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Jornalista “mecenas” apoia mais de 30 lutadores e forma campeões – Esportes


Como jornalista, João Carlos Assumpção sempre foi um observador da alma humana. Ficou conhecido por sua perspicácia e criatividade para usar o senso de humor, no convívio nos ambientes de trabalho.


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Tem a habilidade de um roteirista para extrair de um acontecimento dramático um lado até mesmo divertido. Sem, no entanto, desprezar a importância do fato. Muitas vezes realçando um lado mais leve. 


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Somos amigos há mais de 30 anos. Trabalhamos juntos em algumas ocasiões e já escrevemos três livros em parceria, o mais famoso, o “Deuses da Bola”, sobre a seleção brasileira de futebol.



Diria mais. Sou seu melhor amigo desde quando nos conhecemos, em 1987, pouco tempo antes de fazermos, em turma, uma viagem “maluca” de ônibus para o Rio, só para ver Vasco x Fluminense.


No dia anterior, em São Paulo, tínhamos ido a três jogos: um pela manhã, São Paulo x Guarani; outro à tarde, Corinthians x XV de Piracicaba, e outro à noite, no Canindé, perto da rodoviária, para onde fomos a pé, no início da madrugada, atravessando uma perigosa ponte: Portuguesa x Botafogo (SP).



Eram os arroubos de juventude de alguns aventureiros que, diga-se a verdade, pareciam não ter mais nada para fazer.


No Rio, ficamos na casa de outro grande amigo, o Tarcísio Vasconcellos de Rezende Pinto. Fanático pelo Vasco, Tarcísio não perdia um jogo de seu time. 


A preparação para ir a cada partida era rodeada de superstições, em um ritual que se assemelhava à visita a um templo. Conhecido como Vascão, ele tinha uma torcida organizada, da qual era o único membro, o grito uníssono que doava para a massa vascaína, em brados generosos e de realização pessoal.


Aprendizado em prática


Mas se essa fase da juventude aparenta futilidade, no fundo ela muito ensina. Desses ensinamentos, ficou, no mínimo, a descoberta de que, em cada passo dessas viagens, a observação que compartilhávamos sobre os seres humanos apenas nos enriquecia.


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E se acumulavam em um manancial de histórias que bem poderiam dar um filme ou livro sobre a condição humana, tanto do lado da tragédia, quanto da comédia ou da farsa.


Mas como tudo tem seu tempo, cada um encaixou o aprendizado de alguma maneira. A essência básica, aprendida nestas andanças, no entanto, se manteve enquanto os cabelos embranqueciam.


Afinal, tudo aquilo que observávamos tinha a ver com as manifestações de egoísmo dos homens, assim como com o lado ingênuo deles nesses detalhes do cotidiano, nos pequenos atos que não conseguem esconder a permanente busca da felicidade. Extraíamos a carência do ser humano, tão similar à nossa e tão necessitada de compreensão e solidariedade.


Tarcísio pratica a solidariedade como médico – atencioso, preciso e humanista – e como futebólogo, uma das maneiras com que se define, abrindo um museu de futebol em Ribeirão Preto, cidade onde mora.


João Carlos – o Lalinho ou Janca ou ainda Vidigal, como eu costumo chamá-lo – resolveu, perto dos 50 anos, intensificar a solidariedade que ele já praticava como voluntário e conselheiro do tradicional Instituto Ana Rosa, fundado em 1874 na capital paulista.


E, deixando-se levar pela profissão de jornalista, encontrou essa nova atividade. Tornou-se um “mecenas” do Muay Thai, ajudando dezenas de jovens que vivem em regiões de vulnerabilidade de cidades brasileiras, como Santos e Porto Alegre.


Tudo começou em 2015, quando ele entrou para a modalidade a fim de fazer pesquisa voltada a um documentário. Foi, então, que ele sentiu a necessidade de, sem perder o senso jornalístico, se envolver com a realidade e não apenas mostrá-la friamente. 


