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‘Não quero ser objeto único e raro no mercado’, diz Rachel Maia

Ao longo de seus 50 anos, Rachel Maia ouviu de muita gente que ela tem uma vida extraordinária. Apesar do adjetivo ser usado com frequência na intenção de um elogio, a constatação trouxe um incômodo. Como ela mesma escreve em seu primeiro livro, Meu Caminho até a Cadeira Número 1 – lançado nesta segunda-feira, 8, pela Globo Livros -, no dicionário, extraordinário é algo que não é do costume geral, ou seja, raro. O que, definitivamente, não está nos seus planos.

Eu não quero ser esse objeto único e raro, em especial no universo corporativo. Tem tanta gente boa aí, até melhor do que eu. E está tudo bem, porque eles merecem o seu espaço. (Lançar o livro) é para que eu possa empoderar as pessoas e para que elas entendam que o lugar de fala precisa ser definido por elas, olhando outros exemplos”, conta.

Os quase 30 anos de carreira – com passagens por cargos executivos no varejo e no mercado de luxo, em empresas como Lacoste, Pandora e Tiffany & Co – deram a Rachel a percepção e a responsabilidade de que o seu legado está na diversidade, na inclusão e na geração de oportunidades.

“Por mais que as pessoas, às vezes, achem que não, eu prefiro ficar aqui no meu cantinho, eu gostaria disso. Mas como eu vou ajudar a transformação? Como eu vou ser colaboradora de forma genuína na transformação de algo que não é correto, que não está bom do jeito que está?”, questiona.

Para ajudar nessa transformação, Rachel ainda se divide entre a RM Consulting, consultoria de diversidade, inclusão e sustentabilidade que fundou em 2018, com a qual atende empresas como a XP Inc.; o Projeto Capacita-me, que promove educação, empregabilidade e equidade para pessoas em vulnerabilidade social; além de seus cargos em conselhos administrativos, como na Câmara de Comércio Dinamarquesa e no Grupo Soma (de moda), além de ser presidente do conselho consultivo da Unicef.

Oportunidade nós que geramos. Precisamos prestar atenção em como a gente faz isso ou em como fomentamos o mercado para gerar oportunidades”, pontua.

Como uma forma de ajudar lideranças do mercado, Rachel também dedica tempo como mentora, tendo ajudado nomes como Adriana Barbosa (Feira Preta), Patricia Santos (Empregue Afro) e Nina Silva (Movimento Black Money). E recebe mentoria de Luiza Trajano (Magazine Luiza) e Pedro Passos (Natura). “Abaixo de Deus, do meu pai e da minha mãezinha, que faleceu há alguns meses, esses são os meus mentores.”

Confira abaixo trechos da conversa com a executiva.

No livro, você diz ter percebido que não dá para falar da executiva sem falar da filha, da mãe e da mulher. Você também conta que muitos acontecimentos a lembram que você é mulher (quando seu leite vazou numa reunião) e ressalta a importância de não ‘ficar cinzinha’ (apagada, de terninho cinza, sem mostrar seu estilo). Por outro lado, a gente ouve que, para chegar na cadeira número 1, é preciso negar uma parte de ser mulher. Como você vê esse cenário no mundo corporativo?

Em nenhum aspecto você deve se negar, mas muitas vezes muitas mulheres se negam para que possam estar contidas em um universo que ainda é machista. Nós não podemos ignorar que nós dependemos de uma cultura machista. Nós estamos passando da rebentação, mas até isso acontecer, desculpe, o corporativismo ainda tem os seus códigos.

Eles estão sendo revistos agora, dada essa avalanche de diversidade e inclusão que temos visto. Mas não podemos ignorar que, para entrar no corporativismo, você precisa entender como. Não é como se a gente pudesse dizer que está tudo bem, faz do jeito que você quiser. Não é assim ainda. A gente está em um processo de transformação, mas esse caminho, se alguém falar que é curto, não está sendo verdadeiro e não passou ainda pela história. Ainda temos um longo caminho, mas ele está sendo trilhado.

Você fala bastante que preza pela dedicação do seu tempo e que, quando está com seus filhos, por exemplo, você dedica aquele tempo com qualidade, ainda que seja pequeno. Entre consultorias, conselhos, palestras e filhos, como está sua rotina hoje?

O meu dia (uma quarta-feira, 24 de fevereiro) começou às 6h30. Eu levantei, fiz as minhas orações, escovei os dentes, fiz uma automassagem no rosto para ficar com ele razoável. Acelerei os meus filhos, acordei os dois (Sarah Maria, de 9 anos, e Pedro Antônio, de 1 ano). Fiz a mamadeira para o bebê, arrumei o cabelo da Sarah e fiz um lanchinho. Às 7h40 eu já estava na rua e sabia que ia chegar atrasada para a minha primeira reunião, que começava às 8h. Mas disso (levar filhos à escola) eu faço questão, para mim é muito importante esse momento. Voltei fazendo a minha caminhada matinal, acelerando.

