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‘Já vivemos um furacão. Agora, vem a recessão’, diz presidente da Creditas

Em meio à crise causada pelo novo coronavírus, a fintech de empréstimos com garantia Creditas conseguiu um feito: dar lucro pela primeira vez desde sua fundação, há oito anos. Mas, para isso, a empresa do espanhol Sergio Furio teve de reduzir seu ritmo de crescimento pela metade, gastando menos com marketing, antes que a demanda por crédito fosse tão grande a ponto da startup não conseguir captar recursos no mercado de capitais. “No final de março, o mercado travou e houve muita incerteza. Decidimos reduzir o ritmo e acabamos chegando ao lucro”, conta o executivo, em entrevista exclusiva ao Estado.

A capacidade de operar no azul dá mais tranquilidade para a Creditas, que tem 1,6 mil funcionários divididos entre Brasil, Espanha e México, navegar durante a pandemia. Mas, para Furio, ainda é difícil prever o tamanho da crise. “Nós já vivemos um furacão (com a chegada do coronavírus), no qual ninguém sabia o que estava acontecendo. Agora é que vai vir a recessão, as pessoas vão sentir”, afirma o executivo.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre como foram os dois meses em que sua empresa está operando remotamente, renegociações e também sobre os planos para o futuro – da Creditas e do setor como um todo. Apesar do horror por trás da doença, ele vê que o isolamento social vai acelerar a digitalização do sistema bancário. “Isso vai gerar uma revolução nos custos”, afirma.

A Creditas começou a operar em home office no dia 13 de março. Qual o balanço que o sr. faz desses dois meses de crise?

Mudou bastante coisa: colocamos 1,6 mil pessoas em trabalho remoto em coisa de 24 horas. Ser uma empresa digital mostra que a gente consegue trabalhar remotamente. Aumentamos a frequência de comunicação, agora temos conversas com toda a empresa semanalmente. Mesmo longe, conseguimos criar rituais para ficar perto. Depois que conseguimos garantir que o time estava bem, fomos nos preocupar com a qualidade da nossa carteira de crédito. Redobramos esforços: remanejamos a equipe para dobrar o tamanho do time de gestão de clientes. Ele tinha cerca de 60 pessoas, agora são 120. Cuidar dos clientes é o nosso pão de cada dia, porque o modelo só funciona se temos uma receita corrente. E as nossas métricas de inadimplência não tiveram aumento significativo, ficaram bem abaixo da média do mercado.

Por que a Creditas consegue uma taxa menor de inadimplência? E como a tecnologia se relaciona com isso?

Por conta do empréstimo baseado na garantia, seja usando a casa, o carro ou o salário. Se o produto está bem configurado, é possível ter uma taxa de juros menor, o prazo ser maior e não comprometer a renda do cliente. É um produto menos arriscado do que o cartão de crédito, o empréstimo pessoal ou o cheque especial. Se eu comprometo menos a renda do meu cliente, isso significa que eu sou mais resiliente. Além disso, como tem um bem em jogo, o cliente tem um incentivo para não querer deixar de pagar o empréstimo. Num momento de expansão, entendo, isso faz com que a minha margem sobre o crédito seja menor do que outros tipos de crédito no mercado. Em momentos de retração, porém, temos um efeito colateral menor. Já a tecnologia entra muito em como a gente consegue originar o crédito – isto é, fazer os empréstimos. Hoje, temos quase 350 profissionais de tecnologia aperfeiçoando processos para originação do crédito. Automatizar o processo de empréstimo, 100% digital, permite que a gente consiga reduzir custos – fazer análise de um empréstimo manualmente, eu vou dizer, é uma obra de arte, mas é muito caro. Hoje, o cliente faz tudo pela internet. E em tempos de pandemia, isso significa que eu não preciso parar de gerar empréstimos só porque o cliente não consegue assinar um contrato fisicamente.

Qual foi o maior problema que a Creditas enfrentou nesse período?

Foi o mercado de capitais. Nosso jeito de trabalhar é que a gente faz a originação do crédito e depois securitiza, isto é, vai captar no mercado. E na segunda quinzena de março, o mercado de capitais travou. Foi um momento de incerteza, mas conseguimos navegar isso: desde o começo da pandemia, conseguimos garantir R$ 200 milhões no mercado. A gente já tinha assegurado R$ 350 milhões em fevereiro, então agora estamos mais tranquilos quanto a isso. Mas, por cautela, a gente decidiu reduzir nosso ritmo de crescimento. Estávamos crescendo de 8% a 10% por mês nos últimos meses. Em abril e maio, devemos crescer entre 4% e 5% ao mês. Nós reduzimos o investimento em marketing para conseguir reduzir o crescimento da carteira, porque havia essa dúvida sobre como a gente ia captar recursos. Mas, mesmo com menos marketing, ainda houve muita procura por empréstimos. No fim das contas, o volume de pedidos caiu bem menos, em termos porcentuais, que o corte de gastos que fizemos em marketing. E o resultado é que, pela primeira vez em oito anos de empresa, estamos dando lucro, por conta dessa redução dos investimentos. Como a nossa carteira é grande e tem qualidade, conseguimos fazer caixa mesmo sem crescer, por conta da receita recorrente.