“Percebendo a necessidade que alguns atletas tinham, a maioria vindo da periferia e muitos em condição de vulnerabilidade social, passei a ajudá-los das mais diferentes formas possíveis. Até hoje, foram mais de 30, alguns com ajuda de custo, dinheiro para suplementação e transporte, indicação de médicos amigos meus que os atendem de graça, apoio psicológico.”


Formando campeões


Um dos que mais progrediram em função desse apoio foi o lutador Luís Cajaiba, que se tornou, na última semana, o primeiro não asiático campeão tailandês. A Taliândia é o berço deste esporte. Antes ele já havia se sagrado campeão mundial.


“Ajudei o Luís durante um ano e meio, iniciando o apoio ainda quando ele era atleta amador, até que fosse para a Tailândia, sonho da vida dele.”


Outra carreira que ele apoia é a do lutador Mauricio Telles, de Porto Alegre, que recentemente ganhou o GP do Attack Fight, principal evento de Muay Thai do Rio Grande do Sul, na categoria 63,5kg, e como prêmio passagem para a Tailândia e um mês de treino na Phuket Fight Club. 


Lalinho, de 53 anos, afirma, porém, que o apoio busca ajudar no crescimento pessoal de cada um, e não apenas remediar um momento de necessidade urgente.


“Quando apoio atletas, sempre os incentivo a estudar e buscar conhecimentos, como faço com o Mauricio Telles, que está começando a estudar inglês, por exemplo, e tem um programa com Leandro Bang, ex-lutador de thai, sobre o thai no Rio Grande do Sul, chamado SulThai News, que também tem meu apoio e que vai se tornar internacional a partir de novembro.”


Sonhar e realizar


Em um Brasil com tantas carências e desigualdades, o Muay Thai acaba sendo um esporte silencioso, pouco divulgado, mas que vai canalizando a agressividade de desfavorecidos socialmente e se torna, como o futebol (muito mais divulgado) uma forma de superação.



“Apoiei também uma academia em Esteio (RS), porque acredito que o esporte pode tirar a molecada da rua e lhe dar foco, disciplina e um sonho. Assim como a cultura e a educação, o esporte pode transformar vidas. Pena que no Brasil tenha tão pouco apoio. Se esportes olímpicos, na monocultura do futebol, já são esquecidos, imagina o Muay Thai, que nem olímpico é…”


O depoimento do jovem Telles é revelador, mostra o senso de gratidão e o potencial que pode emergir deste Brasil Profundo, formado por jovens que, mais do que realizar um sonho, buscam se sentir úteis e reconhecidos.


“O João (Lalinho) vem me ajudando muito na parte psicológica e financeira, é tipo um anjo que entrou na minha vida. Foi como um pai que nunca tive, que passou a me dar metas, cobrando elas todos os dias, fazendo eu ir atrás dos compromissos e a não fugir deles como costumava fazer, me salvou de entrar num mundo que talvez não tivesse mais volta.”


Já inserido no meio do Muay Thai, Lalinho não deixou de lado seu projeto jornalístico. Suas ações, ao contrário, até contribuíram com a atividade. Ele viajará, em novembro, para a Tailândia, a fim de desenvolver um trabalho jornalístico sobre o budismo no país.


E também irá finalizar seu livro baseado nas experiências vividas no mundo das lutas, mostrando um pouco do Brasil real.


“Temos um país extremamente injusto e desigual. Passei a frequentar comunidades, vilas, pessoas com um outro tipo de formação e que me ensinaram muito nesses quatro anos e meio. Saí da minha bolha e da minha zona de conforto e, do meu jeito, tento ajudar a formar pessoas e cidadãos melhores. Porque sonhar é preciso. E fazer nossa parte, também.”


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Vale ressaltar que, pela primeira vez, tais informações vieram à tona. Lalinho só as revelou publicamente por minha insistência. Não é elegante, afinal, propagandear as próprias boas ações.


Quanto às minhas, nem sei se são tantas quanto eu poderia ou gostaria. Digo apenas uma delas, pelo menos na intenção. Divulgar esta iniciativa, que apoia os jovens lutadores e transforma uma possível tragédia, comédia ou drama em romance é meu ato de solidariedade. E reconhecimento. De um jornalista, escrevendo sobre um amigo.


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Fonte: R7

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