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Como iniciar na alta montanha Parte III – Quais as melhores atividades para começar?

Nos artigos anteriores havíamos proposto uma autoavaliação (leia parte I e parte II), com o intuito de determinar se temos o perfil adequado para a alta montanha e se preenchemos os requisitos básicos para uma iniciação nesse ambiente, cujas particularidades trazem dificuldades e desafios específicos para a prática de atividades esportivas. Agora vamos discutir quais seriam os melhores caminhos para quem deseja se iniciar na alta montanha, de forma que essa possa ser uma experiência gratificante e exitosa, bem como um roteiro para o aperfeiçoamento de conhecimentos e habilidades.

A regra básica para começar, não apenas na alta montanha, mas em qualquer modalidade de montanhismo e escalada, é buscar um caminho gradual de aprendizagem e experiência. Infelizmente, por influência das notícias e relatos sobre ascensões em grandes montanhas dos Andes e do Himalaia, e sobre projetos comerciais, como o Sete Cumes, marcados pelo sensacionalismo e por uma certa glamorização do montanhismo, muita gente quer começar buscando subir montanhas famosas acima de 6.000 metros, ou até mesmo acima de 8.000 metros, sem nenhuma experiência prévia.

Foto: Marcelo Delvaux

As expedições comerciais têm contribuído, também, para uma visão deturpada sobre quais seriam os reais objetivos do montanhismo. Certamente, quem está começando e se informa por sites que têm esse enfoque (inclusive sites especializados, que teriam a obrigação de adotar uma postura mais crítica), deve pensar que a meta principal seria chegar ao cume, não importando como se chega até lá. E que quanto mais cumes no currículo (e quanto mais altos esses cumes), melhor.

Hoje, apesar da quantidade imensa de informação disponível, a mescla de montanhismo comercial (que prioriza montanhas famosas) e montanhismo quantitativo (que prioriza quantidade e extrema altitude, em detrimento da qualidade) tem levado ao iniciante a buscar um caminho que o afasta da possibilidade de desenvolvimento de suas habilidades como montanhista. Por isso, o primeiro tópico a ser abordado para quem deseja se iniciar na alta montanha é tentar definir quais são os objetivos gerais que gostaria de alcançar e quais as metas específicas a serem buscadas ao longo dos anos.

Como objetivos gerais podemos identificar duas possibilidades principais: objetivos pessoais e objetivos esportivos. Em um artigo anterior (O montanhismo como esporte: mérito pessoal x mérito esportivo) eu detalhei as diferenças entre esses dois tipos de objetivos. De um modo geral, objetivos pessoais, como o próprio nome diz, são de ordem pessoal e conduzem a um mérito também pessoal. Por exemplo, ninguém poderia ser questionado por haver subido o Everest em uma expedição comercial, usando oxigênio suplementar, guias, sherpas, cordas fixas, etc. Quem assim o faz poder ter realizado um projeto ou sonho pessoal e seu mérito é inquestionável.

O problema é quando alguém tenta transformar o mérito pessoal em um mérito esportivo, como é o caso de quem sobe o Everest nessas condições e se faz passar como grande montanhista por ter chegado ao cume mais alto do mundo, surfando na onda de desconhecimento do grande público para tornar-se uma celebridade. Essa é a principal característica do que poderíamos chamar de “montanhismo pop”, cujos representantes, os “montanhistas pop”, têm o mesmo comportamento das celebridades (ou sub-celebridades) que ficam, momentaneamente, em evidência na mídia, em outras áreas e atividades humanas.

Foto: Marcelo Delvaux

O mérito esportivo está relacionado a metas que são relevantes para o esporte que se pratica. Dando outro exemplo, completar uma maratona em 5 horas é de grande valor pessoal para quem se propôs esse desafio, mas não pode ser considerado uma conquista do ponto de vista esportivo, já que a elite dos corredores de maratona, na atualidade, busca quebrar a barreira das 2 horas.

Se o objetivo for subir montanhas com intuito de desfrutar dessa atividade como lazer, cumprindo objetivos pessoais, o caminho pode ser (e certamente será) diferente de quem deseja subir montanhas pensando em atingir objetivos esportivos. O mérito esportivo no montanhismo está diretamente relacionado com o conceito de autossuficiência. Isso não quer dizer que alguém tenha que ser capaz de subir montanhas ou escalar rotas técnicas sozinho. Autossuficiência significa poder entrar em uma expedição cujo grupo é autossuficiente e consegue exercer as atividades técnicas requeridas na rota escolhida sem depender de profissionais remunerados que façam o trabalho para o grupo, preparando o caminho até o cume, como nas expedições comerciais.

