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Clubhouse, nova rede social, conquista espaço com ideia de “exclusividade”

Depois de Instagram, Twitter, WhatsApp e TikTok, uma nova rede social começa a fazer barulho — literalmente. Desde 31 de janeiro, o Clubhouse, uma rede social de áudios ao vivo, parece ter virado a nova fronteira de curiosidade e de conexões na internet. Numa era em que muitos dispensam mensagens de áudio no WhatsApp e em que a oferta de podcasts é abundante, ainda há muitas dúvidas sobre como o Clubhouse conseguiu atingir o status de nova vedete das redes sociais — em janeiro, ela quase multiplicou por três sua base de usuários.

O funcionamento do novo serviço nada contra tudo aquilo que se costuma imaginar de uma rede social. Ao contrário de outros nomes do segmento, que são movidos por imagens, vídeos e textos, toda interação no Clubhouse é por áudio. Não apenas isso: assim como acontece no Snapchat e nos Stories do Instagram, os conteúdos desaparecem depois de um período — nada fica para o registro posterior. O que é dito por lá é ouvido apenas por quem estava presente no momento. É uma mistura de salas de bate-papo dos primórdios da internet com as boas e velhas rádios.

Além da peculiaridade no formato, o que parece estar alimentando o barulho em torno do Clubhouse é a aura de exclusividade do serviço. Para entrar na rede social, é preciso receber um convite de um usuário já cadastrado. E, ao menos por enquanto, o aplicativo é exclusivo para iPhone e iPad, o que transforma a rede social em um clube de VIPs — a Apple tinha apenas 11,8% no mercado global no terceiro trimestre de 2020, segundo a consultoria IDC.

O diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), Carlos Affonso de Souza, enxerga similaridades com o que ocorreu com o Instagram até 2012, quando a rede social de fotos era exclusiva para iPhone. “Existe um gostinho de exclusividade somado ao pioneirismo de desbravar aquele território”, explica. “As pessoas têm interesse em entrar nem tanto para se tornarem usuárias intensivas do Clubhouse, mas para dizer que estão lá e que chegaram primeiro.”

Para Edney Souza, diretor acadêmico da Digital House no Brasil, a corrida para entrar no Clubhouse também pode ser motivada pela ansiedade de ficar de fora de algo extremamente novo – é o que se chama em inglês de “fear of missing out” (FOMO). Segundo ele, não é algo que afeta a todos, mas é mais comum em quem é criador de conteúdo na internet, está ligado a marcas e usa redes sociais para impulsionar o próprio negócio. “Quem entra primeiro em uma rede social consegue colonizar o espaço e tem vantagem competitiva”, aponta.

Clube do Bolinha

A julgar por quem já está dentro, a taxa de FOMO da base do Clubhouse é alta: são criadores de conteúdo, empresários, empreendedores, palestrantes e especialistas em diferentes áreas. Há muitas salas (onde reúnem-se os palestrantes e ouvintes) criadas com o intuito de falar sobre empreendedorismo e inovação, o que faz o Clubhouse parecer com uma espécie de LinkedIn por voz.

Faz sentido que seja assim: quem jogou holofotes na rede social foi o bilionário Elon Musk, quando tirou alguns minutos de um domingo no final de janeiro para usar o serviço. Depois dele, Mark Zuckerberg, do Facebook, também fez uma aparição, o que reforçou a ideia de clubinho do Vale do Silício do serviço — desde o ano passado executivos de empresas de tecnologia e investidores do setor já frequentam o espaço.

“Por conta do efeito Musk, há essa conexão com empreendedorismo e startups, mas já há políticos e artistas entrando para fazer outro tipo de conteúdo”, explica Souza. “Existe essa distorção do efeito Musk, mas tende a se corrigir com o tempo.” No Brasil, apesar da entrada de nomes como da humorista Tatá Werneck, a onda ainda está mais ligada ao público influenciado por Musk. É fácil encontrar centenas de palestrantes brasileiros discutindo estratégias de marketing digital ou os desafios de se criar uma startup.




