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Coronavac pode estimular defesa mais completa contra o coronavírus, indica estudo chileno

Com os resultados da fase 3 dos estudos clínicos da Coronavac no Chile, pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do país divulgaram também dados sobre a resposta imunológica dos pacientes, ou seja, o tipo e a quantidade de anticorpos produzidos pelo organismo para combater o novo coronavírus. Esses dados, divulgados na semana passada, ganharam relevância no Brasil diante das variantes como a P.1, que se tornaram predominantes no País. Os dados chilenos, no entanto, geram interpretações diferentes entre os especialistas.

Publicado como preprint, ou seja, uma versão que ainda não foi revista e analisada por outros cientistas, o artigo está no site Medrxiv desde o dia 1º de abril. Trata-se de um estudo pequeno com 434 participantes que foram vacinados no intervalo de duas semanas (0-14) entre 27 de novembro de 2020 e 9 de janeiro de 2021.

A análise sobre a resposta imunológica foi feita em um subgrupo de 190 voluntários. Os cientistas chilenos analisaram, por exemplo, a presença de anticorpos neutralizantes, capazes de bloquear a entrada do vírus na célula humana. A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac induz a uma produção de anticorpos menor do que as outras vacinas, como a Pfizer e a Moderna.

Nesse aspecto, o estudo chileno apenas confirma dados que já haviam sido reportados pelos estudos chineses de fases 1 e 2. “A Coronavac é capaz de gerar estes anticorpos tanto em jovens como em pessoas mais velhas, mas a quantidade gerada é muito baixa, pois eles deixam de ser detectados se o soro foi diluído mais do que 16 vezes”, explica o biólogo Fernando Reinach, colunista do Estadão.

Os anticorpos não são medidos em quantidade, mas sim de acordo com sua capacidade de proteção em caso de diluição. Como comparação, as outras vacinas em uso no Brasil conseguem neutralizar o vírus mesmo quando são diluídas 300 vezes.

Reinach estabelece ainda uma relação entre os anticorpos e a proteção das vacinas contra as variantes do coronavírus. “Quando (uma vacina) produz muitos anticorpos, existe maior chance de ser resistente às variantes. Existe mais espaço para perder eficácia e, mesmo assim, funcionar”.

Alguns especialistas apresentam visões diferentes. É o caso dos cientistas Daniel Y. Bargieri, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e coordenador do Núcleo de Pesquisas em Vacinas da USP, e Mellanie Fontes-Dutra, pesquisadora em bioquímica do Instituto de Ciências Básicas de Saúde da UFRGS, e autores do artigo “Coronavac para além de anticorpos”. “É normal e esperado que vacinas baseadas em vírus inativados, como a Coronavac, estimulem quantidades menores de anticorpos do que vacinas que não utilizam o vírus inteiro. São estratégias diferentes”, diz trecho do artigo.

Imunizantes de mRNA ou RNA mensageiro, como a da Pfizer, por exemplo, são criados a partir da replicação de sequências de RNA (primo do DNA) por meio de engenharia genética. O RNA mensageiro mimetiza a proteína spike, específica do vírus Sars-CoV-2, que o auxilia a invadir as células humanas. Essa “cópia”, no entanto, não é nociva como o vírus, mas é suficiente para desencadear uma reação das células do sistema imunológico, que cria uma defesa no organismo.

A vacina de origem chinesa é feita com o vírus inativado: ele é cultivado e multiplicado numa cultura de células e depois inativado por meio de calor ou produto químico. Ou seja, o corpo que recebe a vacina com o vírus – já inativado – começa a gerar os anticorpos necessários no combate da doença.

Bargieri afirma que, apesar de estimular níveis mais baixos de anticorpos, a Coronavac busca gerar resposta imunológica para outras proteínas do vírus, incluindo a indução de células do sistema imunológico (os linfócitos). Segundo ele, essa característica não havia sido detectada pelos estudos chineses e pode ser apontada como a grande novidade do estudo chileno.

