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Ex-integrantes do Ministrio da Sade citam lies contra novas crises – Gerais

UTI lotada no Hospital Gilberto Novaes, em Manaus(foto: MICHAEL DANTAS/AFP)
UTI lotada no Hospital Gilberto Novaes, em Manaus (foto: MICHAEL DANTAS/AFP)

Para enfrentar um inimigo invisvel e de passos imprevisveis como o novo coronavrus, se antecipar s jogadas do rival de suma importncia. Na viso de ex-integrantes do Ministrio da Sade ouvidos pelo Estado de Minas, como o antigo chefe da pasta, Luiz Henrique Mandetta, fortalecer o sistema de vigilncia epidemiolgica e sanitria a maneira mais eficaz de antever os “caminhos” seguidos por surtos de doenas e enfrent-los mais adequadamente.Descoordenado, o Brasil enfrenta a pandemia — responsvel pela morte de mais de 100 mil pessoas — sem uma diretriz nacional, que diga claramente populao as medidas necessrias para barrar o vrus. Buscar a unificao uma misso que se avizinha. Sem um “norte” definido, dizem especialistas, o “daqui para frente” reprisar a srie de contradies e desmentidos que marcam a atuao do governo federal e de incontveis gestes locais na luta contra a COVID-19.

Mandetta, que deixou o governo federal em abril deste ano, defende reforar o monitoramento dos acessos ao pas. “Aeroportos e fronteiras do Brasil so extremamente permeveis, abertos. H uma carncia de tcnicos, pois h muitos anos no so feitos concursos pblicos para melhorar o controle”, sustenta.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que deixou o governo em abril, defende refor
O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que deixou o governo em abril, defende reforar o monitoramento dos acessos ao pas (foto: Agncia Brasil)

A produo agropecuria tambm deve ser vistoriada. “( preciso) aumentar muito a vigilncia nos estados produtores de carne, aves e ovos. Normalmente, da proximidade entre homem, granja e animal que surgem as trocas de vrus. Nada impede que, dentro do Brasil, haja uma mutao de vrus. O que aconteceu na China pode, em algum momento, acontecer aqui”, completa, em aluso ao pas de “nascimento” da infeco.

“( preciso) aumentar muito a vigilncia nos estados produtores de carne, aves e ovos. Normalmente, da proximidade entre homem, granja e animal que surgem as trocas de vrus”

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Sade

O infectologista Jlio Croda, tambm ex-integrante do Ministrio da Sade, pesquisador da Fundao Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), pede a inverso da lgica do monitoramento. No lugar da soma, a subtrao: em vez de contar nmeros, os tcnicos devem agir para barrar a subida das estatsticas.

“Na resposta pandemia, necessrio um servio de vigilncia epidemiolgica forte, com capacidade tcnica de analisar diferentes cenrios, propor e executar intervenes. Nosso servio de vigilncia, na maioria dos municpios e estados, muito passivo, de contar casos e mostrar grficos, bitos e internaes”, explica o antigo diretor do Departamento de Imunizaes e Doenas Transmissveis da pasta.

Croda saiu do Planalto no fim de maro, poucas semanas aps a Organizao Mundial da Sade (OMS) declarar pandemia em virtude do coronavrus. A deciso foi tomada ainda em 2019, mas ele queria permanecer at o fim da crise. A resistncia do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) s medidas de distanciamento, contudo, mudou os planos.

“Precisamos passar por uma modernizao que envolve, tambm, investimento. A ideia de que a gente pode ter um estado mnimo no controle de uma pandemia se foi. Precisamos de um estado forte para uma resposta coordenada”.

Encorpar a vigilncia passa pelo fortalecimento dos laboratrios estaduais. O ex-ministro Mandetta pontua a importncia de fornecer novos equipamentos e cursos aos funcionrios desses espaos. O subsdio essencial para formatar uma rede nacional capaz de compor, at mesmo, redes de cooperao internacional. Ele cita a necessidade de instalao de laboratrios com Nvel 4 de Biossegurana (NB-4).

“Somente um laboratrio de Nvel 4 de Biossegurana permite que possamos manipular novos vrus e bactrias que cheguem ao nosso pas ou que, eventualmente, sejam originados aqui”, salienta. Em Pedro Leopoldo, na Regio Metropolitana de Belo Horizonte, h segurana mxima no Laboratrio Nacional Agropecurio de Minas Gerais (Lanagro/MG).

” necessrio um servio de vigilncia epidemiolgica forte, com capacidade tcnica de analisar diferentes cenrios (…) Nosso servio de vigilncia, na maioria dos municpios e estados, muito passivo”

Jlio Croda, infectologista, pesquisador da Fiocruz

Diego Xavier, epidemiologista e pesquisador do Instituto de Comunicao e Informao em Sade (Icict), ligado Fiocruz, lembra que o pas tem sofrido por causa da demora na oficializao de estatsticas de casos e mortes.

“A gente precisa de sistemas que possibilitem o acompanhamento dos dados de sade de maneira dinmica, mais acelerada. Os sistemas de informao de sade, no Brasil, geralmente funcionam com defasagem. Estamos sempre olhando para trs e, no caso da COVID-19, ficou bem evidente que precisamos olhar, pelo menos, ‘ao lado’ do problema. No d para ficar olhando dois ou trs dias para trs para tentar analisar e corrigir”, ressalta.

