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Mulheres trabalhadoras podem sofrer outro impacto da crise: a aposentadoria

Durante os primeiros meses da pandemia, Leah Tyrrell descobriu que tinha habilidade para o equilibrismo: trabalhava como vendedora de uma fabricante de roupas de San Diego e cuidava das três filhas pequenas em casa. A jornada dela tinha sido reduzida, e o trabalho remoto no turno da manhã a deixava livre para ficar com as crianças no restante do dia.

“Na época, pensei que daria conta”, disse Leah. Isso mudou em agosto, quando o empregador dela começou a pedir aos funcionários que retomassem a atividade em período integral. A empresa era flexível, mas seria necessário abrir mão de alguma coisa e, como o marido dela ganhava mais, ela largou o emprego para cuidar das meninas, com idades de 9 anos, 8 anos e 5 anos, e ajudá-las com o ensino à distância.

“Foi uma decisão muito difícil, mas concluímos que, com a nossa filha mais nova acompanhando o jardim da infância pelo computador, eu teria que acompanhar com ela o conteúdo passado pelos professores”, disse ela.

A aposentadoria ainda está distante para Leah, 43 anos, mas ela espera que o estrago nos seus planos para o longo prazo seja mínimo. Tinha o plano de aposentadoria oferecido pela empresa, que equiparava suas contribuições, e pretende retomar a poupança quando voltar a trabalhar tão logo a pandemia recue.

“Quando retomar o trabalho, espero que seja em uma empresa que equipare as contribuições para o plano de aposentadoria, mas sem dúvida perderei um ano de poupança”, disse ela.

O impacto para os planos de aposentadoria dela – e de outras mulheres em situação parecida – pode ser consideravelmente mais profundo.

Especialistas em políticas públicas reconhecem faz tempo uma lacuna de gênero na segurança da aposentadoria. As mulheres costumam ganhar menos que os homens, e é maior a probabilidade de interromperem o trabalho para cuidar de filhos ou de pais idosos. Mesmo as interrupções breves na carreira reduzem o crescimento salarial, a poupança para a aposentadoria e os benefícios da previdência social, determinados pelo histórico salarial. As mulheres também tendem a viver mais que os homens, usando esses recursos por mais anos. Em particular, enfrentam despesas de saúde mais altas na aposentadoria.

Agora, a recessão causada pela pandemia está afetando desproporcionalmente as carreiras de mulheres, a ponto de alguns especialistas falarem em uma “recessãe”.

Em novembro, o índice de desemprego nos Estados Unidos caiu de 6,9% para 6,7%, de acordo com dados do departamento do trabalho divulgados na semana passada. Mas o ritmo de criação de empregos estagnou, e milhões de pessoas simplesmente deixaram o mercado de trabalho, especialmente as mulheres. Um estudo recente apontou uma queda desproporcional no emprego para mulheres no auge da idade de trabalho, entre 25 e 55 anos, em comparação aos homens — e as mais afetadas foram as mães.

As mulheres formam uma fatia desproporcional dos trabalhadores das indústrias que mais estão cortando vagas, de acordo com relatório recente publicado pela YWCA USA. Mulheres latinas, negras e asiáticas foram as mais atingidas, segundo o relatório. Muitas já ganhavam menos no início da pandemia, e o desemprego cresceu mais entre elas com o declínio, de acordo com a coautora do estudo, Victoria M. DeFrancesco Soto, diretora-assistente da Faculdade de Assuntos Públicos Lyndon B. Johnson, da Universidade do Texas.

“Elas já se encontravam em situação de vulnerabilidade, e é possível que muitas jamais retomem o emprego em período integral”, disse ela.

As perdas podem se acumular com o tempo

Até uma interrupção breve no salário pode ter um impacto surpreendente na aposentadoria. Na carreira, cada ano fora da força de trabalho representa um prejuízo bem maior que o salário perdido, de acordo com pesquisas do Center for American Progress. Esse prejuízo se acumula com o tempo na forma de perdas no crescimento salarial, na poupança para a aposentadoria e nos benefícios da previdência, conforme ilustrado por uma calculadora desenvolvida pelo centro.

