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Mesmo cercado de questões políticas, 5G no país promete muito mais que aumento da velocidade

SÃO PAULO – O Brasil caminha para entrar de vez na rota do 5G com as recentes ativações da rede de internet móvel de quinta geração feitas pela Claro e a Telefônica Brasil, dona da Vivo. A cobertura, ainda restrita a algumas capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, promete uma conexão com velocidade 12 vezes superior à do 4G.

As operadoras utilizarão a tecnologia DSS (do inglês Dynamic Spectrum Sharing, ou Compartilhamento Dinâmico de Espectro), que permite o compartilhamento do espectro das frequências já licenciadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para o 4 e o 4.5G. O mesmo movimento foi feito por outras operadoras que anteciparam a cobertura em, a exemplo da Alemanha, Estados Unidos e Suíça.

Através do DSS, a Telefônica vai destinar para o 5G as frequências de 2.600 Mhz, 1.800 Mhz e 700 Mhz utilizadas no 4G, com auxílio dos equipamentos da Ericsson e da Huawei, enquanto a Claro vai empregar a tecnologia desenvolvida pela Ericsson para compartilhar o 5G nas suas frequências.

“A frequência é como uma via pela qual passam ‘carros 4G’ e, com a habilitação da tecnologia DSS, dois tráfegos são criados– um para o 4G e outro para 5G. Isso é feito por meio de software e é uma das formas de se trazer a tecnologia para o país aproveitando o investimento já feito pelas operadoras em suas redes”, explica Marcelo Motta, diretor global de cibersegurança e soluções da Huawei.

Mas o uso do DSS é somente uma prévia do que o 5G pode proporcionar por meio das suas três principais características: velocidade, capacidade e latência.

O desenvolvimento da nova geração de rede móvel, que deve aumentar a velocidade de conexão, permitirá também maior cobertura de sinal, envio de dados e capacidade de dispositivos conectados, acelerando o processo de digitalização da sociedade projetado para os próximos anos, quando tudo e todos se comunicarão pela rede de internet sem fio.

Para que isso seja possível, é fundamental que a conexão entre os milhões de dispositivos ocorra em baixa latência – tempo de resposta em que os dados são transmitidos entre a rede e os aparelhos conectados -, o que possibilitará, por exemplo, o controle de objetos remotos, como carros e drones autônomos.

“O 5G é a ferramenta que vai permitir que as coisas dialoguem entre si, através do IoT (Internet das Coisas). É uma possibilidade de tornar o mundo digital e isso tem implicações inimagináveis, porque irá mudar a forma como dialogamos com o mundo. É uma nova revolução tecnológica”, diz Leonardo Trevisan, economista e professor de relações internacionais da ESPM-SP.

Para Michele Liguoro, diretor comercial da Engineering, consultoria global especializada em transformação digital, o grande diferencial do 5G em relação às tecnologias móveis passadas é que ela foi pensada com o objetivo de atender as demandas de uma sociedade hiperconectada e uma economia digital.

No passado, o 2G possibilitou o envio de mensagens de texto (SMS) e e-mails pelo celular, sem a necessidade de um computador e o 3G impulsionou o compartilhamento de fotos e vídeos. Com o 4G, a velocidade de dados maior permitiu o avanço de atividades online e downloads mais rápidos. Porém, as projeções são ainda mais animadoras, com o 5G, que irá criar modelos de negócios e moldar as relações entre as pessoas e o espaço através da tecnologia.

“É um mundo que vai se abrir e com ele novas oportunidades vão surgir. O 5G vai fomentar a oferta de serviços aos clientes. Nesse cenário de inovação, empresas novas vão surgir, novas soluções serão lançadas no mercado e até novos perfis de usuários serão formados”, pontua Liguoro.

Diante das vastas possibilidades que o 5G pode permitir, Marcelo Motta, da Huawei, sinaliza que as suas aplicações serão feitas em fases, sendo o primeiro momento destinado a prover melhorias na qualidade da velocidade ofertada na rede.

“No atual momento, quando falamos de 5G estamos falando de banda larga em alta velocidade. Os serviços de baixa latência, mais apropriados para o uso da tecnologia na área de saúde, por exemplo, virão com o 3GPP Release-16, um organismo que está padronizando o 5G ao redor do mundo e essa padronização será lançada em breve”, diz Motta.

O Release-16 será responsável por traçar o funcionamento da internet das coisas dentro do ambiente 5G. Ele contará com normas que estabelecem uma URLCC (do inglês, ultra-reliable and low latency communications, ou comunicação ultra-confiável e de baixa latência) para sensores, direção autônoma e remota e aplicações industriais.

O documento também estabelece questões estruturais que podem impactar o mercado das operadoras de telecomunicação, como os protocolos com especificações sobre uso de espectro não licenciado para incremento da tecnologia 5G, uso de satélites para redes, fatiamento de rede e a interoperação, ou seja, a capacidade de comunicação transparente entre redes móveis em uma mesma região.

Desafios

A expansão do 5G também depende do leilão das faixas de frequências, que está sendo organizado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O certame, previsto para acontecer neste ano, foi adiado para 2021, ainda sem data definida.

Nele serão leiloadas as faixas na qual o sinal do 5G vai operar em todo o país, sendo a principal delas a de 3.500 Mhz. Especialistas dizem que as ondas de frequência do 5G podem enfrentar algum empecilho com o sinal de parabólicas, que também usam as frequências mais baixas. Essa seria a justificativa da Anatel para a demora do certame.

Porém, o debate em torno da tecnologia ganhou dimensões geopolíticas encabeçadas por China e Estados Unidos, que também vêm interferindo no desenvolvimento do 5G.

A Huawei, junto com a ZTE, Nokia, Samsung e Ericsson são detentoras do hardware de rádio e dos sistemas 5G para operadoras. A atuação da chinesa no mercado de equipamentos para as futuras linhas da telefonia de quinta geração sofre grandes interferências dos Estados Unidos, que acusam a companhia espionagem.

Na última semana, o Reino Unido proibiu do uso de equipamentos da Huawei nas suas redes 5G. Canadá, Austrália e Nova Zelândia também tomaram medidas para restringir a atuação da chinesa em seu mercado.

No Brasil, apesar de nenhum movimento oficial, o receio existe por conta do alinhamento político do presidente Jair Bolsonaro com os EUA. Segundo Leonardo Trevisan, da ESPM-SP, esse debate político é prejudicial porque afeta diretamente a capacidade de desenvolvimento do parque industrial do país e a competitividade.

“Nós estamos adiando demais o leilão e a polarização política brasileira está presente nisso. Quanto mais adiarmos essa questão, mais perderemos nosso poder de negociação. Estamos caminhando para escolher se ficamos com os EUA e recebemos o que eles querem nos dar ou ficamos com a proteção chinesa. E não é esse o caminho que a Europa e outros países estão sinalizando, criando alternativas para essa briga dual”, reforça Trevisan.

Sobre um possível bloqueio da Huawei, que atua há 22 anos no Brasil, o diretor da companhia garante que as expectativas são positivas e que o papel da empresa é trazer melhorias para o mercado de telecomunicação brasileiro.

“Essas acusações que pesam contra nós não possuem nenhum fundamento e nos acompanham à medida que começamos a crescer no mercado internacional. Nossos clientes e governos que testam as nossas soluções confiam em nós, então, com o market share e histórico que temos no país, estamos muito confiantes de que vai prevalecer a racionalidade aqui no Brasil”, diz Marcelo Motta.

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Fonte: Infomoney

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