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Filhos realçam amor pelos pais campeões e os apoiam na velhice – Esportes



Um jogador de futebol nasce duas vezes. Uma é a natural, quando vem ao mundo e conhece desde cedo sua paixão pela bola.


A outra, nesta curta carreira, é quando para de jogar e, então, entra na rotina mais convencional. Nela, passa a ir fazer compras com a esposa, acompanhar os estudos dos filhos e, muitas vezes, contar com a ajuda deles na velhice.



Já não é mais o herói das arquibancadas que anda pelas ruas. O uniforme dá lugar a um traje do dia a dia. De sapatos ou tênis, ele para na faixa de pedestres e, algumas vezes, passa despercebido por fachadas de bares.


Em outras, os cumprimentos ainda se manifestam aqui e ali, personificados em suspiros da glória que ainda resiste. De qualquer maneira, agora ele é o homem comum. Seu lado humano se acende com mais força e ele já se conformou em viver longe da balbúrdia.


O campeão Gylmar


A ausência do aplauso é substituída pela necessidade de carinho e de convivência com os familiares, conforme conta o empresário Marcelo Izar Neves, 53 anos, filho de Gylmar dos Santos Neves, o único goleiro bicampeão mundial (1958 e 1962) por uma seleção e que, no fim da vida, contou com a ajuda dele e da família para viver dignamente, após ficar 13 anos sem falar, em função de um AVC. Ele morreu em 25 de agosto de 2013.


“Cuidamos dele após esse AVC. A única comunicação oral dele era cantando. Isso pode acontecer nesses casos, algo semelhante aos gagos que cantam normalmente. Os netos iam visitá-lo e, juntos, cantavam várias músicas. Era a hora de mostrar toda a educação que ele nos passou, mesmo na sua carreira frenética em que muitas vezes tinha de viajar. Ele sempre nos ensinou a não nos iludirmos com a fama, passava para a gente que era importante ter respeito pelas pessoas. Sempre muito carinhoso e próximo de nós”, lembra.


Em sua época áurea, Gylmar era o símbolo da elegância. Mas como ele sempre foi o lembra que, em muitas ocasiões, mesmo já tendo encerrado a carreira, Gylmar era homenageado com a família, não tendo de pagar as contas em alguns restaurantes.


“Naqueles momentos ele dizia que se tratava de uma gentileza do restaurante em função do que ele fez. Mas que isso não era o comum. Por isso, desde menino eu não me ‘achava’ porque era filho do Gylmar. Era algo natural, não o via como o ídolo de todos, o via como meu pai”, observa.


Durante a carreira, Gylmar nunca escondeu o apego pela família. Antes da final da Copa de 1958, por exemplo, estava angustiado por não poder falar com a esposa, Raquel (falecida em março de 2016), e com o filho mais velho, Rogério, hoje médico nos Estados Unidos.


O chefe da delegação, Paulo Machado de Carvalho, mostrando o porquê de ter sido um condutor da vitória, providenciou um radioamador, possibilitando a conversa e fazendo Gylmar entrar mais tranquilo em campo.


“Meu irmão mais velho também ajudou. Meu pai às vezes ficava dois meses seguidos fora, era a sua maneira de ganhar dinheiro, o seu trabalho. O nosso domingo era na segunda-feira, quando ele tinha folga. Era o único momento com a família. Era algo maluco ser filho de um ídolo. As paixões no futebol são impressionantes. Na escola, muita coisa que ele fazia repercutia em nós. Eu, por exemplo, logo tive de ser o goleiro da classe e depois segui por um tempo na profissão”, afirma.


O campeão Félix


Também a função de goleiro levou o tricampeão Félix à consagração. Com três filhas para criar, e a esposa Marlene, ele foi morar no Rio de Janeiro com a família, no período em que defendeu o Fluminense.



A filha mais velha, Lígia Venerando Cardoso, corretora de seguros, de 58 anos, conta que, nos anos finais da vida de Félix, falecido em 24 de agosto de 2012, as filhas dele (ela, Gisleine e Patrícia) passaram a morar próximas à sua casa, no Tatuapé.


“Nossa admiração pelo ídolo se misturou ao amor pelo pai. Ele era um profissional muito dedicado, mas um pai maravilhoso. Descendente de italiano, não era fechado, era alegre, procurava sempre nos dar uma atmosfera familiar de carinho e confiança. Quando ele adoeceu, tudo isso nos deu força para estarmos ao lado dele”, afirma.


Lígia conta que essa imagem de pai campeão se formou já nos tempos de infância. Ela cresceu com essas lembranças.


“Eu era menina, mas vivi aquela Copa de 70. Tinha oito anos. Assim que o Brasil se sagrou campeão, ele saiu correndo para telefonar para a família. Não havia as facilidades de comunicação de hoje. E, no meio de toda a confusão, ele falou comigo. Na época ele saiu com descrença do Brasil. E eu, ainda criança, lhe disse: ‘Tá vendo papai, você saiu sem acreditarem e vai voltar campeão'”


A voz de Tostão


Outro ícone, o ex-craque Tostão, de 73 anos, ainda na ativa como colunista, lembra que, antes da relação do ídolo, há o vínculo entre pais e filhos. Ele admite que, em alguns casos, pode haver dificuldades no relacionamento em função da fama do pai. Trata-se, para ele, de uma questão individual, relativa a cada família de jogador famoso.



“Há diferentes situações. O jogador famoso pode seguir de alguma maneira como uma figura pública. Em outros casos não. Podem surgir dificuldades em alguns casos, é algo individual. Eu tenho a felicidade de ter meus filhos próximos, eles já são adultos com a vida formada, isso é motivo de orgulho para um pai”, afirma.


Marcelo Neves, o filho de Gylmar, sentindo que muitos ex-atletas consagrados passavam por dificuldades financeiras, criou em 2009 uma Associação dos Campeões Mundiais, que tinha por arrecadar verba e destiná-la para os campeões, criar uma remuneração permanente para eles e estimular o reconhecimento dos feitos pelas futuras gerações.


“Aquela iniciativa deu certo por um tempo, depois muitos pagamentos foram cancelados, outros reduzidos pela metade. É uma pena”, observa.


A ponte com os filhos


A ponte entre pais, como Gylmar, Félix e Tostão, e os filhos, como Marcelo e Lígia, acaba se tornando um retrato da vida do jogador. O futebol, em geral, é tudo para a sua identidade. A maioria dos filhos, segundo Marcelo, com dados colhidos nos tempos da Associação, vê isso com gratidão.


“Levantamos que 70% dos filhos de pais famosos os apoiam após o fim da carreira. Eu mesmo tenho na memória afetiva o que o futebol significava para o Brasil e para o meu pai. Estive presente no último jogo dele pela seleção, em 1969 no Maracanã, foi uma emoção enorme no estádio”, conta.


A frase inicial do texto veio como um contraponto, proposital, à velha máxima de que o jogador de futebol morre duas vezes.


Ele não morre quando encerra a carreira, passa a conhecer um outro mundo, que gira, gira, gira. Como uma bola.


Os dias seguem as noites, num novo ciclo de vida, sempre acompanhado pela saudade. O campeão, assim, faz dos seus filhos também pessoas especiais.


Quando o pai morre, afinal, eles passam a conviver com uma das sensações mais únicas que alguém pode vivenciar. A de sentir saudade da saudade.


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Fonte: R7

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