“Esse dado é uma ótima notícia, pois indica que a vacina é capaz de treinar o sistema imunológico para agir contra todas as partes do vírus, não apenas contra a proteína S, com a presença dos linfócitos para compor o arsenal da resposta contra a infecção viral. Provavelmente a Coronavac é menos suscetível às mutações que o vírus faz na proteína S”, diz o pesquisador do ICB.

Variantes

Os resultados sobre a resposta imunológica dos pacientes ganharam relevância no Brasil diante das variantes do novo coronavírus. Descoberta pela primeira vez em Manaus, a variante brasileira P.1 – potencialmente mais transmissível – tem sido apontada por epidemiologistas como uma das causas do aumento de casos e mortes por covid-19 no País.

Questionado pelo Estadão, o Instituto Butantan, responsável pela fabricação das vacinas no Brasil, afirmou que vai entregar os dados completos sobre imunogenicidade, capacidade de geração de respostas imunes aos indivíduos vacinados, para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no dia 30 de abril. “Conhecer a imunogenicidade permite entender a amplitude da vacina, relativa a variantes do coronavírus, e a duração da resposta imune”, explica o virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP).

Hoje, a Coronavac é o principal imunizante da campanha de vacinação contra a covid-19 no País. Os testes para estudos clínicos começaram em julho de 2020 em oitos estados brasileiros. O estudo foi realizado com 13.060 voluntários, todos profissionais da saúde e expostos diariamente à covid-19. A aplicação da vacina começou no dia 17 de janeiro após aprovação emergencial da Anvisa. No dia 12 de março, o imunizante teve o registro definitivo aprovado.

A quantidade inferior de anticorpos induzida pela Coronavac, conforme o estudo chileno, não significa uma capacidade menor de imunização, avalia a microbiologista Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC). “Se comparamos com as vacinas de mRNA, (esse número) pode ser baixo, mas isso não quer dizer que seja insuficiente”, avalia. “Para poder dizer se é suficiente ou não, precisamos de um correlato de proteção, ou seja, o número mínimo de anticorpos neutralizantes e resposta celular necessários para proteger contra a doença. Ainda não temos esse número”.

O estudo chileno confirma a segurança da vacina, comprovada em outros experimentos. “A imunização com Coronavac no esquema 0-14 em adultos de 18 anos e mais na população chilena é segura e induz a produção de (anticorpos) IgG contra o S1-RBD (Receptor Binding Domain, a ponta da espícula do coronavírus), com capacidade neutralizante”, diz trecho do estudo.

Por outro lado, a eficácia geral da vacina não foi verificada pelo estudo. O índice é 50,38%, ou seja, os vacinados têm 50,38% menos risco de adoecer e, caso contraiam a covid-19, a vacina oferece 100% de eficácia para não adoecer gravemente e 78% para prevenir casos leves. A eficácia da vacina da Pfizer, após a conclusão da terceira fase de testes, é de 95%. A AstraZeneca e a Universidade de Oxford anunciaram dois resultados distintos de eficácia – 62% quando aplicada em duas doses completas e 90% com meia dose seguida de outra completa. A eficácia média, segundo os cientistas responsáveis, é de 70%.

Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM), afirma que os dados laboratoriais do estudo chileno precisam da confirmação do “mundo real”. Um dos exemplos citados pelo especialista é a experiência de Serrana (SP). Em 17 de fevereiro, o Instituto Butantan iniciou no município paulista um estudo para avaliar o impacto da vacinação no combate à pandemia. Toda a população maior de 18 anos está sendo vacinada. De acordo com os dados de acompanhamento genômico de Serrana, as variantes P.1 e P.2 são as mais prevalentes desde janeiro.

“É importante ver os dados do mundo real, como o estudo de Serrana e os dados populacionais do Chile também. A tradução desses resultados vai retratar o impacto e a efetividade que as vacinas têm em termos práticos”, afirma Kfouri.

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Fonte: Terra

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