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O Clubhouse é uma boa opção de rede social ou já perdeu a graça?

Tenho passado muito tempo no Clubhouse, e os paralelos com os primeiros dias de hipercrescimento de redes sociais de gerações anteriores são estranhos. A popularidade do aplicativo de 11 meses — tem mais de 10 milhões de usuários e os convites estão sendo vendidos por até US$ 125 no eBay — desencadeou uma corrida louca entre os investidores, que avaliaram a empresa em US$ 1 bilhão. Celebridades como Elon Musk, Oprah Winfrey e Joe Rogan apareceram nas salas do Clubhouse, aumentando o burburinho. E o aplicativo está gerando concorrência com o Twitter e o Facebook, que estão experimentando produtos semelhantes.

Cada rede social de sucesso tem um ciclo de vida mais ou menos assim: Uau, esse aplicativo é viciante! Veja todas essas maneiras divertidas e empolgantes como as pessoas o estão usando! Oh, olhe, eu posso ver notícias e comentários políticos aqui também! Isso vai empoderar dissidentes, promover a liberdade de expressão e derrubar regimes autoritários! Hum, por que trolls e racistas estão conseguindo milhões de seguidores? E de onde vieram todas essas teorias da conspiração? Esta plataforma deve realmente contratar alguns moderadores e corrigir seus algoritmos. Uau, este lugar é uma fossa. Estou excluindo minha conta.

O que é notável sobre o Clubhouse é que ele parece estar experimentando todo esse ciclo de uma só vez, durante seu primeiro ano de existência.

Comecei a usar o Clubhouse no outono. Na época, o aplicativo parecia ser dominado pelos típicos primeiros usuários — funcionários da tecnologia, capitalistas de risco, gurus do marketing digital — junto com um contingente considerável de influenciadores negros e uma série de figuras “heterodoxas” da internet que usavam principalmente a plataforma para reclamar da grande mídia e fazer discursos tediosos a respeito da cultura do cancelamento.

Desde o início, havia sinais de que o Clubhouse estava acelerando o ciclo de vida da plataforma. Semanas após o lançamento, começou-se a alegar que o site estava permitindo a proliferação de assédio e discurso de ódio, incluindo grandes salas onde os palestrantes supostamente fizeram comentários antissemitas. A startup se esforçou para atualizar as diretrizes da comunidade e adicionar recursos básicos de bloqueio e relatório de abusos, e seus fundadores seguiram aquele roteiro de desculpas zuckerberguiano. (“Condenamos categoricamente o racismo, o antissemitismo e todas as outras formas de preconceito, discurso de ódio e abuso no Clubhouse”, dizia uma postagem no blog da empresa em outubro.)

A empresa também enfrentou acusações de má gestão de dados dos usuários, incluindo um relatório da Universidade Stanford que concluiu que a empresa pode ter enviado alguns dados por meio de servidores na China, possivelmente dando ao governo chinês acesso a informações confidenciais dos usuários. (A empresa se comprometeu a bloquear os dados do usuário e se submeter a uma auditoria externa de suas práticas de segurança.) E os defensores da privacidade se recusaram a adotar práticas agressivas de crescimento do aplicativo, que incluem pedir aos usuários que carreguem suas listas de contato inteiras para enviar convites a outras pessoas.

“Grandes preocupações a respeito de privacidade e segurança, muita extração de dados, uso de interface duvidosa, crescimento sem um modelo de negócios claro. Quando vamos aprender?”, Elizabeth Renieris, diretora do Laboratório de Ética Técnica Notre Dame-IBM, escreveu em um tuíte ao comparar o Clubhouse neste momento aos primeiros dias do Facebook.

Para ser justo, existem algumas diferenças estruturais importantes entre o Clubhouse e as redes sociais existentes. Ao contrário do Facebook e do Twitter, que giram em torno de feeds centrais e com curadoria de algoritmos, o Clubhouse é organizado mais como o Reddit — um conjunto de salas por tópico, moderadas por usuários, com um “corredor” central onde os usuários podem navegar pelas salas de conversas que estão acontecendo.

As salas do Clubhouse desaparecem quando terminam, e gravar uma sala é contra as regras (embora ainda aconteça), o que significa que “se tornar viral” no sentido tradicional não é realmente possível. Os usuários precisam ser convidados para o “palco” de uma sala para falar e os moderadores podem facilmente dispensar aqueles que se mostram indisciplinados ou inconvenientes, então há menos risco de uma discussão civilizada ser invadida por trolls. E o Clubhouse não tem anúncios, o que reduz o risco de fraude para fins lucrativos.

Mas ainda existem muitas semelhanças. Como outras redes sociais, o Clubhouse tem uma série de recursos de “descoberta” e táticas agressivas de growth hacking destinadas a atrair novos usuários para o aplicativo, incluindo recomendações algorítmicas, alertas de push personalizados e uma lista de usuários sugeridos para se seguir. Esses recursos, combinados com a capacidade do Clubhouse de formar salas privadas e semiprivadas com milhares de pessoas nelas, criam alguns dos mesmos incentivos e oportunidades de abuso que têm prejudicado outras plataformas.

A reputação do aplicativo de moderação fraca também atraiu várias pessoas que têm sido barradas por outras redes sociais, incluindo figuras associadas ao QAnon, Stop the Steal e outros grupos extremistas.

Mas antes de ser rotulado como um hater do Clubhouse, deixe-me dar uma nota de otimismo. Na verdade, gosto do Clubhouse e acho que sua principal inovação tecnológica — uma maneira fácil de criar experiências de áudio participativas ao vivo — é genuinamente útil. A maioria das salas em que estive é civilizada e bem moderada, e se você pular as salas megapopulares cheias de celebridades e desesperados pela fama, poderá encontrar coisas verdadeiramente fascinantes.

Nas últimas semanas, ouvi uma sala do Clubhouse de médicos e enfermeiras negros falando sobre suas experiências de racismo na medicina, e uma sala onde um psicólogo famoso conduziu um workshop a respeito de luto e tristeza. Espiei concursos de karaokê coreanos, ouvi especialistas em energia debatendo a energia nuclear e organizei conversas civilizadas sobre os meios de comunicação. Outra noite, depois de experimentar algumas dezenas de salas do Clubhouse, adormeci ao som do clube de canções de ninar, uma reunião noturna de músicos que cantam canções para ajudar uns aos outros a adormecerem.

A capacidade de entrar e sair espontaneamente de salas como essas e alternar entre ouvir passivamente e falar é parte do que torna o Clubhouse tão atraente — e tão diferente de ouvir podcasts ou participar de um webinar do Zoom. Também há uma aleatoriedade refrescante no Clubhouse que o torna mais interessante do que as redes sociais onde cada conteúdo é algoritmicamente adaptado aos seus interesses. (Como Nicholas Quah escreveu na Vulture: “Há algo que parece fascinantemente novo em ser capaz de participar de várias comunidades efêmeras que você não procurou intencionalmente”.)

Dado o contexto de uma pandemia que prende as pessoas dentro de suas casas e as deixa sem conexão social, este é um ambiente ideal para a introdução de um novo aplicativo de mídia social, porém o Clubhouse pode perder alguns usuários uma vez que eles sejam vacinados e voltem para a socialização da vida real.

Mas espero que o Clubhouse sobreviva, pelo menos porque ele poderia criar uma alternativa mais cuidadosa e menos impulsionada pela indignação para as redes sociais das quais estivemos participando na última década e meia.

Se a plataforma puder consertar seus problemas e aprender com os erros cometidos por empresas maiores antes dela, posso ficar ainda mais tempo no meu celular./ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Fonte: Terra

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