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Em busca do mistério da vida nos oceanos de luas distantes

Algumas das 200 luas do sistema solar têm oceanos sob a superfície, potencialmente cheios de vida. Há missões programadas para lá nas próximas décadas, e, com sorte, desvendarão um pouco mais sobre a origem da vida.”Não temos uma definição da vida”, admite o cientista Kevin Peter Hand, da Califórnia, quando conversamos via vídeo, cedo da manhã. “Na verdade, não sabemos o que é a vida.” Ele diz isso entre dois goles de café, como se fosse perfeitamente óbvio.

Os cientistas devem estar realmente entediados – até irritados – de tanto os jornalistas perguntarem como sua pesquisa fundamental no espaço pode se aplicar ao mundo real. Mesmo assim, é uma questão que vale a pena colocar. Sobretudo quando é alguém que diz estar procurando uma “segunda origem da vida”. Não há como deixar de perguntar por quê.

Por sorte, o diretor do Ocean Worlds Lab da Nasa é simpático e paciente ao explicar sua fascinação com o que denomina “oceanos alienígenas”, tanto na Terra quanto em mundos aquáticos distantes, como Europa, uma das luas de Júpiter, Enceladus, de Saturno, ou Triton, um objeto “bizarro” que gira na direção contrária à de seu planeta-hospedeiro, Netuno.

“Temos numerosas hipóteses sobre a origem da vida na Terra. Por exemplo, pode ter se originado nas fontes hidrotermais do oceano; ou em poças mornas de maré nos continentes do antigo planeta; ou talvez de descargas elétricas de relâmpagos na atmosfera e a precipitação de compostos orgânicos unidos para formar vida. Mas até o momento, nada saiu rastejando do laboratório.”

Europa, Enceladus, e Triton são apenas três das mais de 200 luas de nosso sistema solar. Mas são especiais, pois parecem ter ambientes aquáticos líquidos vivos sob sua superfície congelada. “São oceanos globais líquidos cobertos de gelo”, explica Hand.

“E se formos a Europa ou Enceladus, mundos em que podem existir fontes hidrotérmicas, mas onde não há continentes nem atmosfera, e encontrarmos vida lá, com quase certeza isso indicaria as chaminés hidrotermais como origem da vida.” E isso pode revelar mais sobre a vida na Terra.

Fontes ou chaminés hidrotérmicas são encontradas em profundidades extremas, a cerca de 6 mil quilômetros, em vastas trincheiras abaixo do próprio oceano terrestre. Até não muito tempo atrás, acreditava-se que esses fossos eram escuros demais para conter qualquer forma de vida.

No entanto, graças à pesquisa oceanográfica e prospectores comerciais buscando minerais raros, como nódulos de manganês, descobriu-se que nas chaminés hidrotérmicas a vida microbiana pulula. Então o mesmo pode se aplicar a uma lua distante.

“Isso não quer dizer que poderemos descartar o potencial das poças de maré da antiga Terra como origem da vida, mas se encontrássemos vida nas fontes hidrotérmicas dessas luas, teríamos ao menos mais ou ponto de dados”, precisa Hand.

A biologia, ou vida orgânica como a conhecemos, talvez seja a peça final num quebra-cabeças para cientistas espaciais. Graças a Galileu Galilei, sabe-se que as leis da física vigoram para além da Terra – assim como os princípios da química e geologia.

“Mas não sabemos se esse fenômeno chamado ‘vida’ ocorreu numa segunda época, independente da vida aqui na Terra. E por isso a questão de uma segunda origem da vida é tão intrigante.” E é essencial que essa segunda origem seja descoberta – se o for – em planetas, luas ou outros corpos celestes nas profundezas do sistema solar, longe demais da Terra para ter vindo ou sido “contaminada” por ela.

“Seria difícil uma rocha chegar lá com micróbios terrestres e semear aqueles oceanos com vida à base de DNA”, afirma o cientista da Nasa. “Então, se encontrarmos vida nesses mundos, será uma segunda origem da vida, independente. E assim eles nos contarão sobre a diversidade da vida, não só no sistema solar, mas no universo como um todo.”

