NBA, Apple e Google estão se dobrando à China?

(Shutterstock)

NOVA YORK – O tweet era aparentemente inócuo, mais um entre centenas de milhares em defesa dos manifestantes de Hong Kong, mas acabou gerando uma reação em cadeia que abriu um novo capítulo na tensão entre americanos e chineses. Daryl Morey, executivo do Houston Rockets, um time da NBA, postou na semana passada uma imagem com a seguinte frase:

“Lute pela liberdade. Apoie Hong Kong.”

A mensagem foi logo deletada por Morey. “Não quis ofender os torcedores dos Rockets e os meus amigos na China. Estava meramente expressando um pensamento, baseado em uma interpretação de um evento complicado. Desde aquele tweet, tive muitas oportunidades de ouvir e considerar outras perspectivas”, escreveu o executivo dois dias depois.

Traduzindo: a China é um mercado internacional prioritário e bilionário para a liga profissional de basquete dos Estados Unidos. As autoridades do país são notoriamente sensíveis a qualquer manifestação externa sobre sua política doméstica.

Além disso, a maioria da população chinesa considera os manifestantes pró-democracia de Hong Kong um bando de agitadores violentos. Para continuar ganhando dinheiro com o mercado chinês, melhor não meter a colher nessa briga.

A grita foi imediata. Enquanto a NFL, a liga de futebol americano, se contorce há mais de dois anos para lidar com os protestos dos jogadores contra o racismo e a violência policial, a NBA se orgulha por incentivar a livre expressão e a tomada de posição em questões sociais.

Estariam os donos de um dos produtos de exportação mais visíveis dos Estados Unidos se autocensurando para agradar os chineses? O preço de conquistar os consumidores chineses seria abaixar a cabeça para o governo autoritário de Pequim?

Depois de a TV estatal chinesa anunciar que não transmitiria mais dois jogos da pré-temporada – envolvendo nada menos que o melhor jogador do mundo, LeBron James, do Los Angeles Lakers –, Adam Silver, presidente da NBA, disse que jogadores e executivos podem se manifestar livremente sobre questões políticas. “Vamos proteger o direito de livre expressão dos nossos funcionários”, afirmou Silver.

Mas o gênio já tinha saído da garrafa. O quiproquó da NBA serviu para chamar atenção para uma realidade que muitas empresas americanas gostariam de deixar na surdina: apaziguar as autoridades da China às vezes é uma condição necessária para fazer dinheiro com o 1,4 bilhão de consumidores chineses.

A Apple retirou da App Store um aplicativo chamado HKmap.live, usado pelos manifestantes para acompanhar os deslocamentos da polícia (quem tem o app instalado no celular pode continuar a usá-lo). Num memorando interno que vazou para a imprensa, Tim Cook, CEO da Apple, recorreu a malabarismos verbais para justificar a decisão.

“Não é segredo que a tecnologia pode ser usada para o bem ou para o mal. Este caso não é diferente. O app em questão permitia o crowdsourcing de blitzes policiais, pontos de protestos e outras informações. Em si, essas informações são benignas. Mas nos últimos dias recebemos informações (…) de que o app estava sendo usado para alvejar policiais individualmente.”

O problema é que o app não é usado para determinar a localização de policiais individuais, como apontou o blogueiro Maciej Ceglowski, que está em Hong Kong. “O que ele mostra é a concentração geral da polícia, e ainda assim com atraso”.

Numa carta aberta a Cook, o deputado honconguês Charles Mok acrescentou que o app se baseia em informações publicadas em redes sociais como Facebook e aplicativos de mensagens como o WhatsApp e que boa parte dos usuários o utiliza justamente para evitar, não provocar, confrontos violentos.

Até mesmo o influente blogueiro John Gruber, que cobre a Apple assiduamente e é conhecido por fazer uma defesa apaixonada da empresa, afirmou que não se lembra de uma declaração da companhia “que se desfaça tão rapidamente diante de um exame minucioso”. “Para uma empresa que costuma medir tudo infinitamente antes de fazer cortes, é algo chocante e triste.”

A lista não para por aí. O Google tirou de sua loja de aplicativos um game em que os jogadores assumem o papel de um manifestante de Hong Kong (mas o HKmap.live continua disponível na Google Play). A produtora de games Activision Blizzard suspendeu Chung Ng Wai, jogador profissional do game Hearthstone, e teria anulado um prêmio de US$ 10 000 porque ele defendeu os manifestantes de Hong Kong numa partida transmitida ao vivo.

O canal esportivo ESPN, que pertence à Disney, cobriu o imbróglio da NBA sem fazer menção ao ponto central: a política. Um comunicado interno de Chuck Salituro, diretor-sênior de notícias da ESPN, orientou os apresentadores e repórteres da emissora a se concentrar nas “questões relativas ao basquete”.

Mesmo em meio ao frenesi da investigação do impeachment de Donald Trump, republicanos e democratas encontraram um tempinho para se manifestar sobre a submissão das empresas americanas ao governo chinês.

“A China está usando seu poder econômico para silenciar os críticos – até mesmo os que estão nos Estados Unidos”, escreveu no Twitter o senador democrata e pré-candidato à Presidência Julián Castro. O republicano John Cornyn retuitou o post de Castro e acrescentou: “Julián, estou feliz de concordar com você nessa”.

Depois de uma semana de pesadas críticas na imprensa chinesa, a situação parecia estar se acalmando. A primeira partida da pré-temporada em Xangai transcorreu sem incidentes, e outra estava marcada para Shenzen no sábado, dia 11. Os jogadores ficaram em silêncio sobre o assunto, por orientação da NBA.

Mas o Houston Rockets certamente vai pagar a conta. O time é – ou era – o segundo mais popular do país, depois do Golden State Warriors, dos craques Steph Curry e Kevin Durant. A ligação dos Rockets com a China tem quase 20 anos.

Em 2002, a equipe contratou Yao Ming, o maior jogador de basquete da história da China – em todos os sentidos, ele tem 2,29 metros – e ajudou a impulsionar a expansão da liga americana entre os chineses. Agora, um mero tweet pode ter colocado tudo a perder.

 

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Fonte: INFOMONEY

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