Neymar se prejudica ao ser escravo de suas próprias paixões – Esportes




Ir a um jogo do PSG, em Paris, é um programa especial. Desci com meus filhos e minha esposa na estação Porte de Saint-Cloud. Na amplitude da Route de la Reine, história, modernidade e futebol se misturavam. As luzes de Paris podiam ser percebidas na atmosfera e no céu que começava a escurecer.


Em meio ao barulho da autopista, canteiros ajardinados e uma confeitaria na praça, a  arquitetura mesclava o art nouveau e o art decó. À direita, o estádio Parc des Princes emergia como um monumento moderno, claro, recheado de vermelho, branco e azul, as cores básicas do clube.


Quase grudada ao estádio, uma ampla loja do clube, com ofertas de camisas, produtos licenciados, chuteiras, mostrando um lado do marketing avançado incrustrado naquela centenária construção.


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Faltavam algumas horas para o jogo contra o Dijon. Andamos pela movimentada Route de la Reine e, entre as lojas e cafés, escolhemos um restaurante a alguns quarteirões, onde já sentavam um ou outro torcedor silencioso. No aconchegante local, atapetado e ao estilo de bistrô, dava para ver pelo vidro o movimento contínuo da cidade.


A chegada ao estádio prosseguiu em ritmo de contemplação.


Passamos pela arborizada Rue de Commandant Guilbaud (piloto celebrado por atravessar a África em 1926/27), com prédios residenciais e percebemos que o estádio é um respeitoso vizinho que não tira o ar residencial do bairro.


Entramos pela Rue Claude Farrère, que foi um famoso escritor de novelas e, já por aí, podemos ver que, como o futebol carrega a cultura de um país, na França ele está atrelado à literatura. O Parc des Princes tem sido um cenário perfeito e Neymar, um protagonista dos melhores para tal enredo.


Em diagonal ao gramado, acompanhamos com entusiasmo toda a movimentação pré-jogo. É um espetáculo à parte ver o aquecimento, a chamada empolgada do locutor, citando cada nome, para aplauso da torcida, bem ao estilo NBA. Mas havia ainda uma beleza maior no contraste entre o gramado verde, as luzes e a noite.


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Aquele jogo foi um dos primeiros capítulos desta novela que se tornou a passagem de Neymar pelo PSG. Ele fez quatro gols na vitória por 8 a 0, mas foi vaiado por não ter deixado Cavani bater um pênalti. Estávamos lá e sentimos, estupefatos, como a França é rígida e contraditória com seus ídolos e como eles exigem do astro outros valores.







Capítulos recentes


Dois anos se passaram.


E os capítulos mais recentes foram em fevereiro deste ano, desde a comemoração de aniversário de Neymar, até a reclamação por não ter jogado antes da partida contra o Dortmund, pelas oitavas da Champions. 


Dizia-se apto a voltar antes, considerando-se recuperado de contusão, contrariando a cautela dos médicos. E culminou no último fim de semana, após a divulgação de imagens de uma outra festa, com a expulsão dele do jogo contra o Bordeaux, o que acarretará, no mínimo, em suspensão de um jogo.







Justamente no dia anterior, ele decidiu não ir ao Carnaval no Brasil para ficar concentrado e ganhar ritmo para o jogo de volta contra o Dortmund, no dia 11.


Mas, mais uma vez, como num romance francês, não controlou suas paixões e foi descontar em Adli uma falta que havia sofrido de Sabaly, recebendo o segundo amarelo nos acréscimos do jogo.


A maioria dos episódios ocorreu naquele mesmo local. O Parc des Princes. Onde o campo iluminado se tornou o palco desta novela. Bem ao estilo de Claude Farrère.


Ou de Balzac, ou de Proust , que também descrevia a Paris bucólica de carruagens e residências estilosas. E tocava com sensibilidade na vaidade humana, na presunção e nas intrigas mesquinhas.


Na era do marketing, Neymar foi chamado para agigantar o PSG.


Em grande parte, conseguiu. Mas todo o enredo que cerca sua passagem, o fato de os jogadores hoje serem celebridades, a vaidade, a frivolidade, as festas, bem poderiam ser tema de uma bela obra literária no futuro, com uma temática semelhante à do proustiano “Em busca do tempo perdido.”


Hoje, no entanto, prevalecem as tensões momentâneas sobre as reflexões atemporais ou eventuais arrependimentos. E, resumindo-se à literatura já existente, a novela poderia se chamar “As ilusões perdidas”, sobre a tentativa humana de controlar o incontrolável da vida. 


Mas, se o PSG for campeão da Champions, a história mudará de figura.


As divergências serão superadas pela comemoração. E a frase do título do livro de Hemingway, que hoje tanto traria discórdia entre dirigentes, torcedores e jogadores, passará a ser compartilhada com gosto pelas três partes. Paris, afinal, será uma festa.


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Fonte: R7

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