No momento, Hand se concentra na lua jupiteriana Europa. Um de seus projetos atuais é a missão Europa Clipper, que executará 45 flybys, ou voos próximos ao satélite. Ainda sem data do lançamento marcada, o plano é que ela faça imagens de alta resolução da superfície de Europa, numa escala entre 50 centímetros e dezenas de metros por pixel.

Munida de um radar que atravessa o gelo, a nave procurará substâncias orgânicas e sais. Espectrômetros lhe permitirão “sentir o gosto” de qualquer coluna de vapor ou fumaça que emane da lua de Júpiter. “Ela vai voar através das colunas e captar parte do material, para que possamos analisá-lo diretamente. Vai ser fenomenal, mas não nos levará até a superfície”, ressalva. Por isso, sua equipe já trabalha numa outra missão que também aterrissará em Europa.

Para além de Júpiter

Nesse ínterim, o Discovery Program da Nasa está estudando duas outras missões rumo a luas do sistema solar exterior, isto é, para além de Júpiter. Caso seja levada adiante, a missão chamada Trident investigará a lua netuniana Triton, partindo em 2026 para uma viagem de 12 anos.

A última nave espacial que explorou Triton foi a Voyager 2, lançada em 1977. Ela chegou até 40 mil quilômetros do satélite, enquanto a Trident se aproximaria a até 500 quilômetros, em dois flybys.

“A Voyager nos deu fotos em que se veem gêiseres e colunas de vapor em Triton, e isso foi 30 anos atrás, 50 anos antes da Trident”, explica Yohai Kaspi, professor de dinâmica atmosférica e ciência planetária no Instituto Weizman de Israel. “Mas com a tecnologia e fotografia de hoje em dia, pode ser muito melhor.”

Ele e seus colegas estão contribuindo para o projeto com um instrumento especial, o Ultra-Stable Oscillator (USO), com que esperam medir a densidade e temperatura da atmosfera de Triton. Trata-se basicamente de um relógio de quartzo, mantido dentro de uma espécie de miniforno à temperatura extremamente estável de um mulikelvin, a fim de protegê-lo de todas as variações no espaço.

A espaçonave estará conectada com a Terra por um sinal constante rádio, tanto para o experimento de Kaspi quanto para usos gerais, como navegação. No entanto, a velocidade com que esse sinal viaja de volta à Terra mudará, à medida que a nave entre e se mova na atmosfera de Triton, a qual funciona como uma espécie de filtro. Medir e comparar essa diferença de tempo permitirá calcular a densidade da atmosfera da lua e traçar um perfil de sua temperatura.

A atmosfera da lua “bizarra” de Netuno a torna única, conta Kaspi. “Enceladus é pequena demais para ter uma atmosfera, e Europa quase não tem. A atmosfera de Triton não é tão densa quanto a da Terra, mas é suficiente para transportar material. Além disso, é provável que Triton nem tenha se formado em nosso sistema solar. Então, é uma oportunidade real.”

Se a missão for levada a cabo, poderá ser também uma oportunidade para compreender melhor a interação entre oceanos profundos – ou o “interior” das luas – e suas atmosferas, que são importantes para manter a vida, como a água o é para originá-la.

“Vemos essas colunas vindo do interior, e elas são transportadas para a atmosfera; vemos esses gêiseres ativos e essas raias no planeta, e todas estão na mesma direção. Então deduzimos que haja um vento indo de um lado para o outro. A Voyager observou isso, mas é tudo o que sabemos.”

O que não se sabe, segundo Kaspi, é quanto da atmosfera de Triton se originou de seu interior, ou se o oceano subterrâneo pode se comunicar ou interagir com o mundo externo. Os instrumentos na Trident visam descobrir como todo o sistema funciona, com o potencial de até mesmo revelar um pouco mais da fugidia definição de vida.

“Espero que, talvez daqui a 400 anos, nossos descendentes possam ver as inovações e descobertas que fizemos e dizerem: ‘Nossa, acredita que eles discutiram a importância de procurar vida além da Terra, e para que serviria?'”, antecipa Kevi Hand, da Nasa.

“E talvez eles possam rir, do mesmo jeito que olhamos para Galileu e dizemos: ‘Claro, o trabalho dele foi essencial em mudar o modo como pensamos o universo. E tudo o que deriva daí, até essa conversa por computador que estamos tendo agora.”

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Fonte: Terra

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