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Ele fez do seu pior momento um recomeço

Samantha Ciuffa/JC Imagens

O advogado Eduardo Jannone da Silva, de 43 anos, também atua em defesa do direito das pessoas com deficiência

Fevereiro de 2003. O advogado Eduardo Jannone da Silva estava a caminho da segunda etapa de um concurso para o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, quando sofreu um acidente de carro que o deixou tetraplégico. Do pior momento da vida, o bauruense tirou forças para recomeçar. Hoje, aos 43 anos, ele é procurador jurídico do município e doutor pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP).

A vida pessoal de Jannone também deu uma guinada. Há três anos, o profissional se casou com a escrevente judiciária Érica Fernandes da Silva, de 37 anos.

Caçula do comerciário aposentado Roberto Aparecido da Silva, de 75 anos, e da funcionária pública aposentada Aparecida Loureiro Jannone da Silva, de 69, o advogado possui apenas um irmão, o engenheiro mecânico Eraldo Jannone da Silva, de 45.

Abaixo, o profissional relata a sua trajetória, que inclui a luta em prol dos direitos da pessoa com deficiência. Confira alguns trechos da entrevista:

JC – Como e quando você sofreu o acidente?

Jannone – Em 2002, eu passei na primeira fase de um concurso para o Ministério Público do Mato Grosso do Sul. Sempre gostei muito desta área. No ano seguinte, sofri um acidente de carro a caminho da segunda etapa do certame. A minha então namorada dirigia o veículo, que caiu em um buraco. Neste momento, uma peça da roda quebrou e nós capotamos, fato que provocou uma lesão na minha medula. Fiquei tetraplégico.

JC – A sua recuperação foi muito difícil?

Jannone – Do local do acidente, me levaram até Campo Grande, onde fiz uma cirurgia. Como não é comum algum candidato faltar da segunda fase de um concurso público, a banca soube do ocorrido pelos jornais e se dirigiu ao hospital. Os chefes do Ministério Público me ofereceram a possibilidade de realizar todo o tratamento junto à Rede Sarah, em Brasília. Lá, passei por mais de oito internações no decorrer dos primeiros dez anos da minha lesão. Só saí da unidade depois da criação da Rede de Reabilitação Lucy Montoro, em São Paulo, bem mais perto de Bauru.

JC – Até hoje, você é paciente deles? Houve alguma melhora depois de todo este tempo?

Jannone – Eu ainda faço o meu tratamento por lá. No início, não mexia qualquer membro do pescoço para baixo. Hoje, já consegui recuperar boa parte do movimento do lado esquerdo, embora ainda precise usar cadeira de rodas.

JC – O acidente não o impediu de seguir sua carreira, correto?

Jannone – Na época em que eu prestei o concurso, estava em processo de admissão para o mestrado em Direito pela ITE. Só que sofri o acidente e não dei continuidade. Com o passar do tempo, consegui retomar os estudos. Em 2008, obtive o título de mestre e a minha dissertação virou um livro publicado pela Juruá Editora. Além disso, o meu sócio, Paulo Freitas, quase um membro da família, também permitiu que voltasse a trabalhar. Deitado ou sentado, continuei advogando. Porém, não participava das audiências.

JC – Mas você nunca desistiu da carreira pública.

Jannone – Paralelamente, eu fiz mais um período de um curso preparatório para concursos públicos da unidade local do Damásio Educacional. Em seguida, fui aprovado em um certame da Emdurb e outros fora de Bauru, mas optei por ficar na cidade por causa das minhas condições de autonomia. Exerci, portanto, a função de advogado da empresa pública por três anos. Em 2018, passei no concurso para o cargo de procurador do município, onde estou até agora.

JC – O doutorado, então, veio depois?

Jannone – Em 2019, eu terminei o doutorado pela FOB/USP, porque, desde o mestrado, a minha área de pesquisa envolve o direito à saúde da pessoa com deficiência. Neste ano, a minha tese foi escolhida para concorrer a dois prêmios: Prêmio Capes de Tese e Prêmio Tese Destaque USP.

JC – Além de tudo, você também atua junto à OAB. Em quais funções?

Jannone – Na gestão do então presidente da OAB Bauru, Alessandro Biem, eu fui secretário-adjunto da entidade por três anos. Hoje, presido a Comissão de Ética e Disciplina. Paralelamente, exerço a função de membro da Comissão de Advocacia Pública da OAB São Paulo.

JC – Você se considera um militante em prol dos direitos da pessoa com deficiência?

Jannone – Eu já fui presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB Bauru, além de membro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Comude) e do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB São Paulo. Porém, acredito que qualquer pessoa possa colaborar com a causa, independente da função que exerça, ao multiplicar o seu conhecimento.

JC – Qual é o maior desafio da sua causa?

Jannone – Da Constituição de 1988 para cá, a pessoa com deficiência conseguiu uma série de avanços e a legislação brasileira, hoje, não fica atrás de qualquer outra pertencente às nações que já tenham disciplinado esta matéria. O nosso problema é colocá-la em prática por meio de políticas públicas.

JC – Por fim, onde você encontrou forças para superar todas as dificuldades?

Jannone – Nos meus pais, no meu irmão, nos meus tios, na minha esposa, nos meus amigos e até nos meus médicos. Eu tive uma segunda oportunidade, motivo pelo qual devo celebrar. Também tirei do acidente forças para chegar até aqui. Em vez de ficar deitado esperando a vida me levar, optei por ser protagonista da mesma, independente de andar ou não.

Fonte: Google News

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