Sade pblica ampliada

O antigo chefe da sade federal reivindica mudanas na estrutura do Sistema nico de Sade (SUS). “Temos uma rede muito voltada aos acidentes de carros e traumas. Precisamos de mais unidades para as doenas infecciosas e isolamento de pacientes”, observa, citando o Hospital Eduardo de Menezes, localizado em BH e ligado Fundao Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). Para l foram mandados os primeiros casos graves no estado.

Croda, por seu turno, nutre esperana nas unidades sentinela, abertas em virtude do avano da COVID-19. “Dobramos o nmero de locais que fazem vigilncia sentinela de sndrome gripal. Se, no futuro, um novo vrus respiratrio circular, vamos conseguir monitorar melhor. Houve uma importante abertura de leitos de UTI e, muitos deles, principalmente onde no existiam (vagas), ficaro para atender populao. Ser muito difcil retir-los quando acabar a pandemia”, projeta.

“Os sistemas de informao de sade, no Brasil, geralmente funcionam com defasagem. Estamos sempre olhando para trs e, no caso da COVID-19, ficou bem evidente”

Diego Xavier, epidemiologista e pesquisador

“A reforma tributria que vem pela frente seria uma grande oportunidade para a sociedade cobrar, do Congresso, uma regra definitiva de financiamento para o nosso sistema de sade. Nesta epidemia, no fosse o SUS, teramos uma mega tragdia no Brasil”, sentencia Mandetta, em meno forma como so repassados recursos s entidades que compem a rede pblica.

“ preciso ampliar a cobertura de imunizao. A tarefa deve ser cumprida, inclusive, com vistas a uma eventual vacina contra o coronavrus. No adianta a gente ter vacina se ela no chega populao. preciso entender porque no chega. No podemos ter uma vigilncia epidemiolgica passiva, mas sim ativa”, diz Croda.

Defensor das medidas restritivas, Mandetta enfrentou oposio dentro do prprio governo — Bolsonaro claramente favorvel retomada econmica. A indefinio fez com que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidisse, em abril, que estados e municpios tm autonomia para aes de combate doena. Para Diego Xavier, futuras epidemias precisam ser pautadas por uma diretriz nica. Sem isso, so altas as chances de fracasso.

“Faltou o Ministrio fazer o seu dever, que passar as diretrizes, protocolos e centralizar a compra de materiais e recursos. Vivemos uma disputa entre estados para comprar medicamentos e testes, mas o governo central poderia ter feito isso, comprando mais barato e gerenciando os recursos”.

“Temos que investir em sade e em educao. Temos que ter governantes capazes de enfrentar uma pandemia, o que no o caso. Se isso se perpetuar, outras (pandemias) viro e tero o mesmo impacto, sero a mesma tragdia. Mas o governante que est l no chegou l sozinho. Ns, a populao brasileira, temos que pensar, refletir sobre o que fizemos, sobre nossas falhas”, opina o infectologista Una Tupinambs, integrante do grupo que aconselha o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD).

Hbitos de preveno

 Por causa do coronavrus, mscaras passaram a fazer parte do vesturio, o lcool gel virou item obrigatrio nas bolsas e a higienizao das mos ganhou mais frequncia. Luiz Henrique Mandetta acredita que os hbitos de preveno precisam continuar na agenda cotidiana.

“O brasileiro teve que aprender a lavar as mos, que um hbito que praticamente no exercitava. Tivemos que aprender o distanciamento entre as pessoas, sendo que temos hbitos de proximidade e aglomeraes absolutas. Precisamos entender que esse tipo de comportamento social vai ser impactado pela gerao do coronavrus, que est aprendendo sobre o distanciamento e o uso de mscaras”, assegura.

Quem tambm ressalta a importncia da educao no processo de conscientizao Wanderson de Oliveira, secretrio de Vigilncia em Sade durante a passagem de Mandetta pelo ministrio. “A preparao sobre futuras pandemias requer a incluso do tema no currculo das escolas em todos os nveis. ( preciso) retornar a disciplina de vigilncia em sade como parte do currculo, como era no passado, e a elaborao de planos de emergncia e contingncia em todos os municpios”, refora o enfermeiro epidemiologista.

A pandemia pode diminuir a onda negacionista e de rejeio cincia que se abateu sobre o Brasil, cr Jlio Croda. “Isso pode se refletir na melhora da percepo dos brasileiros em relao cincia. Quando impacta diretamente na vida do cidado, h luz sobre a importncia da cincia em nossa sociedade. O cidado vai perceber que a cincia pode auxiliar no desenvolvimento nacional”.

O Brasil tambm deve tirar lies da pandemia no que tange indstria. Mandetta pensa que o pas pode recuperar o protagonismo na produo de insumos necessrios aos hospitais nacionais. “Quando a China teve um problema e fechou, o mundo inteiro ficou sem mscaras. H uma deciso, do planeta Terra, de diversificar produtores. O Brasil tem tudo para, analisando o quadro, retomar o parque industrial de remdios, soros, vacinas, seringas e agulhas, j que estamos comprando da China por conta dos preos mais baixos, achando que isso um bom negcio, mas perdendo a soberania”, afirma. (Colaborou Gustavo Werneck)

Fonte: Google News

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