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Com venda de discos e suporte a artistas, Bandcamp desafia serviços de streaming

Em Oakland, nos Estados Unidos, Bandcamp tem loja física que vende discos, tem shows e permite a seus usuários ‘viverem a música’

Foto: Bandcamp/Divulgação / Estadão

Com quase 300 milhões de usuários, o Spotify é hoje sinônimo de “como ouvir música” para muita gente, num símbolo da vitória do streaming como formato de consumo de canções. Mas, em 2020, há quem desafie essa lógica. Fundado em 2007, o serviço americano Bandcamp pode parecer antiquado: vende discos digitais e físicos, não tem playlists e aposta na curadoria humana e na relação direta entre público e artista. Visto como um “anti-Spotify”, o serviço ganhou força durante a pandemia e viu seus negócios crescerem cerca de 70% nos últimos meses.

Com a indústria de shows paralisada, o site se tornou uma forma para fãs demonstrarem apoio a seus artistas favoritos – especialmente aqueles que atuam de forma independente e não tem grandes patrocínios para realizar “super lives”. Um fator que também ajudou o Bandcamp a crescer foi uma série de eventos de venda no qual o serviço deixou de cobrar sua comissão para aumentar os ganhos dos músicos, abraçando a causa. Em agosto, a plataforma ajudou quem hospeda suas canções nela a faturar US$ 16 milhões.

“O objetivo sempre foi oferecer um mecanismo no qual os fãs podem apoiar diretamente os artistas”, diz Ethan Diamond, fundador e presidente do Bandcamp, em entrevistas exclusiva ao Estadão. É uma fórmula que tem grande apelo com artistas independentes, mas não só: em sua história, o Bandcamp já hospedou os trabalhos de nomes como Radiohead, Bjork e Peter Gabriel – conhecidos não só por seus hits, mas também por experimentações artísticas e comerciais em suas carreiras.

De certa forma, o funcionamento do site é simples: cada artista pode fazer seu perfil e lançar seus trabalhos ali, determinando o preço do download – ou até permitindo que o fã o faça da forma que achar melhor. Entre 80% e 85% dos valores são repassado aos artistas – o resto é dividido entre o Bandcamp e o PayPal, serviço que processa os pagamentos. Nos EUA, além de arquivos digitais de música (incluindo formatos de altíssima fidelidade), a plataforma também vende produtos físicos, como CDs, discos de vinil e camisetas. Em muitos casos, também é possível ouvir as músicas de graça no site.

É possível dizer que o Bandcamp é um dos “últimos dos moicanos” da onda da web 2.0, na qual os usuários geravam diretamente o conteúdo das plataformas. É um contraste com o funcionamento das atuais plataformas de streaming. Nelas, os artistas não podem publicar diretamente seus trabalhos – é necessário enviar os arquivos a um distribuidor, que posteriormente morde parte da receita pelas execuções das canções. A remuneração também é diferente: estima-se que sejam necessárias cerca de 2 mil execuções para que um artista receba uma hora de salário mínimo nos EUA – US$ 7,25.

Outro aspecto à moda antiga do Bandcamp é a forma de recomendação musical: em vez de algoritmos dedicados a usuários e playlists automatizadas, o serviço aposta na curadoria humana. Lá, não existem likes – só é possível saber o que o outro gosta por meio do que já foi comprado, o que requer investimento e envolvimento do usuário. Artistas, por sua vez, podem recomendar o trabalho de outros. Já a equipe da empresa se dedica a ter um site voltado à descoberta musical, com exploração de gêneros menos conhecidos e de alta relevância.

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Foto: Divulgação / Estadão

Disputa

As diferenças do Bandcamp para o Spotify e seus rivais não param por aí. Em julho, o presidente executivo do serviço sueco, Daniel Ek, causou polêmica ao dizer que, para um artista prosperar, não é suficiente lançar um disco a cada três ou quatro anos. Segundo ele, é preciso ter lançamentos constantes para ter engajamento com os fãs. Mas a frase saiu pela culatra: ouvintes e artistas como Mike Mills, da banda R.E.M., viram na frase uma desvalorização da música como produto – como se fosse preciso lançar novidades só para alimentar a plataforma de Ek.