Mariana Dias, presidente da startup Gupy, elogia o clima de descontração e informalidade do Clubhouse

Mariana Dias, presidente da startup Gupy, elogia o clima de descontração e informalidade do Clubhouse

Foto: Divulgação/Gupy / Estadão

Para Mariana Dias, presidente da startup brasileira Gupy, o Clubhouse preenche um vazio deixado pela pandemia, que é o networking informal entre empreendedores. “A plataforma replica o comportamento de mesa redonda que a gente tinha com muita frequência nos escritórios e bares, mas que a pandemia tornou difícil porque exigia marcar uma reunião na agenda”, diz ela.

Além disso, a executiva faz parte do Botecho, clube que reúne empreendedores e investidores para falar “sem filtros e sem media training”, conforme diz a descrição do grupo. A ideia é a descontração, sem a formalidade digital que os encontros via Zoom ou lives trazem: os palestrantes e ouvintes não precisam organizar estantes cheias de livros e fundos para aparecer no vídeo ou pensar em roupas e maquiagens. “Existe um nível de informalidade no Clubhouse, mas há também o aprofundamento de conteúdo, o que é uma vantagem de lá”, acrescenta Dias.

Eduardo L’Hotellier, presidente executivo da Get Ninjas e membro da comunidade desde 5 de fevereiro, concorda. “Existe toda essa questão da etiqueta digital, que é o fundo organizado, o cabelo penteado. E o Clubhouse tira isso”, afirma. O empresário acrescenta que, além do uso mais “sério” para trabalho, ele não vê a hora de usar a rede para assuntos de diversão: “Estou esperando uma nova série para entrar em grupos de discussão, como eu faria com Game of Thrones.”

Popularização

Se tiver fôlego, a tendência é que o Clubhouse abra suas portas para mais gente. “Estamos trabalhando para abrir o aplicativo o mais rápido possível”, diz Paul Davison, cofundador da rede social junto de Rohan Seth, com quem lançou o aplicativo em março de 2020. Como acontece com muitos produtos de tecnologia, eventual expansão repentina poderia desestabilizar os servidores e fazer surgir erros de programação que atrapalham a experiência do usuário.

Atualmente, a base é pequena: a rede social tem 8 milhões de usuários, número muito abaixo dos 2,8 bilhões do Facebook ou dos 330 milhões do Twitter – porém, bem alto se comparado aos 3 milhões cadastrados até o final de janeiro.

Com a expansão, Davison, que já passou por Google e Pinterest, diz que quer evitar o fomento ao ambiente tóxico de outras redes sociais — ele, porém, não disse como vai moderar conteúdos de áudio em tempo real. Mas ele frisa que o Clubhouse quer focar em “conexões humanas e diálogos autênticos, em vez de curtidas ou seguidores — e tudo usando a voz”, afirmou ele ao canal CNBC em 1.º de fevereiro.

Assim, a tendência é ver mais salas sendo criadas para discutir tópicos diversos. O brasileiro Fabio Pinho, que trabalha com hotelaria nos Estados Unidos, é um dos usuários que usam o Clubhouse “somente” para se divertir, sem objetivos profissionais. Em novembro de 2020, quando foi aceito para a rede social, criou com uma amiga o clube Café Português, onde membros de línguas lusófonas podem se encontrar e criar salas com fins diversos, como para fazer intercâmbio cultural com outros países ou ensinar a línguas estrangeiras para quem quer aprender.

“Não visito o País há dois anos, e o Clubhouse é uma válvula de escape. É divertido”, afirma Pinho, que usa o app diariamente e não tem a intenção de ganhar dinheiro com a rede social. “Eu faço esse uso mais social para trocas culturais. Até participo de alguns clubes que falam de hotelaria, mas é só por curiosidade, e não por interação de trabalho.”

Para ele, os maiores pontos positivos da rede social são os recursos de voz e a possibilidade de interação ao vivo. Prova disso são os casos em que usuários criam salas para comentar programas de televisão ao vivo, como a atual edição do Big Brother Brasil: “Voz é o maior canhão do ser humano na internet atualmente e o entretenimento fica mais forte com essa ferramenta porque o conceito de segunda tela fica evidente.”

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Estadão

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Fonte: Terra

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