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‘Cancelar contas de plataformas é mais eficaz contra desinformação’, afirma pesquisadora

Cerca de seis em cada dez pessoas no Brasil usam o WhatsApp e oito em cada dez têm conta no Facebook, principais redes sociais usadas pelos brasileiros. Num país com mais de 200 milhões de habitantes, controlar a enxurrada de conteúdo de tantos usuários não é fácil – e certamente será um desafio para a eleição presidencial, em 2022.

Para a professora e pesquisadora Patrícia Rossini, do Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool, que acompanhou as duas últimas eleições presidenciais americanas nas redes sociais, a checagem de conteúdo como tática de combate à desinformação não é suficiente.

Bolsonaristas seguem ‘cartilha’ de Trump, diz Patrícia Rossini.

Foto: Reprodução / Estadão

“As evidências científicas de eficácia são mistas. Não há escala nas plataformas para lidar com o volume de desinformação que circula fora da língua inglesa”, afirmou a pesquisadora. “Cancelar contas da plataforma, tirar do ar pessoas que espalham desinformação, isso me parece – pelo menos foi nos Estados Unidos – bastante eficaz. Todas as pessoas que saíram das plataformas perderam muito o alcance.”

Segundo Patrícia, os seguidores do presidente Jair Bolsonaro “estão seguindo a cartilha de Donald Trump”, ao colocar em dúvida a legitimidade do processo eleitoral. Na avaliação da pesquisadora, as eleições americanas trouxeram um aprendizado no combate às fake news, mas ainda não dá para saber se isso vai acontecer fora dos EUA.

Na sua mais recente pesquisa sobre crença do brasileiro em informações sobre covid, 41% disseram acreditar na mídia. Nesse universo, 73% afirmaram que se identificam politicamente com a esquerda e 27% com a direita. A que se deve isso?

No caso da direita, especificamente, eu acredito que é bastante pronunciado que a imprensa tradicional tem sofrido ataques repetidos e intensos, sobretudo do presidente. Vejo que essa desconfiança na grande mídia não é nova. Há quase uma década, a gente tem um processo de desconstrução da credibilidade da imprensa tradicional no Brasil. Acho que, sobretudo, pela própria retórica do presidente, que é completamente antimídia. É muito semelhante com o discurso de Donald Trump de que, para ele, fake news é tudo aquilo que ele não gosta, que é contra ele, não significa absolutamente nada sobre a veracidade do conteúdo ou sobre a criatividade de conteúdo. Significa somente que ele quer desacreditar os veículos.

Existem particularidades do Brasil em relação ao consumo e difusão de notícias?

Não são particularidades apenas do Brasil, mas uma tendência que a gente observa no Brasil e em alguns dos países que estão no relatório da Reuters (Digital News Report) é essa tendência crescente de uso de WhatsApp como fonte de informação. Hoje, no Brasil, Facebook e WhatsApp são usados numa intensidade muito similar para o consumo de notícias, o que é algo bastante particular do Brasil. Eu me pergunto muito o que as pessoas consideram notícia e o que elas pensam no WhatsApp.

Pensando no cenário das eleições americanas, vimos algumas publicações de Donald Trump serem censuradas. É possível uma reação parecida por aqui?

Acho que é possível esperar uma reação mais enérgica durante o período eleitoral, em virtude de uma relação preexistente entre o Tribunal Superior Eleitoral e essas empresas. Eu não diria que é impossível que eles ajam de uma forma um pouco mais enérgica, sobretudo em relação à desinformação sobre locais de votação, tentativas de supressão de voto. O custo para a democracia, para as instituições e para o próximo processo eleitoral é muito grande. E há o custo de não agir. O custo da inação, em termos de opinião pública, talvez seja mais alto. Ao mesmo tempo, isso não aconteceu ainda fora dos Estados Unidos. Digo, uma intervenção um pouco mais clara e mais enérgica das plataformas. Com o Facebook e o WhatsApp, eu acredito que é possível. Mas mais com o Facebook do que com WhatsApp. Porque no WhatsApp não tem essa oportunidade de checar conteúdos da mesma forma.