É um tema que Ethan Diamond, do Bandcamp, debate com palavras cuidadosamente escolhidas. “É uma situação infeliz que a música seja tratada como uma commodity para vender hardware ou assinaturas. Não é o que fazemos”, disse à reportagem. “Nosso site recomenda artistas. Não somos levados por cliques e anúncios, como ocorre no mundo atual.”

Para Luís Bonilauri, líder da indústria de mídia e entretenimento da Accenture para América Latina, os negócios têm modelos distintos. “O Spotify se tornou uma plataforma para grandes artistas e gravadoras maiores, uma vez que o retorno é mais interessante para quem tem grande volume de acessos”, diz. “Já o Bandcamp é um palco para artistas independentes, que não atingem as massas nas outras plataformas de streaming.”

Veterano da indústria musical, o produtor Pena Schmidt vai além: a diferença dos dois serviços está na forma de pensar a música. “O Spotify quer que o tempo de música do ouvinte seja todo dele, sem dividir com rádios ou discos. Já o Bandcamp quer que artistas e públicos se encontrem”, afirma Schmidt, que tem discos de nomes como Ira!, Titãs e Mutantes no currículo.

A situação financeira das duas empresas é também diferente. O Spotify, uma das maiores companhias de tecnologia da Europa, levantou muito dinheiro com investidores e hoje tem capital aberto nos EUA, mas vive com o balanço quase sempre no vermelho. No segundo trimestre, teve prejuízo de € 356 milhões. Já o Bandcamp, de meros 70 funcionários, tem capital fechado e dá lucro desde 2012 – quanto mais os artistas ganham, melhor para a empresa. “Nós fazemos as coisas mais devagar, é verdade, mas isso nos mantém no controle do negócio”, diz Diamond.

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Rakta: “É preciso ter um pé na gringa para ter receita no Bandcamp”

Foto: Mateus Mondini/Divulgação / Estadão

Tipo exportação

Aqui no Brasil, a plataforma atrai músicos, mas ainda é pouco conhecida do público em geral. “A cada 10 compras que temos, só uma é do Brasil. O brasileiro não compra no Bandcamp”, diz Anderson Foca, guitarrista do Camarones Orquestra Guitarrística, grupo de rock instrumental do Rio Grande do Norte. Com nove turnês fora do País no passaporte, a banda diz faturar entre US$ 15 e US$ 20 semanalmente no Bandcamp – mais do que o que ganha no Spotify, diz Foca.

“Para ter uma receita legal por lá, é preciso ter um pé na gringa”, diz Carla Boregas, baixista do Rakta, banda paulistana de pós-punk que está acostumada a turnês fora do Brasil. Presente no Bandcamp desde 2013, o grupo afirma ser um dos raros casos de artistas brasileiros que faturam mais no site do que com reproduções do Spotify.

Parte da culpa é do próprio Bandcamp: no site, todos os discos são vendidos em dólar e só é possível pagar com cartão internacional via PayPal, o que exclui muitos ouvintes da conta. “Temos muitos desafios para incluir o Brasil. Reconhecemos que há um mercado de música e quero agir rápido, pois adoro a música brasileira. É questão de tempo e recursos”, diz Diamond. Outra barreira é o idioma: o site da empresa só tem versões em inglês, japonês e francês.

A compositora e guitarrista paulista Letty, que toca ‘garagrunge’, se inspirou no Bandcamp para o lançamento do seu último single. Por meio de um link no PagSeguro, os fãs podiam doar e mostrar apoio – em real. “Teria sido mais fácil se tivéssemos uma versão nacional do Bandcamp”, diz ela, que também vê a maioria de suas vendas na plataformas ocorrerem fora do Brasil.

Para quem conhece a indústria de perto, uma versão nacional poderia ter um impacto positivo, inclusive para artistas famosos. “O Bandcamp está no limite para se transformar em algo conhecido pelos brasileiros. Um grande nome do sertanejo ou do funk poderia romper isso de vez”, diz Schmidt. “Poderia virar uma nova fonte de receita. Eles são uma máquina de vender muito bem montada.”

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Fonte: Terra

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