio brasileiro. “Com o crescimento da empresa, tenho ficado com as decisões de negócios e não consigo colocar a mão na massa nos jogos, que é a parte mais legal do trabalho”, diz. “Mas faz parte da vida, não é?”.

Estadão

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Fonte: PORTAL TERRA – TECNOLOGIA

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