Centro mundial do comércio de flores, cidade holandesa mergulha no mundo dos leilões online

Aalsmeer, a meia de hora de Amsterdã, vende a maior parte dos produtos via Internet – mudando um negócio de um século

Uma vez por semana, os compradores descem a Aalsmeer, meia hora ao sudeste de Amsterdã, capital da Holanda, desembarcando em um enorme depósito que cobre quase dois milhões de metros quadrados. Então, se espremem entre bancos, mexem em telas de computador e, com um toque em um botão, acessam uma vasta enciclopédia de flores: tudo sobre amaryllis, chrysanthemums e gérberas, rosas e, claro, as famosas tulipas locais.

Então, próximas ao aeroporto de Schiphol, o maior do país, as flores podem ser enviadas para todo o planeta. Hoje, mais da metade das hastes cortadas são provenientes de outros países e vendidas em leilões de flores online sediados na pequena cidade, que se tornou o centro do comércio mundial de flores no começo do século 20.

O antigo sistema, porém, se ajudou a produzir as flores como sinônimo da identidade holandesa, está agora dentro de uma tormenta protagonizada pelas mudanças no negócio e nas tradições. “Nós tínhamos um sistema que foi muito dominante por mais de cem anos e que está se transformando ou desaparecendo”, disse ao Aalsmeer Journal o presidente da Dutch Flower Wholesale Association, Herman de Boon.

Preocupações com as emissões de dióxido de carbono e os custos de combustíveis de aeronaves diminuiu drasticamente a rede de logística global e, ao mesmo tempo, muitos produtores saíram da Europa na última década em direção a climas mais quentes e baratos na África. Como consequência, Aalsmeer viveu a expansão de envios diretos por navio e a chegada das batizadas “pré-vendas”. Hoje, por meio da Internet, qualquer um com licença de comprador pode participar de um leilão de flores sem precisar viajar à Holanda ou sequer inspecionar os produtos.

“Ir para lá era mais legal uns dez anos atrás”, conta Marco Von Akmaar, brasileiro filho de holandeses que administra uma floricultura na temática cidade de Holambra, em São Paulo, e viaja sempre ao país europeu. “Tinha mais barulho, a gente revia os amigos…”, relembra.

Apesar disso, a indústria de flores da Holanda – ainda respondendo por mais de 5% do PIB do país – permanece resiliente, se adaptando às mudanças climáticas mais rapidamente do que os próprios produtos que ela vende. A produção em pequena escala continua um dos pilares da identidade nacional, mas as flores negociadas nos pregões chegam do Quênia, da Etiópia, do Equador, da Colômbia e do Brasil.

Akmaar conta que seu negócio não sofreu nenhum impacto mesmo durante a crise econômica de 2008. “Como as pessoas têm menos dinheiro para pagar por férias e jantares, elas tendem a ficar em casa, onde podem manter um luxo relativamente barato em tempos de austeridade”, diz ele. “Na Europa, se você não tem flores em casa, parece que ela está nua. Este fenômeno começou a acontecer no Brasil agora”, completa.

Só a Holanda adquire 67% de tudo o que a cidade paulista produz, segundo os números de 2017. Naqueles 12 meses, foram comprados US$ 5,4 milhões (R$ 20,3 milhões) em flores dos produtores holambrenses. Os dados, no entanto, registram quedas nos últimos anos: de acordo com o Eurostat, escritório europeu de estatística, apenas nos primeiros 10 meses de 2017, de janeiro a outubro, a União Europeia gastou €624 milhões (R$ 2,8 bilhões) em importação de rosas produzidas fora do bloco. A metade delas chegou ao continente vindas do Quênia (51%), seguido pela Etiópia (20%). A fatia de 29% que sobra é dividida entre países como Equador, Colômbia e Uganda. O Brasil perdeu espaço nesse mercado na crise mundial de 2008 e nunca mais se recuperou por causa das flutuações do câmbio.

“O setor brasileiro vive um momento complexo: ao mesmo tempo que as importações caem, o mercado interno está aquecidíssimo”, diz o jornalista Mauro Zafalon, da Folha de S. Paulo. Segundo ele, as exportações totais de flores do Brasil fecharam o ano passado em US$ 12,7 milhões (R$ 49,6 milhões na cotação de julho) – o menor valor em quase duas décadas de mercado internacional. Para se ter uma ideia, em 2008 o Brasil vendeu US$ 36 milhões (R$ 140 milhões) em flores.

Em Aalsmeer, vários fenômenos ajudam a explicar a mudança: enquanto grandes produtores chegam a cultivar até 1,2 milhão de hastes ao mesmo tempo e seguem tranquilos na maré do mercado global, muitos cultivadores pequenos, especialmente aqueles que dependem das compras de greenhouses, foram podados do mercado nos últimos anos.

A cooperativa FloraHolland, que representa produtores nacionais e internacionais e que organiza os leilões online e as distribuições de flores pelo mundo, diz que o número de seu quadro de membros caiu de 5.100 para 4.600 produtores de 2008, quando a crise começou, até 2013. Ao mesmo tempo, os lucros subiram para € 4,5 bilhões (R$ 17,5 bilhões) por ano.

Embora o total tenha permanecido relativamente consistente, o número de itens comercializados nos leilões de Aalsmeer caiu. Com a queda, a FloraHolland parou de enviar suas flores cortadas aos pregões da cidade, mantendo seus produtores longe dela. A cidade, no entanto, não perde seu charme. “É a Holambra da Holanda. Todo mundo que gosta de flores tem que conhecê-la”, finaliza Akmaar.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: