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Doria e Leite acenam para Virgílio e fogem de passivo bolsonarista no primeiro debate do PSDB

O ex-prefeito de Manaus (AM) Arthur Virgílio e os governadores Eduardo Leite (RS) e João Doria (SP), pré-candidatos à presidência pelo PSDB (Montagem: Leonardo Albertino/InfoMoney)

SÃO PAULO – A um mês das prévias do PSDB, os três postulantes à posição de candidato à presidência pelo partido nas eleições de 2022 ‒ o ex-prefeito de Manaus (AM) Arthur Virgílio e os governadores Eduardo Leite (RS) e João Doria (SP) ‒ participaram, nesta terça-feira (19), do primeiro de uma série de debates na sigla. O evento foi promovido pelos jornais O Globo e Valor Econômico.

Durante o debate, os dois favoritos na disputa, Doria e Leite, evitaram o enfrentamento direto que marcou momentos da campanha até aqui. Ambos fizeram elogios e acenos a Virgílio, que corre por fora na disputa, mas que não tem indicado intenção de desistir do pleito. A relação passada e presente dos postulantes com o bolsonarismo também foi tema frequente no debate.

Leite disse que Arthur Virgílio era uma “referência” no PSDB e que “fez a política contundente – sempre na bola e com argumentos – ao governo do PT” quando senador. Mais tarde, no entanto, foi confrontado com um questionamento incômodo sobre se teria vencido as eleições para o governo do Rio Grande do Sul, em 2018, caso não tivesse declarado voto em Jair Bolsonaro.

O gaúcho chegou a queimar largada para responder e ouviu outra alfinetada: “Sabe o que é? Falta a ele essa vivência que tenho de 20 anos de parlamento. Mas vai ter. Eu troco isso tudo pela idade dele”.

“Você teria vencido ou não? Se você podia vencer, ainda assim devia ter desprezado o apoio. Se você não ia vencer, você teria que ter perdido como um tucano de verdade, com amor, com fé, com paixão, com muita expectativa de vencer de maneira legítima as eleições”, disse Virgílio. O amazonense afirmou ter votado em Henrique Meirelles (MDB) no primeiro turno e em Fernando Haddad (PT) no segundo.

Em resposta, Leite disse que não pediu votos e não fez campanha junto com Bolsonaro e que declarou seu voto em um contexto de necessidade de fazer uma escolha para a situação de segundo turno posta no país ‒ à época, entre Bolsonaro e Haddad.

“Naquela eleição plebiscitária, eu me posicionei, declarei o voto, mas marquei muito bem quais eram as minhas diferenças e disse lá: ‘não busco ganhar a eleição perdendo a alma’”, disse, ressaltando ter feito campanha para Geraldo Alckmin (PSDB) no primeiro turno.

“Lá no meu estado, meu adversário juntou o sobrenome dele ao sobrenome de Bolsonaro. Eu não fiz isso. Aliás, não autorizei nem que se fizesse material de campanha conjuntamente. E fiz a única declaração de voto em um vídeo que apresentei à sociedade gaúcha, marcando muito bem quais eram minhas diferenças em relação ao Bolsonaro”, pontuou.

Já Doria parabenizou Virgílio pela “postura de dignidade e respeito pelo partido”, o chamou de “uma das figuras mais importantes” da sigla e enalteceu o papel exercido no Senado Federal (2003-2011). O paulista também destacou a posição de diplomata do candidato, sua visão de mundo e entendimento da importância da geopolítica.

Questionado sobre uma declaração do passado em que acusou Doria de ter transformado as prévias do partido em um “motel” ‒ em que o filiado entrava no partido para votar e depois saía ‒, sob risos, Virgílio reconheceu que aquela era a percepção que tinha do paulista àquela altura, mas disse que hoje era outra.

“Eu não retiro nada, porque era o que eu sentia na hora, João. Não adianta, sou a pessoa que sou. Às vezes, peco pelo que digo, mas acerto muito no que digo”, afirmou. O tom adotado pelo amazonense com Doria foi mais brando do que aquele com Leite.

Desde que o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) desistiu de sua candidatura para apoiar Leite, especula-se sobre a possibilidade de Virgílio fazer o mesmo a favor de Doria. Mas o amazonense tem recusado tal movimento de forma enfática.

“Eu tenho visto muito essa história de ‘frente anti-Doria’, ‘frente anti-Leite’. E eu não estou aqui para perder. Estou aqui para derrotar vocês dois, com muita clareza”, disse, arrancando risos da plateia. Virgílio criticou a disputa pessoal entre seus adversários e defendeu a unidade do partido.

“Tenho impressão de que as prévias têm que ter um limite. Ou seja: Hillary [Clinton] atacava [Barack] Obama, Obama atacava Hillary. Até o limite de não ficarem impedidos um e outro de se unirem para conseguir a vitória democrata naquela eleição memorável. Tenho a impressão de que isso exclui as picuinhas ‒ e tenho visto picuinhas”, afirmou.

Nas últimas semanas, a tensão entre Doria e Leite aumentou, enquanto os candidatos, que lideram a disputa, se movimentam para consolidar suas bases de apoio e construir dissidências nos blocos adversários.

Doria chegou a anunciar sua recusa ao convite para o primeiro debate por desavenças com relação ao formato do evento, mas voltou atrás depois da repercussão negativa do movimento.  O paulista também levantou desconfiança a respeito do sistema de votação do pleito, que acontecerá de forma eletrônica, por meio de aplicativo.

Em resposta, Leite alfinetou: “Negar participação no debate e lançar suspeitas à forma de votação é coisa do bolsonarismo. Espero que não volte o BolsoDoria” ‒ em alusão a movimento feito por Doria nas eleições de 2018, quando o paulista se vinculou à imagem do então candidato à presidência Jair Bolsonaro para atrair votos do eleitorado conservador em São Paulo.

No debate desta terça-feira, Doria negou que seja favorável à ideia de instituir o voto impresso nas prévias tucanas e ressaltou que a bancada paulista do partido na Câmara dos Deputados se posicionou contra esse sistema de votação durante o debate de Proposta de Emenda à Constituição (PEC) defendida pelo governo Bolsonaro.

Tanto Doria quanto Leite tiveram que dar explicações ao apoio dado a Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Ambos manifestaram arrependimento e buscaram manter distância em relação ao presidente, garantindo não haver hipótese de apoio em 2022.

“Em relação ao presidente Bolsonaro, eu errei, como Eduardo [Leite] errou, como outras pessoas erraram. Aliás, 65% da população brasileira cometeu esse erro. Eu não tenho compromisso com o erro, não erro duas vezes. E nossa posição é claramente em defesa da democracia, das liberdades e do direito da população de discordar e emitir sua opinião”, disse o paulista.

Já Leite, ao justificar o voto em Bolsonaro, apontou para o resultado de crise econômica durante o governo Dilma Rousseff (PT) e a escândalos de corrupção revelados nas gestões petistas. Ao ser confrontado por gestos antidemocráticos de Bolsonaro, o gaúcho indicou que confiava nas instituições para frear ações do mandatário e que não poderia imaginar um cenário como o provocado pela pandemia do novo coronavírus.

“Eu acho importante a gente discutir ideologia, acho importante a gente discutir gestão, mas o povo não come gestão e ideologia não põe comida na mesa e não vai ser o que vai resolver os problemas reais da população. É muito fácil para nós, que temos a vida mais ou menos resolvida ficar discutindo simplesmente a democracia e ignorar que milhões de pessoas deixam de comer por não ter emprego, não ter renda”, argumentou.

Em outro momento, Virgílio se contrapôs: “Você disse que não hierarquizava [democracia e economia]. Eu hierarquizo. A democracia, para mim, está acima de tudo, é o valor mais fundamental. A democracia está acima de qualquer coisa, porque democracia põe comida na mesa, sim. Ditadura tira comida da mesa”.

Em tom similar, Doria disse que “democracia está à frente de tudo”. “Não há economia se não houver democracia. A democracia é a essência, é a base de uma nação em liberdade. E essa base tem sido ameaçada pelo governo Bolsonaro sistematicamente”, afirmou.

Virgílio também chamou de “indecoroso” o fato de o PSDB manter parlamentares bolsonaristas em sua bancada. “Temos que marcar um prazo para oferecer a porta de saída como serventia da casa. Então, prefiro um partido menor, mas um partido que tenha a garra de recomeçar”, defendeu.

“Como está não pode ficar. Nossa posição é de que temos que normalizar limpando esse partido. Dizer que o partido hoje é um partido que está limpo não é verdade”, afirmou.

Os pré-candidatos tucanos também discutiram os movimentos de Bolsonaro para construir um novo programa social com parte dos recursos financiadas fora do teto de gastos ‒ o que gerou reação fortemente negativa dos investidores, derrubou a bolsa e elevou a cotação do dólar.

O governo chegou a marcar para o fim da tarde o anúncio do Auxílio Brasil e ventilar que o novo programa contaria com um tíquete médio de R$ 400,00 mensais. O novo valor, para respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal, seria pago em parte pelo orçamento previsto para o antigo Bolsa Família (até R$ 300,00). Os R$ 100,00 restantes ficariam fora da regra fiscal.

“Falta maturidade, estatura, comprometimento e planejamento na área econômica deste governo. É um fracasso completo desde o início. Um governo que se apresentou liberal e que não praticou o liberalismo. Prometeu desestatizar e não desestatizou. Prometeu dialogar com os estados e emparedou os estados. Prometeu atrair investidores internacionais, e brigou com a China, com a França, com os países nórdicos, não fez reuniões com nosso terceiro maior parceiro comercial, a Argentina. Escolheu o lado errado dos Estados Unidos”, disse Doria.

“O governo cometeu todos os equívocos possíveis na política econômica somado a um governo ideológico, fracassado e, além de tudo, negacionista. Ao negar a saúde, negou o direito do Brasil retomar seu crescimento mais rapidamente. E agora promove sistematicamente medidas disfarçadamente para romper o teto de gastos, não para fazer políticas públicas de redução de pobreza, mas sim para garantir votos em uma eleição sucessória fratricida”, complementou.

Na réplica, Eduardo Leite enalteceu sintonia com seu adversário, manifestou preocupação com o crescimento econômico e defendeu a importância de se garantir credibilidade fiscal. O governador gaúcho disse que o teto de gastos pode ser revisto futuramente, mas que o país precisa “conquistar” essa condição, “demonstrando clara responsabilidade fiscal”.

Os dois candidatos concordaram mais do que discordaram no debate propositivo, em temas como políticas para mulheres, meio ambiente e combate à desigualdade. Quem esperava por uma oportunidade de analisar as diferenças entre os governadores pode ter tido dificuldades em tirar conclusões.

Eis os destaques da participação de cada candidato:

Eduardo Leite

O governador do Rio Grande do Sul deu importante destaque à necessidade de condução de reformas estruturantes no país. Leite afirmou que a polarização que o Brasil atravessa dificulta o propósito, e que sua primeira missão seria “trazer o país para a serenidade e para o bom senso”, lembrando sua experiência como governador em um estado profundamente dividido.

O gaúcho também disse que pretende trazer ao debate o fim das reeleições para estimular o ambiente de colaboração política. “Defendo que se acabe com a reeleição. Isso tem que ser discutido e viabilizado junto ao Congresso. E de minha parte não serei candidato à reeleição para que a gente foque nas reformas, se não o ambiente de colaboração acaba sendo menor”, afirmou.

Ele lembrou ainda de Mário Covas, ex-governador de São Paulo, para ressaltar a necessidade de se trabalhar no desenvolvimento econômico e no combate às desigualdades “de forma simultânea”, para que o país cresça economicamente e não esteja vulnerável a “populistas que vendem soluções fáceis”.

João Doria

O governador de São Paulo colocou como foco de sua campanha uma política liberal, com “redução do tamanho do Estado” e atração do capital estrangeiro. “É o que estamos fazendo em São Paulo. Diminuímos o tamanho do Estado, fechamos cinco estatais, diminuímos o ímpeto público”, disse.

O paulista também ressaltou a necessidade de reformas no país, afirmando que o seu foi o único estado que fez uma reforma administrativa, “e não ajustes” – fala posteriormente contestada por Leite.

Doria disse, ainda, que pretende fazer “em nível nacional” programas similares aos implementados em sua gestão em São Paulo, como Bolsa Povo, vale gás e Alimento Solidário. “Desenvolvimento econômico e proteção social. O PSDB está preparado para isso. É o que fazemos em São Paulo, em um estado com 46 milhões de habitantes”, declarou.

O tucano também afirmou ter sido “o primeiro a enfrentar o negacionismo de Bolsonaro”, mesmo “sabendo que isso significaria perda de popularidade”. E se comprometeu a acabar com as chamadas “emendas do relator” ao orçamento (RP9) – também criticadas por Arthur Virgílio –, caso eleito presidente.

“Hoje temos um governo refém do Congresso Nacional. Temos que respeitar a individualidade dos Poderes, e não criar um grau de dependência, como infelizmente temos hoje, onde quem manda no Orçamento é o presidente da Câmara. Isso gera uma disfunção, um grau de dependência, uma distorção completa, coloca em risco políticas públicas. Se eleito irei corrigir isso imediatamente, mas sempre com diálogo, respeitando a autonomia e a independência dos Poderes”, afirmou.

Arthur Virgílio

O ex-prefeito de Manaus frisou a necessidade de uma política de responsabilidade fiscal no país e afirmou que o Brasil “só será capaz de ser desenvolvido se fizer as reformas atrasadas”. Ele também disse que o novo presidente deve enviar, no primeiro semestre de mandato, as reformas fundamentais e ser muito austero no ajuste fiscal. E defendeu que “diplomacia, economia e ecologia têm que andar juntas”.

Virgílio foi bastante perguntado sobre a Floresta Amazônica, afirmando que “não tem Brasil sem Amazônia” e que só há um caminho possível para o país com respeito à biodiversidade. “Não pode continuar essa farra de grilagem, poluição. Temos que ter outro comportamento. Cortes no Orçamento é imoral. Se os desmandos continuarem, estamos arriscando a sofrer uma intervenção militar e a perder uma riqueza que deveria favorecer os brasileiros. Não há nada mais rentável que a floresta em pé”, pontuou.

O candidato também se posicionou em defesa da Zona Franca de Manaus, sob alegação de que ela garante a sustentação do povo amazonense e a preservação ambiental na região. Ele defendeu, ainda, a importância de o país evoluir em direção à chamada “economia verde”.

Como funcionam as prévias tucanas?

Nas prévias do PSDB, o eleitorado é dividido em quatro grupos, cada um com peso unitário de 25% do total de votos válidos. São eles:

I) Filiados ao partido;

II) Prefeitos e vice-prefeitos;

III) Vereadores, deputados estaduais e distritais;

IV) Governadores, vice-governadores, senadores, deputados federais, ex-presidentes e o atual presidente da Comissão Executiva Nacional do partido.

No caso dos grupos I, II e IV, os votos atribuídos a cada candidato são divididos pelo número total de eleitores de cada um, e os resultados são multiplicados por 0,25.

Já o grupo III é dividido em dois subgrupos (vereadores; e deputados estaduais e distritais), com igual peso. Os votos atribuídos a cada candidato são divididos ao total de eleitores de cada subdivisão e posteriormente multiplicados por 0,125. Ao final, é feita a soma das duas categorias.

É considerado escolhido como representante do PSDB no pleito de 2022 o candidato que obtiver a maioria absoluta dos votos válidos, considerado o resultado do somatório da votação obtida em cada grupo com os devidos pesos.

Se nenhum candidato alcançar maioria absoluta dos votos, os dois mais bem posicionados disputarão segundo turno, sendo escolhido o mais votado, seguindo os mesmos critérios usados na etapa anterior.

A votação ocorrerá por meio de sistema eleitoral eletrônico. Estarão aptos a votar eleitores que tenham se filiado ao partido até o dia 31 de maio de 2021.

A realização das prévias seguirá o calendário:

– 20/09/2021: Apresentação do pedido de inscrição dos pré-candidatos;

– 18/10/2021: Início dos debates;

– 14/11/2021: Data limite para o filiado eleitor realizar o cadastramento no sistema eleitoral eletrônico disponibilizado pelo partido e se habilitar a votar;

– 21/11/2021: Realização das prévias;

– 28/11/2021: Realização de segundo turno entre os dois candidatos mais votados, caso ninguém tenha alcançado apoio de maioria absoluta.

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Fonte: Infomoney

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