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Paulo Guedes: a trajetória do fiador econômico de Bolsonaro

Nome completo:  Paulo Roberto Nunes Guedes
Ocupação:  Economista e ministro
Local de Nascimento:  Rio de Janeiro
Ano de Nascimento:  1949

Quem é Paulo Guedes

O ministro da Economia de Jair Bolsonaro é há décadas uma voz marcante na defesa dos princípios liberais.

Nascido no Rio de Janeiro, Paulo Guedes passou sua infância e adolescência em Belo Horizonte, onde se formou em Economia pela UFMG. Voltou à sua cidade natal para cursar seu mestrado na FGV, antes de partir para a Universidade de Chicago, o berço do liberalismo mundial.

Com as aulas de Milton Friedman e outros vencedores do Nobel de Economia, Guedes se converteu ao liberalismo e foi para o Chile conferir de perto as reformas econômicas da ditadura de Pinochet, comandadas pelos Chicago Boys, na década de 1980.

Desde então, sonhava em fazer no Brasil reformas semelhantes às feitas pelos militares no Chile e pela primeira-ministra Margaret Thatcher no Reino Unido. Sua chance viria somente em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil.

Até então, Guedes havia passado longe do centro de poder no país, mas sempre manteve voz ativa – e bastante ácida – em relação à falta de controle dos gastos públicos de planos econômicos como o Cruzado, o Collor e o Real, além do inchaço do governo nos anos em que o PT esteve na presidência.

Sua carreira no mercado financeiro começou como um dos fundadores e economista-chefe do Pactual, antes de montar a gestora JGP no final dos anos 1990, ao lado de André Jakurski.

Após deixar a parceria com Jakurski, Guedes entrou no mundo do private equity com a BR Investimento, rebatizada posteriormente de Bozano e, com a sua saída, de Crescera.

Além do inegável faro para começar negócios de sucesso, sua paixão residia também no mundo acadêmico. Guedes comandou o Ibmec por mais de 15 anos e fez o instituto rumar para a área educacional, com o início dos cursos de MBA e a formação de uma faculdade. Após vender sua parte da sociedade, Guedes foi um dos criadores do Instituto Millenium, entidade de promoção do pensamento liberal.

Formação e carreira acadêmica

Praticamente assíduo de caminhadas matutinas na praia do Leblon, curiosamente o carioca Paulo Guedes passou boa parte de sua infância e adolescência longe do mar.

Morando em Belo Horizonte com seus pais, uma servidora do Instituto de Resseguros do Brasil e um representante comercial que vendia material escolar, ele estudou no Colégio Militar na capital mineira. Sua desenvoltura com a bola, competitividade e pavio curto são alguns dos traços lembrados pelos colegas de classe.

Se ele deixou de lado a bola, o temperamento estourado continua presente em sua vida como ministro de Estado. Guedes é conhecido por suas frases ácidas e diretas e acabou acumulando alguns desafetos durante sua carreira, muito deles alvos de suas críticas.

Foi cursando economia na UFMG e, sobretudo, no mestrado na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, que Guedes conheceu o ultraliberalismo, que seguia a cartilha dos neokeynesianos – apelido dado a quem segue as ideias de Paul Samuelson, que prevê maior intervenção do estado na economia para corrigir distorções do capitalismo.

Mas sua conversão veio somente no seu voo acadêmico mais alto, quando foi aprovado para cursar o doutorado na Universidade de Chicago, centro global do estudo do liberalismo econômico.

Bancado por uma bolsa de estudos do CNPq, que lhe rendia US$ 2.330 mensais, e auxílio da FGV e da própria Universidade de Chicago, Guedes passou quatro anos assistindo a aulas com gurus liberais como Milton Friedman, que conquistou o prêmio Nobel de 1976, Gary Becker (premiado em 1992), Robert Lucas Jr. (1995) e Thomas Sargent (2011).

Seus professores e os debates com colegas moldaram para sempre a forma de pensar de Guedes. Sua tese sobre questões fiscais e endividamento de governo é um indicativo do seu mantra repetido há décadas e mais ouvido ainda após a campanha de Bolsonaro: é preciso reduzir o Estado e os gastos públicos.

