fbpx

Conheça a vida da sobrevivente do Holocausto que foi campeã olímpica – Esportes


Os sofrimentos não impediram a húngara Agnes Keleti , 98 anos, de manter um sorriso vencedor no rosto. Mas ela entende que, somente sorrindo, não iria se tornar uma medalhista olímpica.


Não iria ser uma vencedora, ainda mais depois de tudo o que passou. “Ser gentil e maternal não leva a essas conquistas”, diz, à agência JTA.


Leia mais – Testemunha do terror em Munique 1972 diz: ‘O esporte vence tudo’


Não que, com isso, ela esteja rejeitando a importância da gentileza, conforme dá a entender. É que, no seu caso, Agnes teve de viver escondida por anos e, depois da Segunda Guerra, ser renegada em seu próprio país. Por ser judia, deixou a Hungria nos anos 50, quando já havia conquistado 10 medalhas olímpicas como ginasta.


Depois, ao se tornar professora de ginástica, passou a dar este recado para as alunas. Nenhuma conquista vem se não houver direcionamento, superação e esforço. Para chegar até lá, Agnes também teve de mostrar que não só seu corpo era rijo e elástico. Seu espírito também. 


Nascida de uma família rica, desde cedo ela era um prodígio na música, tendo se tornado violoncelista. Em seguida, se ligou aos esportes. Primeiro à natação, levada pelo seu pai a nadar perto do Lago Balaton.


E depois para a ginástica, que começou a praticar ainda menina. Neste período, desenvolveu sua personalidade forte, com sacadas um tanto sarcásticas como a do parágrafo inicial. E a obstinação elevou sua capacidade de alongar sua vida, tal qual fazem os melhores ginastas em uma eficiente abertura de pernas.


Hoje, na Hungria, ela finalmente pode se sentir vencedora. É reverenciada como uma das maiores esportistas do país em todos os tempos. 


Escondida em seu país


Durante o governo de Miklós Horthy, até 1944, a Hungria era aliada do regime nazista. E a perseguição aos judeus era a marca do governo. Para não ser enviada a um campo de concentração, Agnes abandonou todos os seus afazeres e se tornou uma nova personagem de si mesma.


Ela foi viver no interior do país, na clandestinidade, como empregada doméstica. Passou cerca de três anos trabalhando duro, limpando a casa e sem dar margens para a desconfiança “Eu era forte e trabalhava duro. Ninguém fazia perguntas”, lembra. Ela também trabalhou em uma fábrica de munições.


Este período foi sem dúvida o mais trágico de sua vida. Seu pai e seus tios foram assassinados em Auschwitz. Sua mãe e sua irmã acabaram sendo salvas pelo diplomata e arquiteto sueco Raoul Wallenberg, morto posteriormente por agentes da União Soviética.


Passada a guerra, levou um tempo para ela se recuperar. Inclusive fisicamente. Buscou deixar as marcas do passado para trás, mas, na Olimpíada de 1948, em Londres, algo ainda a atrapalhava.


Seu corpo e sua alma só voltaram a ficar mais leves quatro anos depois, quando ela conquistou a sua primeira medalha de ouro, nos Jogos Olímpicos de Helsinque, em 1952, na apresentação no solo.


Ela também foi prata, por equipe, e ficou com o dois bronzes (aparellho por equipe e barras assimétricas). Agnes já tinha 31 anos, cerca de 10 a mais do que a média das adversárias.


Perseguição comunista


Em 1956, já com 35 anos, viveu seu auge, mostrando que a longevidade atua a seu favor. Ficou com quatro ouros (trave, barras assimétricas, solo e aparelhos – equipe) e duas pratas (equipe e em todos os aparelhos). 


Ela foi incluída no Hall da Fama dos Esportes Judaicos Internacionais em 1981; no Hall da Fama dos Esportes da Hungria em 1991 e no Hall da Fama Internacional da Ginástica em 2002. Antes, porém, a campeã consagrada teve de ir morar em Israel em 1957, evitando ser hostilizada em sua terra natal.


“Não era um bom ambiente para os judeus, mesmo para uma atleta que se tornara estrela”, lembra.


A ex-atleta nem chegou a voltar para a Hungria na ocasião. Isto porque, agora nas mãos do regime comunista, o Exército Vermelho perseguia opositores e judeus em Budapeste. Reprimiu com violência a famosa Revolução Húngara, em 1956.


Vários esportistas, além de Agnes, não voltaram para o país. Foram os casos dos jogadores de futebol do Honved, como Puskas e Kocsis, que excursionaram com o clube pela América do Sul, jogando inclusive contra o Flamengo no Brasil.



Depois, Puskas foi punido pela Fifa e ficou mais de um ano suspenso, antes de ir para o Real Madrid e se radicar na Espanha. Kocsis e Czibor foram para o Barcelona.


De volta ao país


Em Israel, Agnes se casou, teve dois filhos e passou a dar aulas de ginástica para meninas. Também se tornou celebridade local, tendo atuado no Instituto Wingate, perto de Netanya, na década de 1960. E é considerada a criadora da equipe nacional de ginástica israelense.


Mas, em 2012, ela resolveu voltar a Budapeste, onde mora em um pequeno apartamento. Já sofre de um tipo de demência que a faz se esquecer de alguns acontecimentos recentes. Mas não perdeu o discernimento.


A ex-ginasta critica a pressão que meninas como Simone Biles, hoje com 22 anos, sofrem para começar na carreira de ginasta cedo demais, com exercícios muito avançados para a idade de 16 anos. Agnes sabe que, até mesmo para ginastas, o tempo, e não a pressa, é o melhor companheiro.


Milhares vão às ruas contra autoritarismo de premiê na Hungria



Fonte: R7

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!