Por exemplo, uma mulher de 35 anos que ganhe US$ 80 mil anuais e deixe a força de trabalho por cinco anos pode esperar um prejuízo de US$ 197 mil em benefícios e poupança para a aposentadoria, supondo que se aposente aos 67 anos, de acordo com a calculadora.

“Ao pensar no que vai acontecer no longo prazo em decorrência da pandemia, minha maior preocupação é o prejuízo dramático para as famílias”, disse o economista Michael Madowitz, que desenvolveu a calculadora do centro.

A proporção de mulheres desempregadas saltou. Somente em setembro, o número de mulheres que deixaram a força de trabalho foi quatro vezes maior que o de homens, e nem metade delas voltou à força de trabalho em outubro e novembro, de acordo com as pesquisas do Center for American Progress.

Para Edith Ben Ari, o limite chegou em agosto. Ela lutava para manter o emprego como diretora de uma escola em Oakland, Califórnia, voltada para crianças com dificuldades de aprendizado, enquanto cuidava das necessidades dos filhos, de 8 e 6 anos. Os pais dela estão na casa dos 80 anos, moram perto e têm boa saúde, mas a pandemia fez com que ela se preparasse para dar atenção a eles a qualquer momento.

O marido de Edith, consultor de finanças, é quem ganha o maior salário; com a necessidade de dar atenção à família, isso a levou a deixar o cargo em agosto. Ela planeja seguir trabalhando no ensino especial como consultora.

Esse cálculo financeiro é comum, de acordo com C. Nicole Mason, presidente e diretora executiva do Institute for Women’s Policy Research, centro de estudos estratégicos voltado para a ampliação do poder e da influência das mulheres e à superação das desigualdades de gênero.

“Na hora de calcular quem deve deixar a força de trabalho, a desigualdade salarial significa que é maior a probabilidade de serem as mulheres a interromper a carreira quando há duas pessoas trabalhando no lar”, disse ela.

O que pode ser feito quanto a isso?

A previdência social desempenha um papel-chave enquanto fonte garantida de renda vitalícia na aposentadoria, e a maioria das propostas apresentadas pelos democratas inclui mudanças que buscam melhorar a segurança econômica das mulheres.

Um plano do presidente-eleito Joe Biden ajustaria a fórmula de cálculo dos benefícios da previdência social para conceder créditos de trabalho a pessoas que cuidaram de filhos e outros parentes. Também seriam ampliados os benefícios para as viúvas em determinadas circunstâncias, e os benefícios para os idosos que tiverem feito pagamentos por 20 anos. Finalmente, seria adotado um novo critério para determinar o ajuste anual da previdência para compensar a alta no custo de vida — o CPI-E, medida experimental da inflação criada pelo departamento do trabalho para medir de maneira mais precisa a inflação que afeta os idosos, especialmente em relação às despesas de saúde.

Reformas no sistema de aposentadoria podem desempenhar um papel na superação das diferenças entre os gêneros. Em 2019, o acúmulo médio de um plano de aposentadoria era de US$ 131.000 para os homens e US$ 88.000 para as mulheres, de acordo com a Vanguard.

Biden propôs, por exemplo, permitir que aquelas encarregadas de cuidar de filhos ou parentes façam contribuições de “compensação” aos planos de aposentadoria ou contas individuais, mesmo se não estiverem atualmente empregadas em um cargo que patrocine tais planos.

As políticas e leis que melhoram a igualdade salarial também ajudam, de acordo com Nicole; um exemplo há muito defendido pelos democratas é a Lei do Salário Justo.

Mas os especialistas apontam que a mudança mais significativa poderia ser uma reforma no sistema nacional de creches.

Biden indicou que apoiar as cuidadoras seria uma prioridade do seu governo, e propôs US$ 775 bilhões em novos gastos para os próximos 10 anos que incluem licença familiar paga e mudanças no Medicaid.

Victoria Soto, diretora assistente no Texas, disse, “As mulheres não podem ser participantes plenas na força de trabalho e contribuir para a própria aposentadoria se não puderem contar com creches — ou se os funcionários das creches não ganharem o suficiente nem receberem benefícios”.

/ Tradução de Augusto Calil

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Fonte: Terra

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