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Médicos brasileiros relatam dificuldade para deixar a Rússia durante a pandemia

Cerca de 50 brasileiros que vivem na Rússia, entre médicos recém-formados e estudantes de medicina, não conseguem deixar o país desde o final de junho. Os problemas são a falta de voos, a suspensão da entrada de estrangeiros no País e o fechamento dos aeroportos russos. Embora seja possível estender a permanência por causa da pandemia, os brasileiros estão sem recursos, principalmente para a moradia.

Vivendo há seis anos na Rússia, a médica Camilla Rodrigues, de 24 anos, se formou no final do mês de junho. Sua passagem da companhia aérea Tap Portugal, marcada para 3 de julho, foi cancelada. Ela está com dificuldades para estender por mais tempo a permanência na Rússia porque não pode trabalhar – seu visto é de estudante. Além disso, de acordo com o contrato de aluguel, ela só pode ficar no apartamento, localizado na cidade de Kursk, no sul da Rússia, até o final do mês. O valor do aluguel é de R$ 2 mil. “Estamos nos apertando para pagar as despesas, mas não estamos pedindo um voo de graça. Nossas famílias estão dispostas a ajudar, desde que não sejam valores absurdos”.

Médicos brasileiros Rodrigo Moreira, Camilla Franco, Chrysipo Aguiar, Camilla Rodrigues, Augusto Aguiar e Emanuela Ramos.

Foto: Divulgação/ Universidade Estatal de Medicina de Kursk / Estadão

No Brasil, os pais de Camilla estão com dificuldades financeiras, a exemplo da grande maioria da população, por causa da quarentena. Eles moram em Salvador (BA). “Diante da pandemia, os recursos estão se acabando. É um momento difícil”, diz a pedagoga Lucimar Rodrigues, mãe de Camilla e casada com o microempresário Antonio Balbino.

Os poucos voos de retorno disponíveis, direcionados principalmente para executivos que ficaram presos na capital russa por causa do lockdown, em vigor em Moscou até o dia 23 de junho, são caros, de acordo com os brasileiros. Uma passagem para o Rio de Janeiro, por exemplo, está em torno de 271 mil rublos (R$ 20 mil). Antes da pandemia, um tíquete custava entre R$ 2,8 mil a 4,5 mil. Mesmo assim é quase impossível conseguir um assento. Embora alguns sites de busca anunciem voos disponíveis, os cancelamentos são a regra geral.

As perspectivas de retomada da aviação são incertas. Os aeroportos russos foram fechados por conta de irregularidades nas medidas de prevenção apontadas pelas agências sanitárias. Depois de várias prorrogações, a Agência Federal de Transporte Aéreo estendeu a restrição para voos internacionais até o dia 1º de agosto. Os brasileiros afirmam que não houve nenhuma ação de repatriação do governo brasileiro, mas alguns viajantes conseguiram “pegar carona” em voos de outras nacionalidades.

Os brasileiros também cobram apoio da embaixada brasileira em Moscou e do Ministério das Relações Exteriores. “A embaixada não nos dá apoio. Temos e-mails em que eles falam que não têm como socorrer e que não podem fazer nada”, diz o recém-formado Rodrigo Prado, de 43 anos, que está tentando voltar para a Porangatu, na divisa entre Goiás e o Tocantins, onde tem a mulher, Phâmela, e o filho, Rodrigo.

O médico goiano Marcelo Oliveira, também de 24 anos, tem um prazo ainda mais apertado para deixar seu apartamento, também em Kursk. Ele tem até domingo para sair. Ele comprou uma passagem aérea para o dia 30 de junho, que passou para 15 de julho, mas acabou sendo cancelada e só pode ser remarcada em setembro. Um alívio foi a prorrogação do seu plano de saúde até agosto.

“Nossas dificuldades são nos manter aqui financeiramente, evitar contaminação e orientar nossos familiares no Brasil para que também não se contaminem”, diz o médico. “Com os aeroportos fechados, o retorno só seria possível com a interferência governamental para a realização de voos de repatriação”, explica. “Precisamos conseguir o máximo de forças e tirar os brasileiros daqui. Mas só vamos conseguir com apoio do governo federal”, afirma.

Uma decisão extraordinária do governo russo permite que os vistos de permanência sejam prorrogados até 15 de setembro. Aí entra uma questão burocrática. Só é permitido estender esse prazo se o proprietário do imóvel acompanhar o inquilino até o departamento de imigração. Nesse ponto, os brasileiros estão com problemas. Muitos proprietários querem o apartamento de volta para assinar contratos mais longos de locação.

Por conta das dificuldades, o médico Rodrigo Prado conta que muitos brasileiros se mudaram para a casa de colegas. “Temos médicos que estão morando de favor na casa de outros colegas. É uma situação de emergência. Queremos ser ouvidos. Nós só queremos voltar para o nosso país”.

Influência brasileira

O fato de Marcelo, Camilla e Rodrigo morarem na cidade de Kursk não é coincidência. Embora também existam estudantes de Vladivostok, Moscou, São Petersburgo e Kalingrado tentando voltar ao Brasil, a cidade distante 500 quilômetros de Moscou concentra grande parte dos estudantes e recém-formados. Dos 1.300 brasileiros que vivem hoje no país, cerca de 300 estão por lá.

Todos procuram a cidade para estudar Medicina na Universidade Estatal de Medicina de Kursk (KMSU), que está entre as 10 melhores da Rússia e foi a primeira a oferecer graduação em inglês no território russo. O diploma com carimbo de Kursk é aceito também na Europa.

Além do ensino de qualidade, o curso é mais barato do que no Brasil. Um semestre custa, em média, R$ 12 mil; no Brasil, só a mensalidade custa R$ 8 mil. Por fim, não existe um vestibular tradicional, mas apenas uma prova classificatória. Para trabalhar no Brasil, o recém-formado na Rússia tem de fazer o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida). Em média, são 25 brasileiros formados por semestre.

Outro lado

A embaixada do Brasil em Moscou informa que já foram realizados quatro voos que levaram de volta ao Brasil 114 cidadãos brasileiros retidos na Rússia em razão da interrupção do tráfego aéreo desde o mês de abril. Os diplomatas informam que não há previsão de voos de repatriação no momento.

A embaixada afirma que está em contato com o grupo de estudantes e tem esclarecido que, conforme decisão extraordinária do governo russo no contexto da pandemia de covid-19, vistos que expirassem entre 15/3 e 15/9 teriam sua validade prorrogada por 185 dias a partir da data de expiração. Os diplomatas dizem que informaram sobre os voos operados pela companhia aérea Aeroflot com destino a Frankfurt, de onde a Lufthansa mantém voos para o Brasil. Essa foi a rota aérea utilizada por vários brasileiros nas últimas semanas, de acordo com a embaixada.

“Eventuais decisões sobre fretamento de aeronaves para voos de repatriação são tomadas em Brasília e executadas pelas embaixadas no exterior”, diz outro trecho da nota enviada ao Estadão. Consultado, o Ministério das Relações Exteriores não se pronunciou.

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Estadão

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Fonte: Terra

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