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‘Não pode um Estado liberar o futebol e o outro, não’

Longe da área técnica e do gramado, o técnico do Palmeiras, Vanderlei Luxemburgo, hoje em dia mantém contato com os jogadores só por videoconferência. E foi graças à essa tecnologia que o treinador concedeu entrevista exclusiva ao Estadão para comentar sobre o período de quarentena e a expectativa de retorno dos jogos no Brasil.

Para o treinador, o futebol só deve voltar a ser praticado com autorização dos órgãos de saúde. Além disso, Luxemburgo acredita que o retorno à pratica deveria ser unificado em todo o País, para evitar assim vantagens para os clubes que já retomaram os treinamentos.

Como tem sido trabalhar à distância? Já se acostumou com os treinos virtuais?

Temos de nos adaptar às coisas, é uma realidade. O treinamento virtual nosso tem sido muito bom. Demos um programa para eles treinarem durante essa paralisação, para todos se manterem em atividade. Os jogadores treinam forte, três vezes por semana. Só que está se tornando cansativo. Eles estão cansados de ficarem em casa treinando em uma sala, na varanda. Agora, tem de começar a mudar.

Teme que os seus jogadores tenham perdas técnicas?

Eles estão treinando forte. Liberamos eles para contratarem personal trainer, mas orientados pelo nosso pessoal da preparação física. O futebol não pode estar fora da pandemia. A pandemia faz parte de uma totalidade. Então, não pode um Estado liberar o futebol e o outro, não. Temos competições que exigem diversas situações diferentes e a condição física é primordial. Tem de tratar a pandemia de uma maneira geral para todos, mas aqui no Brasil cada Estado toma a uma decisão de acordo com os seus interesses, e que é diferente de outros estados…Tem clubes treinando já há bastante tempo e nós estamos respeitando os órgãos de saúde. Eu acho que foi equivocada a liberação para alguns clubes do País treinarem e outros não. Acho que isso não é legal.

Você acha que o futebol pode voltar mais por pressão política do que por questões de saúde?

Não quero entrar na parte política. O futebol tem de voltar dentro daquilo que for feito para a sociedade. Liberou para a sociedade, liberou o futebol. Não pode ser diferente. Não deixamos de ser cidadãos por sermos profissionais de futebol. Não podemos ser tratados de forma diferente de todos. O grande erro é este.

O Palmeiras sempre se posicionou contrário ao retorno. Como se formou esse consenso?

Coerência. O Palmeiras sempre foi muito contestado, mas apresentou um equilíbrio com todos os seus setores para entender o momento. O presidente (Mauricio Galiotte) falava sempre para ter calma, tranquilidade e que teríamos de tomar uma decisão, mas ela não seria radical nem imposta. Seria conversada. E foi conversada com todos os setores sobre o que deveria ser feito, passando inclusive por todos os jogadores, que vieram falar comigo sobre a proposta do clube. Chegamos a um consenso. O presidente sempre falou que o Palmeiras vai voltar quando os órgãos sanitários e a saúde pública voltar. Nós estamos preparados. Mas só vamos voltar quando liberarem.

Sente que quem já começou a treinar vai estar em vantagem competitiva?

Você treinar em uma varanda de dez metros e em um campo é muito diferente. Acho que vai fazer uma diferença, sim. Vamos ter de antecipar etapas. Acima de tudo estamos lidando com vidas, com seres humanos. Pessoas podem morrer. Não é uma coisa normal. A decisão tem de ser tomada em conjunto e a prevenção feita em conjunta.

Os jogos no Brasil vão ser com portões fechados. Acha que isso vai tirar a força dos times mandantes?

A torcida é importante. Digo sempre que é o centroavante da equipe. Quando vou jogar contra um adversário que é muito forte com seus torcedores, eu aviso os jogadores: “Vamos ter de ganhar da torcida e deles”. Vamos ter de fazer um trabalho para que possamos colocar o torcedor em campo de alguma maneira. Estou pensando nisso, mas ainda não posso falar.

Os jogadores do Palmeiras aceitaram a redução salarial. Negociar esse tipo de tema é muito diferente hoje em dia?

O perfil desse grupo é muito bom. Tenho 68 anos e 54 de futebol. Quando você fala que vai ajudar os funcionários, acabou. Os caras vão lá e colaboram. Todos os meses compram cesta básica, quando tem treino de dois toques eles combinam que quem perder vai comprar cesta básica também. Os jogadores estão muito comprometidos com o Palmeiras. Eles querem conquistar alguma coisa. Foi fácil mostrar para eles que a proposta do Palmeiras, era boa inteligente e que valia a pena colaborar para recuperarmos depois. Os jogadores me respeitam muito, a conversa é franca. Nós somos privilegiados.

Como tem sido sua quarentena?

Esse negócio de querentena é uma b…Que trem doido! Mudou toda a rotina. Até saio de carro para fazer churrasco na casa da minha filha. Depois ela vem para minha casa e me visita. Quando precisa sair, vai uma pessoa só ao mercado, sai como um astronauta, compra as coisas e volta. Fazemos brincadeira em casa com as netas. No condomínio onde moro tem uma quadra e as minhas netas jogam tênis, já que tem o distanciamento. Mas é muito chato.

Vários atletas se manifestaram contra o racismo dias atrás. Você acha importante atletas e entidades se posicionarem?

Essa questão aflorou muito nos Estados Unidos. É uma discussão bem doida para se chegar ao consenso. O que houve lá foi brutal, foi uma covardia. Aqui no Brasil existem algumas situações. Mas eu vejo em algumas situações que se tratam como racismo o que é totalmente desnecessário se tratar como racismo. Isso o que aconteceu é racismo. Existiu uma ira, uma raiva. Da mesma forma como morreu, morre muito branco também de formas agressivas, de sacrificar. É complicada, muito complexa. Eu discuto muito no futebol, que é a minha área. Acho que os atos de racismo no futebol são provocados e eu achava que deveriam ser deixado de lado. Dão muito prestígio, muita moral à maneira como se trata o racismo no futebol. Nada mais é do que uma bobagem, ao meu ver. Aquilo, sim, que o cara fez (nos Estados Unidos) é racismo puro. Mas no futebol o cara brincar com o outro, gozar o outro para desestabilizar o camarada, dizer que aquilo ali é ato de racismo, não sei. Mas é uma discussão longa.

Há 20 anos você estava na seleção brasileira. Gostaria de voltar?

São temas que as respostas entram na discussão de todo mundo de forma desnecessária. Minha preocupação é hoje com o Palmeiras, fazer o Palmeiras vitorioso e ganhar. Sou um profissional preparado para o que acontecer no futebol. O meu foco é o Palmeiras.

Como será para um treinador lidar com um calendário apertado?

Será uma adaptação a uma novidade que não será para frente. Todos nós vamos sofrer e temos de minimizar o sofrimento dos jogadores. O maior sofrimento será ter pouco tempo com a família. Se você joga muitas vezes por semana e com viagem, você vai ter pouco tempo com a família. E vamos ter que arrumar um jeito disso. Isso tudo vamos criar para isso acontecer. Jogador tem de saber que pode ter mais troca de jogadores.

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Fonte: Terra

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