Como vivem os últimos 57 pacientes do Hospital Psiquiátrico do Juquery

FRANCO DA ROCHA – Virgínia**, de 95 anos, passa os dias deitada em uma maca na ala dos acamados do Juquery, em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, onde ficam 11 pacientes — a maioria nascida na década de 1920. Hoje encolhida na cama e com o rosto coberto, como prefere ficar por horas, ela chegou ao hospital há 76 anos com surtos de esquizofrenia e se tornou a moradora com mais tempo na instituição. A idosa não anda, não ouve, não fala e solta gemidos baixos quando alguém tenta algum tipo de contato.

Assim como a maior parte dos internos, Virgínia não tem laços familiares. Dos 57 que estão lá, 23 (40,3%) não recebem visitas de parentes e 34 (59,7%) com baixa frequência — de duas a seis vezes por ano. Além disso, a maioria dos raros encontros não é demonstração de amor e carinho, mas de interesse.

Segundo a psicóloga da unidade, Paula Karkoski, alguns procuram os idosos apenas por questões de herança ou curatela, que é quando a Justiça determina um responsável por cuidar dos bens de um ente incapaz.

“A qualidade da visita nem sempre é a que a gente gostaria que fosse. Às vezes, trazem algo, mas dizem que não podem ficar. Isso é angustiante”, lamenta.

De acordo com o diretor do Juquery, Glalco Cyriaco, o fato de serem mais velhos complica ainda mais a aproximação, pois os vínculos afetivos se perderam e as famílias mudaram completamente: a média de internação no hospital é de 33 anos e a de idade gira em torno dos 70.

As dificuldades esbarram também em questões financeiras: parte dos parentes não pode levar os idosos para casa por falta de condições de sustentá-los. Isso porque, além da esquizofrenia, muitos sofrem com problemas de saúde decorrentes da velhice, como surdez, baixa visão, diabete e hipertensão, cujos cuidados nem sempre saem baratos para o bolso.

Idosos ficam presos a mágoas do passado

Em meio a uma rotina monótona, quem passa por lá sente que parou no tempo: além de encontrar uma arquitetura clássica projetada por Ramos de Azevedo em 1895 — em ruínas —, depara-se com histórias de pessoas que, alheias à realidade, estacionaram em mágoas e assuntos do passado.

Maria, de 102 anos, está internada há 38 por esquizofrenia e lembra dos parentes como pessoas ruins.

“Eu só tinha na vida a minha mãe, mas ela morreu quando eu era pequena. Aí sobrou a parte do mal”, conta.

Sem receber visitas de ninguém, passa o tempo bordando em panos de prato e assistindo às aulas da “escolinha” do hospital, onde os idosos exercitam a memória com assuntos como higiene, alimentação e alfabeto.

Clóvis, de 83 anos, está internado há 34 e abre um sorriso quando fala de juventude, antes de ser diagnosticado com esquizofrenia.

“Gosto de pegar na enxada e cortar mato. Nunca tive medo de trabalhar”, diz ele, enquanto borda um tapete de banheiro.

Fátima, por sua vez, tem 74 anos, mas fala que está com 40. Ela se considera vaidosa: gosta de pintar as unhas e de se maquiar.

Enquanto alguns se identificam com o passado, outros sequer sabem quem são. Carlos, por exemplo, vive em uma cadeira de rodas e não há registros oficiais de quem ele é, onde viveu e como chegou ao Juquery.

“Temos moradores sem informações que os identifiquem. Vieram parar aqui sem histórico familiar, não sabiam quem eram e muito menos os nomes dos pais”, conta Alice Scardoelli, psiquiatra responsável pelos idosos.

*ESTAGIÁRIO SOB A SUPERVISÃO DE CHARLISE MORAIS

**TODOS OS NOMES DOS MORADORES SÃO FICTÍCIOS, COM EXCEÇÃO DOS QUE ESTÃO NAS RTS, CUJA IDENTIDADE PODE SER EXPOSTA

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Fonte: PORTAL TERRA – SAÚDE

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