Cheguei em casa já eram 8h11 e comecei a primeira reunião com o meu time interno. Dei algumas diretrizes sobre contratos. Às 8h30 tive que desligar, porque às 9h eu tinha uma palestra com uma empresa, para levar o papo da liderança diversa e inclusiva. Foram quase duas horas de treinamento.

Às 11h, tomei um lanche e comecei a parte 2 do meu dia. De meio-dia às 14h, eu tive uma reunião da consultoria com a XP, onde eu faço a parte de liderança, inclusão e diversidade. Aí parei, almocei e fiquei refletindo sobre como tinha sido a minha manhã, enquanto fazia a matrícula da minha filha no curso de inglês e lia recados da escola. Depois, fui ver se conseguia pedir um horário estendido na escola do meu filho. Às 15h fiz uma nova reunião com o marketing sobre o lançamento do meu livro e vim para a nossa entrevista (às 15h30).

O que eu quero dizer, resumindo, é que nós definimos onde queremos estar. Mesmo sendo pouco, de manhã foi o meu momento com os meus filhos. Então, naquele momento eu fiz o meu melhor possível. Depois, eu fiquei um tempo com o meu negócio, que foi fantástico. Eu sei que a minha vida é muito dinâmica. Eu sei que eu tenho uma vida que tem necessidade de um agendamento. Mas é a minha escolha.

Dicas de Rachel

No livro, Rachel Maia lista dezenas de dicas – que vieram com as experiências e com a maturidade – para dar uma luz ao leitor. Selecionamos quatro delas:

  • Agregar pessoas: Ninguém se faz sozinho. Ninguém consegue vencer uma batalha sem seus aliados. O sucesso em uma posição de direção, de chefia ou de coordenação é bastante ligado a quem você escolhe para estar ao seu lado.
  • Chegar perto. Não basta ser um bom presidente e saber dos números, você deve ter inteligência emocional para perceber e sentir seu entorno.
  • Tudo bem ter dúvidas. Duvidar de si mesmo não é sinal de fraqueza nem é tão raro. Todo mundo passa ou já passou por isso na vida. E está tudo bem. Você só não pode deixar essa dúvida paralisar suas ações.
  • Cadeira não tem gênero nem cor. É preciso ter alma. Se você é uma mulher e está em uma posição acima de muitos homens, não tente agir como mais um deles. Saiba que você está lá por seus méritos e coloque em prática aquilo no que acredita.

A sua trajetória profissional tem sido direcionada para a diversidade e a inclusão. Nós temos visto que o interesse pelo tema, de forma geral, tem ficado maior nos últimos anos.

Graças a Deus! Não vou ficar tímida não, pelo contrário! Chega de falar de uma forma vergonhosa. Não precisa ter vergonha de falar sobre diversidade e inclusão. Esse lugar de fala por muito tempo nos foi tirado. Basta! Vamos falar sim do que é a negritude, o que é o preto, o que é o pardo. Vamos falar sim, porque nos foram preteridos lugares que nos eram de direito. Tem que falar!

Você consegue perceber quando essas questões começaram a ficar mais em evidência?

Os presidentes falavam de forma tímida e aí, depois, se falou que se não colocasse isso de forma verdadeira na empresa, iam perder o investimento. Quando falaram isso, se o negócio não era genuíno, ele teve que passar a ser.

O assunto ganhou mais força há uns três anos, pegou um impulso maior. Mas nos últimos dois anos tem sido mais demandado da alta liderança. Você precisa correr atrás de letramento para falar sobre diversidade e inclusão e entender por que a pluralidade não está contida na sua empresa. Entender também que o consumidor está atento. Se ele perceber que a sua empresa não está contida em um ecossistema que respeita a pluralidade, se prepare!

Nós temos três tipos de empresa: as que tomam o risco, a partir de um movimento de trazer para dentro de casa a diversidade, entendê-la e, ao mesmo tempo, transformar. Mais ou menos trocar a roda com o carro em movimento. Tem as que andam lateralmente, que querem continuar com o mesmo modus operandi, pode ser que sim, pode ser que não. E tem aquelas que olham e acham que é balela. Sobre essas, categoricamente, eu posso falar: têm tempo de vida pré-definido.

Você escreve no livro que decidiu contar sua história depois de ouvir de muita gente que você é extraordinária – o que, por definição, é algo raro – e não é isso que você quer para o mundo. Nesse sentido, qual o legado que você quer deixar?

Sabe, por mais que as pessoas às vezes achem que não, eu prefiro ficar aqui no meu cantinho, eu gostaria disso. Mas ficando no meu cantinho, como eu vou ajudar a transformação? Como eu vou ser colaboradora de forma genuína, por meio do meu indivíduo, na transformação de algo que não é correto, que não está bom do jeito que está? Então, não dá para ficar só no cantinho.