Portas fechadas no Brasil e os Chicago Boys

De volta ao Brasil em 1979, Guedes acreditava que seu currículo lhe abriria as portas da academia. Mas não foi isso o que ocorreu.

Sua ideia era virar professor em tempo integral, mas nenhuma instituição quis contratá-lo. Porém, Guedes conseguiu vagas de tempo parcial na PUC-Rio, FGV e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).

Em sua avaliação, as universidades da época eram formadas por grupos fechados, avessos a ideias novas. Colegas têm outra recordação: Guedes não tentou ser professor em tempo integral, pois isso exigiria que ele publicasse artigos e pesquisas, algo que não lhe interessaria.

No início dos anos 1980, Guedes recebeu uma oferta que considerou irrecusável: ser professor da Universidade do Chile.

Além do salário de cerca de US$ 10 mil mensais, valor maior do que recebia em seus empregos no Brasil, Guedes poderia acompanhar na prática a implantação das transformações econômicas nas quais acreditava.

Comandado pela sangrenta ditadura de Augusto Pinochet, o Chile havia se tornado cobaia de ideias liberais em sua economia.

Sem oposição política ou pressão popular, os Chicago Boys – apelido dado a economistas chilenos formados na mesma universidade de Guedes – conduziram uma série de reformas, como a redução do gasto fiscal, privatizações, introdução do modelo de capitalização para a Previdência, reforma tributária, trabalhista e desregulação da economia.

Mas o intercâmbio durou pouco. Guedes deixou o país após seis meses em Santiago, depois de encontrar agentes da polícia secreta vasculhando o seu apartamento. Um terremoto que assustou sua esposa, Cristina, grávida de Paula, sua única filha, também ajudou na decisão de voltar o Brasil.

Guedes sempre foi criticado por sua temporada no Chile. Apesar de o Brasil também estar vivendo uma ditadura militar, a Universidade do Chile estava mais entranhada no governo de Pinochet, por ser comandada por um general.

Sempre que é questionado sobre o período, Guedes afirma que não tinha ligação com o regime local e diz não se sentir culpado por ter aceito o convite.

Pactual com ‘P’ de Paulo Guedes

De volta ao Rio, Guedes começou a trabalhar na Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) antes de ser convidado para assumir uma diretoria no Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (Ibmec), pelo vice-presidente da instituição, Roberto Castello Branco. Curiosamente, décadas depois, Castello Branco seria indicado pelo próprio Guedes para a presidência da Petrobras, em 2019.

No comando do Ibmec, Paulo Guedes ampliou a conversão do instituto em um centro de educação, ajudando a criar o primeiro MBA executivo em finanças do país. O curso foi um sucesso e fez o Ibmec entrar em uma fase de forte crescimento e expansão nacional.

Um convite em 1983 fez Guedes começar a trilhar uma vida paralela à vida acadêmica. Ele aceitou a proposta de Luiz Cezar Fernandes para montar o Pactual. Fernandes havia sido forçado a deixar a sociedade com Jorge Paulo Lemann no Banco Garantia, para dar espaço para outros sócios crescerem. Entre eles, Marcel Telles e Beto Sicupira.

Contrariado com a saída, resolveu abrir uma concorrente, junto com Guedes e André Jakurski. Guedes se tornou o estrategista-chefe do banco, escrevendo relatórios econômicos com sua já conhecida acidez.

Em seus textos, Guedes apostava no fracasso do controle de preços e criticava a falta de ajuste fiscal para debelar a inflação, que atingia níveis inéditos em meados dos anos 1980.

Assim, acabou aumentando sua indisposição com alguns ex-colegas docentes da PUC, como Luiz Carlos Mendonça de Barros, Pérsio Arida, André Lara Resende e Edmar Bacha, idealizadores do plano de Sarney.
Guedes recebeu de Mendonça de Barros o apelido de “Beato Salu”, referência à personagem da novela Roque Santeiro que vivia anunciando o fim do mundo.

Nada escapou da mira de Guedes: Cruzado, Verão, Bresser, Collor e até mesmo o Real foram alvos da visão liberal do ministro.