Também é importante que não exista uma dependência das habilidades de alguém que faça parte grupo, centralizando nessa pessoa as responsabilidades e decisões. Seus participantes devem compartilhar uma certa homogeneidade no nível de conhecimento e experiência que o grupo possui, para que a expedição ocorra em segurança, cumprindo os objetivos previamente traçados.

Definidos os objetivos gerais, podemos sugerir o seguinte roteiro para uma iniciação à alta montanha, sempre tendo em vista um caminho gradual de aprendizagem e experiência, independentemente do objetivo escolhido:

  1. Ganhar experiência em altitude: trekking ou ascensões?

Foto: Marcelo Delvaux

Não faz muito sentido tentar subir uma montanha acima de 6 mil metros sem nunca ter chegado acima dos 4 ou 5 mil metros. Por isso, o ideal para quem vai começar é colocar metas intermediárias, visando uma superação gradativa de altitude que possibilite conhecer como o corpo se comporta em baixos níveis de pressão de oxigênio e ganhar experiência com as características do ambiente de alta montanha, como o frio, o terreno, etc. Apesar de não ter uma comprovação científica, empiricamente vemos que o corpo vai melhorando sua capacidade de aclimatação à medida que aumentamos nossa exposição à altitude. Em outras palavras, quanto mais experiência acumulada na altitude, melhor nosso desempenho. Claro, há quem não se aclimate de forma alguma e é melhor descobrir isso em uma montanha mais baixa e de fácil logística, do que partindo para um desafio maior na primeira oportunidade.

Uma questão importante é se essa iniciação à altitude seria mais adequada subindo alguma montanha ou realizando um trekking. Acho que a resposta depende mais das preferências e gostos pessoais. Adotando um critério de subir gradativamente, tanto faz participar de um roteiro de trekking ou de uma expedição visando algum cume. Um detalhe que pode fazer diferença na hora de escolher seu programa é que são raras as expedições comerciais de montanhismo que apresentam alternativas de montanhas com menos de 5.000 metros de altitude, por influência da visão quantitativa que predomina no montanhismo comercial da atualidade. Por isso, certamente o iniciante vai encontrar mais opções interessantes de trekking do que de ascensões para uma primeira experiência.

Foto: Marcelo Delvaux

Para quem tem disponibilidade de tempo e de recursos, uma estratégia antes de subir algum cume poderia ser uma sequência de roteiros de trekking que permitam um ganho gradual de experiência em altitude:

  • Trekking superando os 4.000 metros, com acampamentos abaixo dos 4.000 metros. Por exemplo, a travessia de Choquequirao a Machu Picchu, na Cordilheira Vilcabamba.
  • Trekking superando os 4.000 metros ou 5.000 metros, com acampamentos acima dos 4.000 metros e abaixo dos 5.000 metros. Por exemplo, o Circuito Ausangate, na Cordilheira Vilcanota.
  • Trekking superando os 5.000 metros, com acampamentos acima dos 5.000 metros. Por exemplo, o trekking até a nascente do rio Amazonas, no Nevado Mismi, Cordilheira de Chila.

Ganhando experiência em trekking de altitude, o próximo passo poderia ser a ascensão de montanhas de altitude cada vez maior, até a superação da barreira dos 6 mil metros e, posteriormente, os 7.000 e os 8.000 metros nas cordilheiras asiáticas, se for o caso. As metas específicas que cada um vai escolher (que incluem que montanha subir e por qual rota) dependem não somente dos interesses pessoais, mas estão vinculadas ao tipo de objetivo escolhido.

Quem busca objetivos esportivos teria, necessariamente, que se planejar para executar o roteiro sugerido no item 2 desse artigo, para estar apto a determinar metas esportivas.

No próximo artigo vamos apresentar os lugares mais indicados nos Andes para iniciar-se na alta montanha, de modo que cada um possa escolher metas específicas para suas ascensões e caminhadas.

  1. Curso de escalada em gelo: vale a pena começar dessa forma?

Foto: Arquivo Pessoal Marcelo Delvaux

A resposta é não.