É uma surpresa. O esperado é que, num momento de crise, uma empresa de crédito crescesse mais por conta da demanda por empréstimos.

A gente queria crescer mais, mas o mercado de capitais não existia. Se a gente emprestasse usando o caixa da empresa, o risco seria muito maior. Agora, o mercado de capitais está mais tranquilo, mas não o resto do mundo. Nós já vivemos um furacão, no qual ninguém sabia o que estava acontecendo. Agora é que vai vir a recessão, agora é que as pessoas vão sentir a crise. Tem muito perigo, mas nós já estamos mais estáveis.

Mas as pessoas estão numa situação mais complicada. Houve muitos pedidos de renegociação?

Quando o Banco Central publicou a regulamentação de que os clientes poderiam deixar de pagar os empréstimos, ficamos preocupados – afinal, quem investiu no crédito também precisa do dinheiro de volta. Mas acredito que as coisas estão bem: menos de 8% dos empréstimos que temos tiveram pedidos de renegociação. E aí mostramos para os usuários que a renegociação só deve acontecer se o cliente realmente precisar. Porque renegociar é aumentar o prazo ou o valor dos juros, e isso deixa as coisas mais caras. No fim das contas, acabamos tendo apenas cerca de 3% dos empréstimos renegociados. Agora, na parte de consignado, o que estamos aplicando é uma negociação em torno das reduções dos salários, proporcional ao corte que foi aplicado.

Foi necessário fazer demissões?

Foi a primeira pergunta que ouvimos dos nossos investidores. Decidimos que não, até por conta do nosso modelo de negócios. A vida continua normal, na medida do possível, para nós. O que aconteceu é que nós fizemos algumas demissões pontuais – uma na área de eventos, por exemplo, que é algo que não fazia sentido no momento presente. E também fizemos demissões por performance, algo que é natural na nossa empresa, considerando o modelo de crescimento rápido e a busca por resultados. Algumas pessoas são promovidas e outras são demitidas, por desempenho. Estamos segurando as contratações e não vamos ter demissões – até porque acredito que, no mundo pós-coronavírus, nosso modelo de crédito vai ter muito mais força, porque haverá menor concessão de empréstimos sem garantias, como linhas de crédito pessoal. Como nosso crédito é com garantia, seremos menos impactados.

Em fevereiro, a Creditas lançou a Creditas Store, uma loja com crédito consignado, e tinha vários planos para o futuro. Como o coronavírus mudou esses planos?

Na verdade, muda muito pouco ou quase nada. Até o final do mês, vamos passar a vender todos os produtos da Apple pela Creditas Store. Antes, era só o iPhone. O time de soluções residenciais, que vai desde crédito baseado no imóvel como garantia, até reformas, continua à toda. O setor de material de construção é um dos poucos que está crescendo, porque as pessoas ficam em casa e querem fazer uma reforma para morar melhor. Então estamos indo bem. Na semana passada, lançamos um piloto interno de compra e venda de carros com crédito com garantia. Até o final do mês, queremos lançar para o público em geral. E estamos nos preparando para fazer os primeiros empréstimos no México, o problema é que os cartórios não estão funcionando por lá. Há uma questão de compensações: ok, a pessoa pode estar usando menos o financiamento para comprar um carro. Mas ela vai manter o carro que ela tem por mais tempo, então ele pode servir como garantia para um empréstimo. Na nossa perspectiva, nada muda: estamos acelerando. E como estamos gerando caixa, não precisamos captar dinheiro, podemos decidir quando vamos fazer uma nova rodada de captações. Acredito que a redução de crescimento que tivemos foi temporária: os times, inclusive, já trabalham para que a gente volte a crescer em torno de 8% em junho.

E como o sr. vê o setor de fintechs, em meio a essa crise?

Eu tenho orgulho de que estamos acelerando o ritmo de digitalização. Se somar todas as fintechs, ainda somos um percentual do mercado bancário. Mas estamos cutucando os bancos para eles acelerarem a digitalização deles. O coronavírus é um horror. Mas na nossa perspectiva, ele traz uma digitalização acelerada do mundo. Imagino que, num futuro próximo, os bancos vão acelerar o processo de fechamento de agências, o que pode causar demissões, mas também vai gerar uma revolução nos custos para os clientes, provavelmente também na redução dos juros. Muitas fintechs pequenas vão ter problemas nesse meio tempo? Sim, e elas trazem muita inovação, é preciso prestar atenção nelas. E falando sobre o futuro distante, acredito que não haverá mais a dicotomia entre fintechs e bancos. Eu nunca entendi essa distinção – a única diferença é que um começou com tecnologia e o outro não. As fintechs são reguladas, tem licença, algumas são até maiores que os bancos. Em dez anos, os dois vão convergir: a fintech vai ser mais “banco” e o banco vai ser mais fintech, num processo de convergência que vai trazer mais concorrência. Vai ser bom para todos.

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Fonte: Terra

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