O verão da inteligência artificial

Panaceia ou armadilha diabólica são as posições extremas no espectro de quem discute Inteligência Artificial (IA) e as consequências de sua aplicação. Provavelmente a verdade (mas, o que é a “verdade?”) deve localizar-se em algum ponto intermediário. E tanto os apologéticos como os apocalípticos obtém apoio de peso: o próprio Stephen Hawking teria declarado que “conseguir sucesso na criação real de IA poderá ser o maior evento da história da nossa civilização. Ou o pior. Não sabemos…”

O que ajuda a carrear tanta atenção à IA é que, talvez levianamente, grudamos o rótulo de IA em muitas coisas que seriam, apenas, sofisticada tecnologia, tratamentos estatísticos e exame de correlação de dados.

Reconhecimento facial, por exemplo, é um tema de pesquisa desde os anos 60, e até recentemente não relacionado a IA. O mesmo se pode dizer das eficientíssimas máquinas de busca de que dispomos na internet de hoje. Foi o rápido e contínuo desenvolvimento do poder computacional que, aplicado a algoritmos, permitiu que usássemos a impressão digital, ou imagem da íris, ou reconhecimento facial como identificadores pessoais de acesso. Processamento, associado a capacidade quase ilimitada de armazenamento e intercomunicação em rede, gerou ferramentas de busca e de localização.

Parece vontade de “dourar a pílula” da IA – por si já muito poderosa – colocar tudo sob o mesmo guarda-chuva. Aliás, cunhou-se a sigla IAA (Inteligência Artificial Artificial) para designar essa simplificação matreira e oportunista.

Os exemplos citados podem ser muito potencializados com a introdução de IA. Algoritmos fixos usados tornam-se dinâmicos: “aprendem” com seus próprios erros e resultados e buscam refinar sua ação. Não se trata mais, apenas, de identificar uma face, mas de detectar o estado de espírito do indivíduo e, se possível inferir suas intenções. Não estamos simplesmente encontrando coisas na rede, mas recebemos resultados personalizados que, além de ter maior sintonia com o que procuramos, procuram causar mais impacto no que faremos depois. O céu (ou o inferno…) é o limite do que se pode conseguir quando sistemas evoluem a partir da sua própria experiência, afastam-se do seu funcionamento original e chegam a obter autonomia de difícil predição ou controle.

Há, assim, um efeito “moda” sobreposto a um real e efetivo progresso rumo a uma IA exuberante. Se previsões alarmantes, como 1984, de George Orwell ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, parecem estar se concretizando rapidamente, outras mais otimistas e animadoras, como robôs domésticos, viagens interplanetárias e carros totalmente autônomos ainda situam-se no campo das possibilidades. A história da IA começa nos anos 60 e apresenta uma “ciclotimia”: passa-se de momentos de euforia para momentos de retração, que ficaram conhecidos como os “invernos da IA”.

Estamos claramente num pleno verão, um pouco forçado, mas indiscutível. Há também alguns indícios de recolhimento: levantam-se dúvidas sobre “carros autônomos”, se chegaremos mesmo à singularidade de Ray Kurzweil etc. Há quem prenuncie um novo inverno pela frente. Se esse inverno vier, que seja na forma de oportunidade para avaliar riscos e benefícios, o uso ética e controle de tecnologias críticas que representam ameaças à civilização.

Ou seja, que esse inverno traga um renascimento auspicioso, como Shakespeare coloca na boca de Ricardo III: “… o inverno do nosso descontentamento converte-se agora em glorioso verão … e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais profundo dos oceanos.”

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Fonte: PORTAL TERRA – TECNOLOGIA

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