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Escrever sobre sentimentos pode ser terapêutico e ajudar a lidar com o luto

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, que também se dedicou às ciências naturais, dizia: “Escrever a história é um modo de nos livrarmos do passado”. Para muitas pessoas, a escrita pode ser terapêutica. É assim que se sente Giuseppe Frateschi, de 24 anos. “Escrever pode ser libertador de várias formas. No meu caso, comecei a escrever meus diários em 2013, quando tinha 17 anos, e de início, não era sincero comigo mesmo, algo que apenas o tempo e a leitura destes mesmos diários revelou. É curioso, mas a falta de sinceridade só ficou evidente quando reli o que tinha colocado no papel e percebi que não condizia com a realidade. Depois de refletir a esse respeito, pude escrever sobre meus sentimentos de maneira mais honesta. Aliás, escrever um diário, não se trata apenas de falar sobre sentimentos, mas sobre desenvolver pensamentos que, apesar de parecerem aleatórios, registram um pouco de nossas reflexões e opiniões sobre cultura, ética e visão de mundo, por exemplo. Hoje tenho 24 anos, e fazer um retrospecto sobre tudo o que escrevi no passado, me ajuda muito”, declara.

Quando sentimos alguma emoção, mas não conseguimos dar nome à ela, nos sentimos angustiados ou ansiosos. Nomear sentimentos é importante para nos ajudar a diminuir o sofrimento. A fala e a escrita podem ser bons mecanismos. “Ao escrever, sem censura e sem preocupação com as normas gramaticais ou ortográficas, damos vazão aos nossos pensamentos, impressões, preconceitos, valores, medos, que muitas vezes nem nós mesmos conhecíamos, sem a preocupação de sermos julgados. Esse movimento nos ajuda a organizar nosso mundo interno. É por meio da escrita que melhor conversamos conosco mesmos. Ao escrever, registramos as ideias e dessa forma as externalizamos de uma forma concreta, quase palpável”, analisa a neuropsicóloga Gisele Calia.

O Museu da Língua Portuguesa lançou na segunda-feira, 13, o projeto virtual A Palavra no Agora. O objetivo é estimular ajudar as pessoas a lidar com sentimentos decorrentes da pandemia a partir de exercícios de escrita. Disponível gratuitamente online, o site propõe que os internautas escrevam sobre suas vidas antes da quarentena e a respeito dos próprios sentimentos atuais. O trabalho é realizado com o apoio das professoras Maria Helena Franco, do Laboratório de Estudos do Luto – LeLu, da PUC-SP, Ivânia Jann Lun, do Laboratório de Processos Psicossociais e Clínicos no Luto – LAPPSIlu, da Universidade Federal de Santa Catarina, Fabio de Paula, da Faculdade Cásper Líbero, Mariana Valente, da InternetLab, e da psicóloga Fabíola Mancilha Junqueira, arteterapeuta.

O programa surgiu da constatação dos múltiplos prejuízos causados pelo coronavírus: isolamento social e os traumas causados pela perda de pessoas queridas, além da impossibilidade de realização dos rituais tradicionais de luto. “Vivemos um momento de perdas físicas e simbólicas. A incerteza, a morte, o adiamento de planos, a doença, o isolamento, a crise econômica, a distância – tudo isso tem um impacto enorme na vida de todos os brasileiros. Na ausência do acolhimento físico, do contato, o que nos une hoje são as palavras – ditas e escritas”, explica Marília Bonas, diretora técnica do IDBrasil, organização social de cultura que gerencia o Museu da Língua Portuguesa.

E foi justamente em um momento de luto, com a morte da mãe há dez anos, que Giuseppe Frateschi começou a colocar suas emoções no papel. “Na época, vivia coisas muito conflitantes, carregava o luto por minha mãe, falecida em 2009, vítima de câncer, me sentia muito sozinho e não me sentia bem em falar sobre a minha vida amorosa. Poucas vezes me senti bem para falar abertamente sobre o assunto. É estranho dizer, mas no início só conseguia falar sobre esses e outros assuntos comigo mesmo, por meio das páginas de meus diários. Aos poucos me sentia bem para mostrar certas páginas a alguns amigos, e assim, derrubar barreiras e derrotar medos”, afirma.

A neuropsicóloga Gisele Calia ressalta que escrever é um dos atos mais complexos para o cérebro, mas registrar os próprios sentimentos em palavras é ainda mais desafiador, na medida em que a pessoa precisa identificar, simbolizar, significar, rejeitar, aceitar e transformar um pensamento. “Diferentemente de simplesmente copiar uma palavra qualquer, exprimir nossos sentimentos por meio da palavra escrita, exige o uso do córtex frontal, nossa parte do cérebro responsável pelo pensamento abstrato. Aí reside a beleza e a magia de escrever sobre os sentimentos: colocamos em uma forma concreta – a palavra escrita – a parcela mais abstrata de nosso ser, o sentimento”, conclui.

Depois de perceber perceber o quão positivo foram os benefícios de escrever um diário, Giuseppe começou a recomendar aos amigos que escrevam sobre o que sentem. “Contudo, acho importante recomendar para quem escreve ou deseja iniciar um diário que não permita que outras pessoas decidam o que deve escrever ou não. Para mim, escrever é um processo natural e o ponto de partida pode ser qualquer coisa: um pensamento, um sentimento bom ou mau e até uma lembrança”, diz.

Museu da Língua Portuguesa segue fechado em meio à pandemia

Enquanto está fechado por causa da pandemia do novo coronavírus, o Museu da Língua Portuguesa segue com o projeto virtual A Palavra no Agora. Os exercícios de escrita podem ser feitos por qualquer pessoa, mesmo quem nunca escreveu. São roteiros com perguntas simples, que servem como referência para fazer pensar sobre esse momento. Quem desejar, pode enviar seu texto para compartilhamento no site, para fazer uma homenagem ou para ajudar as outras pessoas.

Para estimular e inspirar o público, o projeto também disponibiliza trechos de obras literárias que falam sobre o sentimento de perda, além de resenhas de livros e filmes que de alguma maneira abordem o assunto. São áreas abertas para a contribuição de escritores, editoras e do público. O site também disponibiliza informações sobre serviços de apoio para pessoas que estão tendo dificuldades para lidar com o momento da pandemia.

O Museu da Língua Portuguesa, um dos primeiros do mundo totalmente dedicado a um idioma, está em processo de reconstrução. O local é uma iniciativa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, em parceria com a Fundação Roberto Marinho.

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Fonte: Terra

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