Ir, por exemplo, até a Bolívia para fazer um curso de escalada em gelo sem nunca ter estado na altitude antes, e sem saber escalar em rocha, pode ser algo frustrante ou sem grandes ganhos. A falta de experiência em altitude pode levar a problemas de aclimatação que impeçam um acompanhamento adequado das atividades do curso. E tentar escalar em gelo sem nenhuma experiência em escalada, sem conhecer os nós e procedimentos básicos, sem ter uma “inteligência corporal” associada às posições típicas ao ato de escalar, sem estar familiarizado com os equipamentos, etc., implica em uma grande possibilidade de não conseguir assimilar o conteúdo do curso.

Fazer um curso de escalada em gelo é recomendável para quem já possui algum tipo de conhecimento ou experiência em outras modalidades de escalada. Antes mesmo de se fazer um curso de escalada em gelo, recomenda-se um curso de trânsito em glaciar e resgate em gretas. Como pré-requisito obrigatório para se escalar gelo vertical está o aprendizado do uso de piolets e crampons e do trânsito com segurança por glaciares. Escalar em gelo seria um estágio posterior, porque é difícil ter uma boa performance em gelo vertical sem ganhar experiência com o ambiente e com os equipamentos utilizados nessa atividade.

Trecho do Circuito Ausangate | Foto Marcelo Delvaux

Para quem não tem interesse em ir para a alta montanha com objetivos esportivos, talvez também não faça sentido cursos dessa natureza. Para quem buscará em sua vida de montanhista metas (e méritos) esportivos, nesse caso, sim, é obrigatório traçar um caminho que conduza ao aprendizado técnico e à autossuficiência, que mencionamos antes. O roteiro de aprendizado poderia ser o seguinte:

  • Caso não pratique escalada em rocha, realizar um curso de escalada e começar a escalar em rocha no Brasil com regularidade. A escalada também será uma excelente atividade de treinamento, tanto físico, quanto psicológico, para expedições futuras. Além disso, saber escalar é fundamental para quem deseja se profissionalizar como guia de montanha, pois é impossível conseguir uma certificação ou título de guia sem essa habilidade.
  • Após ganhar experiência em escalada em rocha, e tendo cumprido o roteiro do item 1 para ganhar experiência em altitude, realizar um curso de trânsito de glaciar e resgate em gretas.
  • Começar a escalar rotas alpinas de graduação entre PD e AD, em montanhas acima dos 5.000 e 6.000 metros, para consolidar a experiência em trânsito de glaciares e escalada em pendentes de inclinação moderada. Montanhas andinas nessa faixa de graduação técnica podem oferecer excelentes desafios, sem a necessidade de dominar escalada vertical em gelo. Essas ascensões podem começar através da contratação de um guia e, com a experiência adquirida, poderiam ser feitas de maneira autônoma com algum parceiro com o mesmo nível de conhecimento e de domínio técnico. Esse é o caminho da autossuficiência!
  • Realizar um curso especializado de escalada em gelo e escalada alpina (rotas mistas, em rocha, neve e gelo).
  • Começar a escalar rotas alpinas de graduação acima de AD (D, D+ e superiores), envolvendo, gradativamente, escalada vertical em gelo/mista.

O caminho proposto no artigo visa, não somente, uma iniciação segura à alta montanha e um roteiro para o aperfeiçoamento técnico. Seguindo tal abordagem, acreditamos também em um crescimento pessoal e um desenvolvimento ético, a partir da conscientização dos montanhistas sobre a diferença entre subir montanhas para realizar sonhos pessoais e entre subir montanhas buscando atingir alguma meta esportiva.

Confundir mérito pessoal com mérito esportivo é a base de sustentação daqueles que denominamos nesse artigo de “montanhistas pop”, o que se tornou possível pela falta de uma difusão adequada de assuntos relacionados à ética do montanhismo entre seus praticantes. O esclarecimento dessas questões é de fundamental importância para que cada um escolha seu caminho, sem comprometer a nobreza e a beleza do ato de se subir uma montanha.

Guia profissional de montanha, com título de “Guía Superior de Montaña” obtido na EPGAMT. Guia de montanha associado à AAGM e à AAGPM. Guia de montanha credenciado no Parque Provincial Aconcagua. Sócio da empresa SummIT – Gestão de Projetos e Desenvolvimento Humano. Além de liderar expedições de escalada e trekking em alta montanha, trabalha com treinamento e consultoria nas áreas de gestão, liderança, motivação e inovação.
Pratica escalada em rocha desde a década de 1990 e alta montanha desde o início dos anos 2000, tendo realizado mais de 80 ascensões nos Andes e no Himalaia

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Fonte: R7

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