O que significa o fracasso da Liga Mundial?

ARTIGO OPINATIVO – Na última quarta-feira o World Rugby confirmou o fracasso do projeto da Liga Mundial (Nations Championship). O projeto era controverso. De um lado, havia nada menos que 30 bilhões de reais na mesa para um contrato de comercialização de 12 anos da competição, que criariam um impacto nos investimentos do World Rugby no desenvolvimento do rugby pelo mundo – teoricamente. Do outro, havia o receio do efeito potencialmente nocivo de mudanças bruscas em duas competições centrais para o rugby: Six Nations e Copa do Mundo. Vamos entender.

A proposta do World Rugby previa a criação de uma primeira divisão mundial com 12 seleções (6 da Europa e 6 do resto do mundo), que jogariam todos os anos entre si, em um total de 11 jogos, dos quais 5 seriam as rodadas de Six Nations ou do remodelado Rugby Championship (dependendo do país) e os outros 6 jogos substituiriam as atuais datas de amistosos internacionais (3 em julho, 3 em novembro). Ao final da fase de pontos corridos, haveria a final entre os 2 melhores times, em um megaevento em sede neutra, enquanto o último colocado europeu e o último colocado do resto do mundo jogariam uma repescagem contra o rebaixamento contra os campeões dessas zonas da segunda divisão. Ao todo, a Liga Mundial contaria com 1ª, 2ª e 3ª divisões, envolvendo mais de meia centena de países.

O sistema de rebaixamento e promoção foi apontado como o principal ponto de discórdia entre World Rugby e Six Nations, levando ao fracasso do projeto. Nos bastidores, Irlanda, Escócia e Itália foram apontados como os mais resistentes, em contraste com a França, apoiadora do projeto, e Inglaterra e Gales, que resistiram no começo, mas se colocaram abertas à proposta no fim. Por trás desse jogo político dentro da Europa, estava o fato mais gritante: a Liga Mundial seria mais importante para as nações do Hemisfério Sul (Nova Zelândia, Austrália, África do Sul e Argentina) do que para os europeus, uma vez que o Six Nations é mais lucrativo que o Rugby Championship.

Por outro lado, a resistência de muitos fãs de rugby e de jornalistas era de que uma Liga Mundial anual poderia enfraquecer o valor (inclusive comercial) da Copa do Mundo, que hoje fornece mais de 90% das receitas do World Rugby – que utiliza tais verbas para financiar viagens dos países do segundo escalão mundial, bem como rugby sevens, juvenil e feminino.

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É evidente que tal receio não levava em conta o fato de o rugby poder captar mais fãs com uma liga desse tamanho e qualidade – o que refletiria em um mercado consumidor maior para a Copa do Mundo, a médio prazo – e que a própria Liga Mundial geraria receitas preciosas para o desenvolvimento. Basta dizer que um dos projetos do World Rugby era, por exemplo, financiar uma Liga Mundial de XV feminino, além de estruturar melhor as competições das seleções menores do rugby masculino. Os tempos de zona absoluta e amadorismo embaraçoso vistos, por exemplo, no Rugby Europe Championship recentemente poderiam ficar para trás.

A esperança do World Rugby era de transformar em um produto comercialmente interessante a 2ª divisão. Hoje, quando vemos jogos entre seleções do segundo escalão, percebemos o abismo entre essas competições menores (não falo dos jogos em si, mas sim do projeto comercial delas) e o Six Nations. O sistema de promoção e rebaixamento seria essencial para adicionar interesse – e, portanto, valor – aos jogos das seleções das divisões menores. Hoje, campeonatos como Americas Rugby Championship ou Rugby Europe Championship não conduzem suas seleções a palcos maiores – exceto nos anos que valem como Eliminatórias para a Copa do Mundo. O valor potencial desses torneios acaba limitado.

Da mesma maneira, os amistosos internacionais estão perdendo valor. Num mundo esportivo – e do entretenimento em geral – cada vez mais disputado – e com uma competição cada vez maior por receitas entre as televisões e serviços de transmissão online – fica evidente que as competições precisam gerar interesse maior dos espectadores. Não é acaso que a UEFA tenha criado a Nations League para o futebol europeu, substituindo os amistosos enfadonhos da bola redonda. Também não é acaso que esportes menores como o vôlei e o hóquei sobre a grama criaram ligas mundiais com uma abordagem mais profissional do que os torneios que tinham antes. Caminho semelhante ainda seguido pelo críquete, que também terá uma liga mundial nos próximos anos.