Mas houve alguma mudança a partir da pandemia, não?

A covid mudou isso tudo. Porque qualquer coisa que você postar no Facebook ou no Instagram, por exemplo, que tenha qualquer palavra que eles identifiquem como relacionada à covid, já há alguma informação que te manda o link de órgãos oficiais de saúde daquele país. Mas, em relação ao discurso político, a tendência dessas plataformas tem sido menos enérgica. Eles não gostam de se meter nessa posição de estar ou não censurando o discurso político.

No Twitter, o perfil do deputado Osmar Terra (MDB-RS), por exemplo, divulga desinformação sobre a pandemia e a plataforma faz muito pouco para conter. Há um afrouxamento das regras?

De maneira geral, as plataformas, todas elas, são muito pouco eficazes no combate à desinformação, e até mesmo na aplicação das próprias regras de moderação fora da língua inglesa. Não há escala nas plataformas para lidar com o volume de desinformação que circula fora da língua inglesa. Ao mesmo tempo, não é como se fosse muito difícil. O Twitter já entendeu, em alguma medida, que é melhor você tentar coibir o alcance. Ainda quando é uma pessoa pública e ainda quando eles não tiram post, tal, tirar recursos como RT (retuíte), reply (resposta dada a um tuíte), eles já entenderam que isso é possível. Não entendo como isso não é feito de forma mais enérgica com usuários de grande alcance, com muitos seguidores. Eu tenho, por um lado, alguma crença de que o que aconteceu nos EUA serviu como um alerta de que é preciso agir mais rápido e, talvez, de forma preventiva. Mas não sei se isso se transferiria para um pleito eleitoral fora dos EUA.

Isso parece preocupante, se pensarmos no volume de usuários do Facebook e do WhatsApp no Brasil.

Eu acho que, de maneira geral, em virtude do tamanho da população brasileira no Facebook, eles tendem a prestar mais atenção no Brasil. Acredito que a rede tem mais atenção a esses casos por aqui, certamente mais do que teria em outros países menores. Quase 80% da população brasileira está na rede. Em outras palavras, se alguém for atuar de forma mais rígida durante a eleição no ano que vem, imagino que essa rede seja o Facebook. E o próprio WhatsApp, sei que eles tentam trabalhar de forma próxima a governos e a órgãos de controle, como o TSE, e há uma tentativa ao menos de identificar mau uso, como no caso da última eleição presidencial em que nós tivemos os disparos automáticos. A questão do WhatsApp eu acho que é um pouco mais complexa, em virtude do não acesso a conteúdos. Enquanto o Facebook poderia preventivamente te dar informação correta sobre as eleições, te mandar para o site do TSE em qualquer post sobre o tema, o WhatsApp não tem como fazer isso, o WhatsApp não tem acesso a esse conteúdo.

E qual a importância desse posicionamento para as eleições no Brasil?

A gente gostaria de acreditar que é importante que você tenha plataformas com combate à desinformação, direcionando pessoas para fontes de informação que são críveis, relevantes e confiáveis. O problema, notado nas nossas pesquisas sobre covid, é que é confiável para quem? Porque você pode mandar todo mundo para o site do TSE, mas a pessoa precisa confiar no TSE. E se ela não confia no TSE? Em quem que ela vai confiar?

Como lidar com essa desconfiança?

