fbpx

Contra aquecimento global e por agronegócio, empresários e cientistas pedem ação do Brasil

RIO – O Brasil deve ampliar suas metas de redução das emissões dos gases do efeito-estufa e reduzir significativamente o desmatamento ilegal para ser um protagonista relevante nas discussões da próxima Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-26). Essas recomendações foram feitas ao governo Jair Bolsonaro pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. O movimento reúne representantes do agronegócio, do setor financeiro, da sociedade civil e da ciência do País. O decisivo encontro climático será em Glasgow, na Escócia, a partir do dia 31.

Com um PIB fortemente baseado em produtos agropecuários, o Brasil é vulnerável a alterações climáticas. A atual meta de redução de gases-estufa do País é de 43% até 2030 em relação às emissões de 2005. De acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, no entanto, os países precisam ir além. Devem reduzir pelo menos 50% até 2030. Essa deve ser a meta. Esse deve ser o patamar, se quiserem manter o aumento total da temperatura média do planeta em 1,5ºC. O número foi firmado no Acordo de Paris.

“Estamos no caminho de termos um aumento médio da temperatura global de 2,5ºC a 3,0ºC até o fim do século, alcançando uma situação indesejável e imprevisível do ponto de vista climático; vamos entregar um planeta muito instável para nossos filhos e netos”, resumiu o diretor-executivo do Instituto de Pesquisa da Amazônia (Ipam), André Guimarães, que integra o conselho da Coalizão. “Todas as nações do mundo têm que se conscientizar e ampliar suas ambições, sobretudo os maiores emissores (China, Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Brasil).”

De acordo com o documento, três quartos das emissões do Brasil estão relacionadas ao uso da terra. Do total, 28% são geradas pela agropecuária, e 44%, pelo desmatamento. Como 90% do desflorestamento da Amazônia é ilegal, diz Guimarães, precisa haver um compromisso maior do governo no combate ao crime. Sobretudo, alerta, porque a situação vem se agravando.

É isso que indicam dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O acumulado de alertas de desmatamento na Amazônia, entre agosto de 2020 e julho de 2021, foi de 8,7 mil quilômetros quadrados. Foi o segundo pior resultado em cinco anos. A área desmatada representa praticamente o dobro do registrado de 2016 para 2017 e de 2018 para 2019.

“Precisamos de metas mais ambiciosas e precisamos acelerar esse processo, 2030 está muito longe”, afirmou o pesquisador. “Precisamos antecipar essa meta e termos ações mais contundentes, até porque estamos falando de crimes. Precisamos de um compromisso maior do governo de combate efetivo ao desmatamento.”

Além de zerar o desmatamento, o documento sugere outras medidas. São ações como incentivar a restauração de áreas degradadas que sejam consideradas prioritárias para a conservação da biodiversidade, segurança hídrica, mitigação climática, segurança alimentar, e promoção da bioeconomia. Outra iniciativa importante seria a criação de novas áreas protegidas. A Coalizão sugere também o apoio a populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas.

“Desfazer as áreas de proteção existentes sinaliza para grileiros que eles podem invadir e desmontar”, apontou Guimarães. “Precisamos manter o que já existe e, se possível, ampliar. Na Amazônia, 50 milhões de hectares são florestas públicas não destinadas, ou seja, não são parque, não são reserva, não são território indígena, e é nessas áreas que acontece o desmatamento ilegal.”

O Brasil confirmou no ano passado os 43% como objetivo oficial de redução de emissões até 2030. Até então, o número era só indicativo. Mas a menção à meta de redução absoluta, em gigatoneladas de carbono, foi retirada. Esse movimento abriu possibilidade para aumento das emissões. Além disso, as metas do governo não mencionam as ações políticas para atingi-las. Não se fala em combate ao desmatamento ilegal, restauração da mata e reflorestamento.

Parte significativa do empresariado e dos representantes do agronegócio afirma estar consciente da importância do clima para suas atividades. Esses setores apoiam o relatório.

“A produção agropecuária brasileira, que responde por 26,6% do PIB nacional, é extremamente vulnerável ao clima e já sente os efeitos do aquecimento global”, admitiu o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Brito, cofacilitador da Coalizão. “Como quinto maior emissor de gases do efeito estufa e também como uma das economias mais vulneráveis a alterações do clima, o Brasil precisa elevar urgentemente sua ambição climática.”

Com um aumento médio da temperatura global de 1,5ºC o Brasil enfrentará aumento das chuvas no Sul e no Sudeste. Haverá ainda redução das precipitações no Centro-Oeste, Nordeste e no leste da Amazônia. Se o aumento ficar entre 3ºC e 4º, no entanto, a situação piora. A produção das principais commodities nessas regiões será inviabilizada.

“A agricultura responde por mais de um quarto do nosso PIB, a metade das nossas exportações, é motivo de orgulho para todos nós”, lembrou Guimarães. “No entanto, essa mesma agricultura depende do fluxo natural de chuvas (90% da nossa produção não é irrigada). A floresta é a maior fábrica de chuva que existe. Manter a floresta em pé é necessário para sermos a potência agrícola que somos.”

Até a publicação deste texto, o Ministério do Meio Ambiente não tinha se pronunciado sobre o relatório.

Fonte: Terra

Deixe uma resposta

Jornais Virtuais