Entretanto, a proposta da Liga Mundial do World Rugby não era totalmente revolucionária. Com apenas 2 países do chamado segundo escalão mundial (tier 2) ganhando um lugar no início entre as potências do Six Nations e Rugby Championship, os países que ficassem na 2ª divisão mundial perderiam jogos contra as potências. Por exemplo, pela proposta, Japão e Fiji ganhariam 11 jogos contra potências (10, excluindo o duelo entre eles) todo ano, mas Samoa, Tonga, Geórgia ou EUA, que vem conseguindo ao menos um jogo anual contra alguém do primeiro escalão (tier 1), perderiam tal partida até conseguirem promoção.

O projeto ainda não havia sido publicamente discutido a fundo. A receita imensa que entrasse na Liga Mundial poderia revolucionar o rugby do tier 2 a médio prazo – caso a 2ª divisão se tornasse algo de visibilidade e caso houvesse um repasse generoso (estratégico, inteligente) de verbas para os países menores. Mas poderíamos ter a situação inversa: um aumento da desigualdade, caso as mesmas nações do tier 1 detivessem um percentual elevado das receitas. A resposta não conheceremos.

Da mesma maneira que não sabemos se realmente a Liga Mundial tiraria importância da Copa do Mundo, prejudicando a atração de apoiadores para países que tivessem como meta apenas a Copa do Mundo, por estarem muito distantes da 1ª divisão da Liga Mundial. Tudo dependeria de como a Liga operaria. E o fato do Conselho do World Rugby ser majoritariamente controlado pelas 10 nações do Six Nations e SANZAAR (The Rugby Championship) colocava dúvidas sobre a política a ser aplicada para os novos recursos que aportariam no rugby.

Mais que isso, as federações do tier 1, em sua maioria, estão operando no déficit. Parte disso é o fato de terem sistematicamente falhado nas últimas décadas em tornarem o rugby um esporte realmente global (esqueça qualquer papo furado sobre o rugby ser o segundo esporte do mundo, não é e nunca foi, isso é apenas marketing). O rugby tem uma Copa do Mundo valiosa. O Mundial disputado de 4 em 4 anos figura entre os eventos esportivos mais valiosos do mundo, mas não o esporte em si no restante do tempo. As ligas do rugby não são ricas como as de outros esportes e as federações também não são.

O fato de algumas das federações – que precisam aumentar receitas – terem rejeitado a liga mostra como funciona seu cálculo. Não importa que haveria mais dinheiro circulando na bola oval global e mais mercados emergentes sendo abertos. O risco de alguns dos países do tier 1 atual ficarem de fora da nova festa em algum momento foi determinante para suas decisões. Para eles, melhor um rugby mais pobre, mas com seus países mantendo seus privilégios, do que um rugby maior e mais rico globalmente, mas talvez com menos participação deles. Mais que isso: mesmo que as receitas de todos os tier 1 atuais aumentasse, a possibilidade de perderem o controle (o poder) sobre o esporte a média prazo (pois novos países crescendo significaria pressão por mais participação nas decisões dentro do World Rugby) já foi o bastante para rejeitarem a proposta.

Em outras palavras, há forças no tier 1 que preferiram um cartel seguro do que um mercado de concorrência livre e aquecido por algum nível de redistribuição de riqueza. Um projeto imprevisível, que, como eu já disse, poderia tanto ser positivo para o mundo do rugby todo, com mais receitas para todo mundo, como também poderia aumentar desigualdades. O que definiria o destino seria o projeto de médio e longo prazo que seria aberto com as novas receitas – e ditado pelas disputas internas dentro do World Rugby. Na dúvida, optou-se pelo caminho mais conservador.

Tal situação não surpreende de forma alguma e mostra como, apesar de várias ações positivas, o World Rugby não tem a fórmula de como mudar o rugby. Nunca teve. Basta dizer que desde que o rugby é profissional (desde 1995), apenas um país subiu efetivamente de uma condição periférica e mal desenvolvida para se tornar um país tier 1. Esse país é a Itália, tão criticada. Argentina ou mesmo o Japão nunca foram tier 2. Basta ver que tais países têm desde tempos amadores uma estrutura de clubes compatível com os países da elite mundial. A revolução que ocorreu na Argentina e no Japão foi no nível das seleções e do profissionalismo, não na difusão do rugby dentro dessas sociedades. O rugby já era grande em tempo amadores.