Se houver um combate um pouco mais contundente, talvez seja possível. Cancelar contas da plataforma, tirar do ar essas pessoas que espalham desinformação. Porque isso me parece – pelo menos foi nos Estados Unidos – ser bastante eficaz. Todas as pessoas que saíram das plataformas perderam muito o alcance. Tanto é que Trump teve uma tentativa de criar o próprio blog e desistiu porque tinha um alcance muito pequeno, algo que pegou mal para ele. No Brasil, é bastante clara a divisão entre quem confia no governo, no presidente e em seus seguidores, que, de propósito, estão seguindo a cartilha de Donald Trump, colocando questionamento sobre a validade das eleições, colocando impedimentos para a ocorrência delas e, de maneira geral, tentando criar maior desconfiança no processo eleitoral. Se Osmar Terra sair do Twitter, se os filhos de Bolsonaro saírem do Twitter, do Facebook, é possível, sim, que isso tenha um efeito maior. Porque essas pessoas caem no esquecimento se elas saem das plataformas, que, de fato, têm muito alcance.

Por que apenas a checagem de notícias pode não ser suficiente?

É um assunto problemático. As evidências científicas que nós temos – e ainda não temos nenhuma pesquisa no Brasil sobre isso – mostram que o que a gente tem sobre eficácia de correção, seja correção por algoritmo, filtro, fact checking, são evidências muito mistas. Porque elas podem funcionar, mas funcionam para algumas pessoas, não para outras. Tem uma pesquisa que a indiana Sumitra Badrinathan fez, tentando mostrar como identificar desinformação no WhatsApp. Um mês depois, ela foi ver se as pessoas tinham aprendido, se ainda eram capazes de identificar, e nada. Não adiantou absolutamente nada ter passado uma hora com uma série de participantes explicando para eles. O que ela encontra, de fato, é que, para a população em geral, os resultados não são nem melhores, nem piores. Mas, para as pessoas pró-governo, no caso, o governo Modi, de fato piorou. Ao longo do tempo, eles se tornaram menos capazes, após a intervenção, de identificar desinformação. É isso, são remédios que funcionam, mas não funcionam para todo mundo. E o problema ou a solução disso não está necessariamente nas plataformas. É, na verdade, um reflexo de um problema maior que temos no Brasil, é um processo longo de desconstrução das instituições.

Tivemos, recentemente, a suspensão da conta do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), mas a decisão foi revista pelo próprio Facebook, que disse ter havido um “equívoco”, sem fornecer mais detalhes. Falta transparência nas decisões por parte das plataformas?

Sem dúvida alguma. Elas parecem, na maior parte do tempo, arbitrárias. Todas essas empresas, Facebook, Twitter, tendem a ser muito resistentes a agir contra conteúdo político de desinformação. Porque elas não querem ser acusadas de serem enviesadas, e isso leva a mais escrutínio. Nos EUA, onde discutem regulamentação de empresas de tecnologia, não há argumento que convença os republicanos de que não existe um viés silenciador das direitas. Eles sabem que, ao suspender ou banir Eduardo, vai dar muito problema. Tanto que o Facebook criou o Oversight Board, um conjunto de pessoas independentes que representam a sociedade civil e, em tese, seriam responsáveis para verificar se as atitudes do Facebook foram corretas ou incorretas em questão de moderação e suspensão de contas. É uma forma de se eximir um pouco dessa responsabilidade, de terceirizar a responsabilidade das empresas.

Qual o seu maior receio para 2022?

O que me preocupa mais, no caso brasileiro, é para onde os usuários vão. Twitter, Facebook e WhatsApp são plataformas que estão sob escrutínio há algum tempo e, portanto, já estão um pouco mais preparadas para lidar com demandas da Justiça Eleitoral, mas também para agir. Porque essas plataformas têm estado em voga em diversos pleitos, países. E nisso há a migração para o Telegram. No Telegram, vale tudo. São grupos de até 200 mil pessoas, um número absurdo. O próprio presidente e apoiadores estão fazendo uma migração. Preocupam um pouco mais essas outras plataformas, as que poderiam se tornar perigosas durante as eleições. E como a gente pode observar no Brasil, em direção ao Telegram, é um contramovimento em relação ao WhatsApp, para burlar técnicas de controle do aplicativo. Tenho medo do Telegram e do discurso em relação às urnas e à confiança no processo eleitoral.

Fonte: Terra

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