Para ele, nenhum plano seria bem sucedido se não atacasse de frente o problema das contas públicas, já que controlar a economia pelos preços ou o câmbio não era suficiente.

Guedes rezava a cartilha, adotada pelos Chicago Boys, de redução do tamanho do Estado com a venda de estatais, controle das contas públicas e redução das barreiras para o investimento privado com capital nacional e internacional.

Suas ideias liberais só ganhariam força e dimensão nacional somente duas décadas depois, com a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil.

Mas enquanto Guedes era bem recebido no meio econômico, sua postura crítica e desavenças acabou transbordando em seus dois projetos profissionais.

Retaliação de Brasília

Mantido por subvenções do governo, o Ibmec viu sua fonte de receita secar com a pressão de Brasília para que a instituição demitisse Paulo Guedes. O então ministro da Fazenda Dilson Funaro queria até mesmo zerar a verba que o Banco Central dava ao instituto, precisando ser dissuadido da decisão.
Mas o Ibmec sobreviveu com Paulo Guedes, principalmente devido ao sucesso do programa de MBA, que representava uma parcela cada vez maior das receitas.

Já o Pactual acabou sendo punido por ter Guedes como sócio e teve a sua transformação de distribuidora de recursos imobiliários para banco de investimento adiada por mais de um ano.

Ao fim de 1985, o Pactual já havia cumprido todos os requisitos para virar banco. Mas a assinatura da autorização dependia de Mendonça de Barros, desafeto de Guedes.

Em ao menos uma ocasião, a briga entre os dois quase se partiu para as vias de fato, quando precisaram ser separados na sede do Banco Central no Rio de Janeiro.

A autorização para o Pactual saiu apenas quando Mendonça de Barros se afastou por um problema renal – os técnicos do BC aproveitaram a deixa para resolver a situação.

Paulo GuedesPaulo Guedes
Paulo Guedes durante entrevista concedida em 1985 (Crédito: Fernando Bueno/Estadão Conteúdo)

Saída do IBMEC e Pactual

No final da década de 1990, Guedes decidiu comprar o Ibmec. O instituto passava por uma transformação profunda, para resolver a equação entre o crescimento na educação executiva e da faculdade e o encolhimento de sua área de pesquisa. Um padrão incorreto para uma entidade sem fins lucrativos.

Para isso, Guedes conseguiu aprovar a cisão do Ibmec em duas áreas distintas, que seguiriam com a conhecida marca. Guedes buscou Carlos Haddad, ex-diretor do BC e do banco Garantia, para ser seu sócio na empreitada. Os dois aportaram R$ 2,9 milhões e compraram a escola do Ibmec.

Mas as visões divergentes dos sócios sobre o futuro do instituto levaram a mais um ponto de virada na carreira de Guedes. Sem acordo, ele saiu da sociedade em 2003, com R$ 30 milhões no bolso pela venda da sua participação, além de ter ganhado um novo desafeto.

Sob o controle de Haddad, o Ibmec se separou nas unidades de Rio e Belo Horizonte, vendidas ao grupo DeVry por R$ 700 milhões em 2015, enquanto a unidade de São Paulo adotou o nome Insper.

A saída do Pactual foi menos conflituosa. À frente do banco, Guedes fez uma fortuna estimada em US$ 150 milhões, mas decidiu se desligar por discordar da direção que o banco estava tomando em se aventurar no varejo.

Ele deixou o banco ao lado de André Jakurski e, juntos, a dupla formou a JGP Asset Management, uma das primeiras gestoras independentes do Brasil, com a combinação dos sobrenomes Jakurski e Guedes, seguido por Partners.

Sem Guedes e Jakurski, Luiz César Fernandes aceitou deixar o controle do Pactual e abrir caminho para a nova geração de sócios comandada por André Esteves, Eduardo Plass, Gilberto Sayão, Luiz Cláudio Garcia e Marcelo Serfaty. Após ser vendido e recomprado do UBS, o Garantia se transformou no BTG Pactual, um dos principais bancos de investimento do país.