Até o meu acupunturista falou que eu precisava contar a minha história em um livro e eu falei: ‘Vixe, Maria! Eu já fiz a minha redação, não preciso de livro não’. Mas eu não quero ser esse objeto único e raro, em especial no universo corporativo. Tem tanta gente boa aí, até melhor do que eu. E está tudo bem, porque eles merecem o seu espaço.

(O livro) é para que eu possa empoderar as pessoas e para que elas entendam que o lugar de fala precisa ser definido por elas, olhando outros exemplos. Eu vejo esse livro como uma forma de falar ‘sim, você também pode’ ou ‘sim, você pode brilhar muito mais’ ou ‘sim, você pode quebrar a cara diversas vezes, como eu quebrei. Mas isso não pode definir você’.

Eu queria que isso ficasse enaltecido, porque cair você vai, mas levantar, sacudir e dar a volta por cima foi minha mãe que me ensinou. Ela, a Dona Pretinha, foi super resiliente. A vida fechava uma porta e ela ia lá e batia em outras duas.

Essa batalha é árdua, passar pela rebentação não é fácil, mas é a trajetória daqueles que decidiram ser exemplo. Eu não quero ser o exemplo, mas um exemplo de alguma coisa para a pessoa que quiser fazer a virada. Se eu puder ajudar um ou dois, já está valendo a pena.

Para ajudar as pessoas, é preciso oportunidade, fazer uma ponte entre essas pessoas e o mercado.

Posso falar uma coisa sobre oportunidade? Uma vez eu fui convidada a entregar um prêmio para uma jovem talentosa. Eu quis fazer um discurso e falei para a audiência: ‘Olha essa jovem que está recebendo o prêmio!’ e ela olhou para mim com um olhar muito grato. Aí eu pensei: ‘Nossa, vou colocar mais emoção então!’ e falei: ‘A gente tem que aprender a dar valor para as pessoas. Vocês todos aqui estão com a responsabilidade de dar valor!’. De repente, a menina murchou.

Eu parei de falar, entreguei o prêmio e ela veio falar que me admirava, que queria que a trajetória dela fosse parecida com a minha, mas que, como eu abracei a causa dela, ela gostaria de deixar claro que não precisava que ninguém desse valor para ela. Isso tudo no microfone. Ela disse: ‘O meu valor eu tenho. Eu sei porque eu estou aqui, mas eu preciso que vocês me deem oportunidade’. Aquela menina marcou a minha vida. Oportunidade nós que geramos. Precisamos prestar atenção em como a gente faz isso ou em como fomentamos o mercado a gerar oportunidades.

Hoje, na palestra que dei de manhã, eu provoquei uma pessoa e ficou marcado em mim. Eu falei com ela que, se ela era tão genuína na questão da pluralidade e queria tanto ver isso acontecer, então, quando ela entrar numa loja como consumidora, gostando daquela marca, para ela ver se aquela diversidade não está só na propaganda. Se entrar e ver que não tem um vendedor negro, uma pessoa com deficiência, alguém que represente a pluralidade, não cabe você perguntar sobre isso ou dar meia volta e entender que aquele lugar não te pertence ou não gera a credibilidade daquilo que você está galgando? Perguntar para o gerente é uma forma de gerar oportunidade.

Uma das suas formas de gerar oportunidade é pelo projeto Capacita-me. Qual é a maior dificuldade que vocês encontram hoje para gerar oportunidades?

O Capacita-me é um projeto que veio inspirado pela educação e pela empregabilidade. Tenho uma irmã que me ajuda muito nesse projeto, que é a Márcia, pedagoga. Quando eu decidi olhar para o projeto, pensei que a gente precisa fomentar a educação de uma forma que ela esteja conectada com a empregabilidade.

Na pandemia, o negócio deu uma apertada, porque as pessoas não sabiam como lidar com ela. Quando você vai onde a gente vai, depois de Parelheiros, em Engenheiro Marsilac, que é ainda em São Paulo, mas onde a internet pega mal e porcamente, você olha e pensa ‘Como eu faço para essa pessoa gerar valor agregado no seu entorno?’.

Eu vejo que precisamos, de forma gritante, de mais empresas trabalhando a empregabilidade com olhar de equidade. Para agora, não é só educação e empregabilidade, tem a equidade também. E a equidade ainda é um letramento que o universo corporativo precisa aprender, porque não é só lidar com o gestor, o investidor precisa entender que um investimento em equidade significa, em um primeiro momento, modus operandi diferentes de você contratar. Mas que, depois de um certo tempo, gera-se um conteúdo que não tem preço.

É uma transição e esse momento transitório demanda certo investimento. É um desafio que não é só meu, é de várias associações que trabalham com as periferias e trazem talentos que, muitas vezes, estão em pedra bruta e precisam ser lapidados. E como você faz isso? Precisa-se de tempo nas empresas.

MEU CAMINHO ATÉ A CADEIRA NÚMERO 1

Autora: Rachel Maia

Editora: Globo Livros (248 págs.)

Impresso: R$ 49,90 (e-book: R$ 32,90)

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Fonte: Terra

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