Agora, o World Rugby promete mais amistosos entre equipes do primeiro e do segundo escalões, numa crença impotente de que eles mantenham as esperanças de mudanças. E abertamente fala na expansão da Copa do Mundo de 2027 para 24 times – que já devia ter ocorrido para 2023. Mas, o que ficou da Liga Mundial são as seguintes constatações:

  • Quem manda no rugby não é um World Rugby independente, mas apenas os 10 países “notáveis”, uma “nobreza” de nações com interesses distintos entre si, mas igualmente comprometidas com a manutenção de seu status;
  • Mesmo que a Liga Mundial saísse do papel com mais espaço para outros países, são esses 10 que controlam o World Rugby, por terem mais votos no Conselho do que todos os demais países juntos;
  • Dentro do tier 1 não há consenso sobre um projeto de expansão do rugby pelo mundo, mas paradoxalmente, há urgência de todos em se aumentarem as receitas, mesmo que sem aumentar o esporte globalmente;

É lógico que é injusto generalizar o tier 1, pois claramente houve países do tier 1 que estavam apoiando – e seguem apoiando – mudanças. A SANZAAR (isto é, Argentina, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia) apoiou a Liga e lamentou publicamos o fracasso do projeto, porém o fez no mesmo ano que decidiram pela exclusão dos Sunwolves japoneses do Super Rugby…

O que aparece no horizonte é o Hemisfério Sul perdendo atletas para a Europa a passos largos, com a SANZAAR incapaz de mudar o destino do Super Rugby; e o Hemisfério Norte focado em acomodar interesses de clubes e seleções, mas com a balança pendendo a favor dos clubes ingleses e franceses, donos dos atletas e cada vez mais abertos a entrada de capital privado – que não está interessado no futuro do rugby de seleções, muito menos no futuro a longo prazo da modalidade. Se ela entrar em declínio, basta trocar o investimento de esporte.

Entretanto, a saúde financeira das federações é essencial para a manutenção de um rugby amador saudável, hoje pressionado cada vez mais por receitas: de um lado, perda de atletas para clubes profissionais e inflacionamento da prática esportiva, pela necessidade crescente de melhor preparo físico e de maiores medidas de segurança (quem dirige clube sabe o impacto que contratar treinadores e pagar ambulâncias têm no orçamento). De outro lado, as mudanças profundas no mundo da publicidade, bem como o desinteresse maior dos jovens por esportes de forma geral sempre impõem riscos ao futuro dos clubes amadores, que dependem cada vez mais do engajamento de suas comunidades.

As federações deveriam prover as estruturas e as ações para equilibrarem tais forças e o rugby de seleções sempre vai ser a principal receita delas – além das seleções serem a porta de entrada para se gerar interesse em públicos novos. Quem não acompanha um esporte pode rapidamente se identificar com sua seleção, antes mesmo de conhecer um esporte, e passar a se interessar por ele. Não é por acaso que a FIFA tem tamanho poder sobre o futebol, mesmo com tantos clubes poderosos de todos os lados da balança de poder.

É plausível que em breve o tier 1 abra os olhos e incorpore Japão ou Estados Unidos, onde as ligas profissionais vem fazendo o rugby evoluir. Foi o que ocorreu em 2000 quando a Itália foi aceita no Six Nations. Isso pode se repetir em breve – o fracasso da Liga Mundial não sepulta a ascensão desses países. Porém, o dinamismo da estrutura do rugby é um horror. Imóvel em sua essência. E nada meritocrático do ponto de vista do mérito esportivo – basta constatar que Geórgia e Fiji vão seguir sendo clamorosamente prejudicados. Nesse sentido, a FIFA (corrupta até o pescoço) é muito mais justa quanto ao mérito esportivo do que o tier 1 do rugby mundial. No futebol, qualquer país, por mais pobre que seja, tem o direito de brilhar. No rugby, que tanto se orgulha der ser “para todos” e regido pelo tal “espírito do rugby” parece ter muito menos esse espírito do que a bola redonda quando o assunto é difusão. O espírito de cartel é o que manda.

Pessoalmente, não sei se a Liga Mundial seria positiva. São tantas variáveis que é difícil dizer se valeria a pena ter a competição e tudo que a envolve. Há muitos outros caminhos para se desenvolver o rugby (na verdade, o World Rugby falhou em oferecer modelos alternativos para uma nova competição). Mas o fato de não haver um projeto alternativo da parte do “Six Nations” para a Europa ou dos tier 1 para o resto do mundo prova que a Liga não foi barrada porque havia um projeto melhor sendo gestado. Ela foi barrada por simplesmente ser um projeto de mudança. E isso é temeroso para o futuro do esporte.

Fonte: R7

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