Como as ações de classe dupla criaram ‘reis intocáveis’ na tecnologia

“Os presidentes não são reis”, escreveu o juiz Ketanji Brown Jackson, do Tribunal Federal do Distrito de Columbia, em 25 de novembro, em uma decisão de 120 páginas sobre o confronto em andamento entre o presidente Donald Trump e os democratas da Câmara sobre se os atuais e ex-altos funcionários da Casa Branca devem cumprir intimações do Congresso no inquérito de impeachment. “Eles não têm súditos, vinculados por lealdade ou sangue, cujo destino eles têm o direito de controlar”, escreveu Jackson.

Para esse tipo de poder, Trump teria que transformar o governo dos Estados Unidos em uma grande empresa de tecnologia. No ramo da tecnologia, os principais executivos fundadores são geralmente imperadores de tudo, com domínio completo sobre acionistas, funcionários, conselhos e usuários em todo o planeta.

E, diferentemente dos reinos de campos de golfe com rentabilidade questionável de Trump, as empresas de tecnologia têm todo o poder real atualmente: como monarcas de dados, soberanos das comunicações e senhores da informação.

Nenhuma lei substantiva governa a tecnologia. Muitos líderes dessas poderosas empresas são, de fato, impossíveis de serem demitidos: para deixarem seus cargos, eles precisam essencialmente se despedir. Bem-vindo ao mundo das ações perpétuas de classe dupla, um velho truque financeiro que tem sido usado – e agora abusado – com grande entusiasmo pelos gigantes da tecnologia.

A empresa de compartilhamento de carros Lyft tem, assim como o Dropbox, o Snap e a empresa-mãe do Google, a Alphabet. O cofundador e presidente executivo do WeWork, Adam Neumann, tinha tanto controle da empresa que os investidores foram obrigados a pagar-lhe o resgate de um rei para desaparecer na preparação de uma oferta pública inicial (que mais tarde foi abandonada). E, talvez o mais importante de tudo, o Facebook também usa essa estrutura.

Em uma estrutura de ações de classe dupla, uma empresa emite ações para alguns acionistas que lhes conferem mais direitos de voto e, às vezes, outros poderes. De maneira mais simples, o público em geral obtém ações com menos poder de voto e, às vezes, sem absolutamente nenhum poder. Com ações perpétuas de classe dupla, os fundadores e suas famílias, e talvez outros executivos chave, obtêm ações com poder de voto que lhes confere o controle sobre uma empresa para sempre.

Várias versões de ações de classe dupla existem há muito tempo. Os fundadores da Ford as usaram para proteger seu projeto de longo prazo. Também foi empregada por gigantes da mídia de propriedade familiar, como The New York Times, Viacom e News Corp, que sem dúvida têm negócios direcionados.

Mas a tecnologia levou o uso de ações de classe dupla por organizações a novos patamares. Mais de 50% das empresas de tecnologia a utilizam e, muitas vezes, desde o início, como startups.

Os fundadores sempre foram os jovens prodígios do Vale do Silício, apesar de suas birras ocasionais. Protegê-los tem sido uma preocupação primordial, mesmo que a maioria dos fundos de investimento diga abertamente que odeia dar controle total sobre eles. Mas aceitar a estrutura de ações classe dupla costuma ser o preço para fazer parte da próxima grande novidade.

É fácil ver a sabedoria nesse arranjo. As ideias precisam de tempo para germinar e crescer no início de uma empresa inovadora. E decisões impopulares de executivos, tomadas com o longo prazo em mente, podem precisar ser protegidas contra interferências de acionistas ativistas, que podem estar muito focados no desempenho de curto prazo.

Algumas pesquisas acadêmicas divulgam os benefícios das ações de classe dupla, embora muitos estudos mostrem os inconvenientes. Isso inclui retornos mais baixos de ações, maior remuneração de executivos, aquisições mais estranhas e, é claro, administração que nunca paga o preço por más decisões ou comportamento.

Aqui está o problema com as empresas de tecnologia que usam esquemas de ações de classe dupla: elas podem funcionar bem até que não funcionam. Alguns especialistas pedem a imposição de nova legislação para melhorar o sistema. Uma maneira de fazer isso é o cancelamento obrigatório de ações de classe dupla: após um período de tempo, as ações são convertidas automaticamente em classe única.

Mas como ser flexível quanto ao período, já que algumas empresas amadurecem mais rapidamente que outras?

A questão é quanto tempo deve demorar até o presidente executivo ser responsabilizado?”, disse Robert Jackson, comissário da Bolsa de Valores. Jackson acha que devemos começar dizendo “não para sempre”.

“Estamos criando uma classe de royalties que controla nosso diálogo nacional”, afirmou. “Não apenas você não pode demitir Mark Zuckerberg, como também não pode demitir os filhos dele ou os netos”. Os netos de Mark Zuckerberg? Embora isso pareça improvável, é por isso que as ações de classe dupla que nunca terminam estão sob ataque – às vezes por parte de poderosos grupos de investidores.

O Investor Stewardship Group e o Council of Institutional Investors, com bilhões de ativos, pedem a limitação de ações de classe dupla após sete anos. A CII e outros grandes investidores entraram com uma petição para fazer isso há um ano na Bolsa de Valores de Nova York e na Nasdaq. “A petição tem mais de um ano”, disse Jackson. “O que você acha que aconteceu até agora? Nada.”

Em outras palavras, vida longa aos reis. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Fonte: PORTAL TERRA – TECNOLOGIA

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