O dia infeliz em que Jorge Jesus incorporou o Mister Soberba – Esportes

Traído pelo efeito colateral da vaidade, JJ atropela elegância ao dizer que o patamar do Flu é Estadual. Troco rival costuma vir em dobro na má fase

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Negar a qualidade e a importância do trabalho do treinador do Flamengo, o português Jorge Jesus, no futebol brasileiro atual é ciúme, miopia, falta de capacidade de processar o que se vê ou tudo isso junto e misturado.


Elogio refeito, cabe também constatar: de tempos para cá, à medida que o sucesso amplificava o coro dos contentes na imprensa, e o dos rubro-negros no embalo do olê, olê, olê, olê, Mister, Mister nas arquibancadas, JJ passou a se entregar, de forma mais intensa a cada declaração, aos efeitos traiçoeiros e deselegantes do primadonismo periférico.


Situações em que a vaidade subiu à cabeça do Mister de forma enviesada, virou subproduto e deixou a razão ao nível de seus pés. Em dialeto de torcedor: marra demais, perna em excesso.


Nas férias, em Portugal, Jesus ensaiou a construção de um método para orientar executivos do Flamengo na tarefa de vender craques a preços semelhantes aos cobrados pelos clubes de ponta de seu país. No falatório com ares de oráculo, ignorou que a força do euro e o fato de estar no mercado europeu são, precisamente, os dois principais motivadores das diferenças de cotação.


No final da noite desta quarta-feira (12), na entrevista coletiva após a vitória apertada sobre o Fluminense, por 3 a 2, que garantiu o rubro-negro na final da Taça Guanabara, primeiro turno do Estadual do Rio, JJ não segurou a onda e quebrou o pote.


Questionado por um repórter sobre a dificuldade de testar reservas e novos contratados com a quantidade limitada de substituições no Estadual, Mister girou o par de olhos e saiu-se com essa: “Estamos a fazer, neste campeonato, nossos primeiros jogos. Se são nossos primeiros jogos, é considerado pré-temporada. Em uma competição que para o nosso adversário era importante chegar à final, poder ganhar um título, de Carioca… Só que a gente está em outro patamar, como diz o outro. Nossos títulos são outros”.


O outro, se algum amante do futebol ainda não sabe, é o atacante rubro-negro Bruno Henrique. A expressão usada pelo jogador no final de 2019 virou meme.


Para quem é chamado de Mister – e gosta -, JJ usou de soberba e deselegância atlânticas com o Flu, seus torcedores e colega de trabalho naquela jornada, o técnico tricolor, Odair Hellmann. Enquanto Jesus esfolava o bom senso com o ar blasé dos incompreendidos, Hellmann, na entrevista ao lado, limitava-se a comentar aspectos do jogo e a lamentar que o “empate merecido pelo Fluminense na segunda etapa” não tenha vindo.


O Flamengo tem mais recursos e, ao menos em relação ao futebol (Garotos do Ninho à parte), gestão mais equilibrada e produtiva que a dos rivais? Perfeito. JJ tem parcela fundamental de responsabilidade pela temporada brilhante do rubro-negro em 2019? Não há dúvida sobre isso.


Por esses fatores, e também pelo imenso poder consumidor de sua torcida, o clube da Gávea está em outro patamar neste momento, não só em relação ao Fluminense mas, provavelmente, em comparação com os demais?


É até razoável responder sim a essa pergunta – só que JJ, a bem do respeito aos colegas profissionais e aos outros clubes, deveria se poupar de estabelecer publicamente a divisão que fez, limitando instituições gigantes como o Fluminense à gaveta do Carioca e definindo a sua como a de “outros títulos”.


Feio. JJ, tão defendido do cooperativismo dos treinadores brasileiros ao chegar para treinar o Flamengo, não poderia ter dito o que disse por bom senso coletivo e nem deveria por inteligência e cuidado individuais. Pode-se esperar tal atitude de torcedores e mesmo de atletas. De treinadores profissionais, não.


Até onde prova a história, derrotas e fases ruins chegam para todos. E se quem bate esquece, quem apanha jamais deixa de lembrar. Diplomacia e contenção, nos momentos em que a embriaguez do ego cria o risco do vexame, certamente fariam bem a JJ nos possíveis planos futuros de ataque dos adversários quando os revezes inevitáveis baterem à porta.


Menos, Mister. Nesta e em futuras situações semelhantes, bem menos.


Patamares não são eternos no futebol, sabemos disso.


E, depois, se há algo a ensinar ou a aprender, o único país pentacampeão do mundo, com o único técnico tetracampeão do mundo (Zagallo), o que mais forneceu craques internacionais e presenteou o mundo com um certo Edson Arantes do Nascimento, com respeitosos pedidos de desculpa, exatamente Portugal.

Fonte: R7

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