Fracasso no Day Trade

A reputação de Guedes e Jakurski era muito bem-vista no mercado quando a dupla deixou o Pactual. Eles comandavam o trading do banco, área que gerava cerca de 90% dos lucros do banco.

Enquanto Jakurski era responsável pela renda variável, Guedes era quem dava as orientações econômicas do banco e comandava as áreas de câmbio, renda fixa e juros.

Foi de Guedes, por exemplo, que saiu o case de apostar na valorização do real após o plano de FHC, com empréstimos em dólar para investir em papéis que subiriam com a valorização da nova moeda brasileira.

Mas a empreitada de Guedes no JGP, contudo, não foi para frente.

No seu acordo com os demais sócios, o futuro ministro decidiu que cuidaria do próprio dinheiro e seguiria operando no day trade, como fazia na época do Pactual. Contudo, Guedes não teve sucesso: estima-se que ele tenha perdido mais de R$ 20 milhões nas operações.

Para Guedes, o período foi de aprendizagem, um experimento. Os sócios, contudo, viram de outro jeito e pediram para que ele interrompesse as operações. Guedes acabou deixando a gestora quando foi chamado para novo aporte de recursos em 2004.

Fora da JGP, Guedes montou uma consultoria com seu irmão Gustavo, a GPG – Gustavo e Paulo Guedes -, mantendo forte participação no mercado de futuros da bolsa de São Paulo.

Da sociedade, ficou a acusação de que eles teriam se beneficiado em R$ 596 mil após uma fraude da corretora Dimarco, que mudava a ordem das operações recebida de vários clientes. Guedes não foi réu do processo, julgado em 2018 na primeira instância, com a condenação da corretora que havia provocado um prejuízo de R$ 12,8 milhões à fundação de gestão da aposentadoria dos funcionários do BNDES, a Fapes.

Se no day trade o ministro pode ter fracassado, sua visão macro da economia seguia apurada. Ao prever a crise de 2008, quase deu uma de suas grandes ‘porradas’ do mercado. No entanto, seu bolso não era tão profundo.

Assim como o excêntrico Michael Burry – cuja história foi contada no filme A Grande Aposta -, Guedes também apostava que a crise estaria a caminho.
Sócio da gestora Fidúcia, ele começou a apostar contra a alta dos índices.

Mas, diferentemente do gestor da Scion Capital, Guedes não tinha recursos para manter suas apostas. Por isso, precisou encerrar o case com prejuízo.

Quando a bolha estourou em 2008, Guedes já estava à frente da BR Investimentos. Fundada dois anos antes, a empresa se fundiu em 2013 com a Mercatto Asset, gestora focada em fundos de ações, de crédito e multimercado, e a Trapezus, que concentrava suas operações em estratégias quantitativas.

Surgia assim a Bozano Investimentos, comandada pela dupla Paulo Guedes e Sergio Eraldo De Salles Pinto.

Sobre este período, ainda paira em Guedes uma investigação da Operação Greenfield que apura se ele cometeu crime de gestão fraudulenta ou temerária com a gestão de um investimento montado com aportes de fundos de pensão como a Previ, Petros, Funcef, Postalis e BNDESPar.

Na época da BR Investimentos, Guedes captou mais de R$ 1 bilhão das entidades para aplicações em educação. O MPF e a Polícia Federal avaliam se houve negócio sem análise adequada. Guedes rejeita a denúncia e nega que tenha tido conduta antiética ou irregular no negócio.

Negócios com Marinhos e Civitas

Se hoje o governo de Bolsonaro se vê às turras com os grandes nomes da imprensa, o passado de Guedes com as principais famílias do setor é de boas memórias.

À frente da BR Investimentos, um fundo de investimento comandado pelo hoje ministro adquiriu 20% da Abril Educação por R$ 226,2 milhões se tornando sócio dos Civita, família que controlava a Editora Abril, responsável pela publicação da Veja e outras revistas.

O negócio com os Civita só foi para frente após o acordo do fundo de Guedes para vender a HSM – empresa focada no mercado de eventos e educação corporativa – para o grupo RBS e a Globo Participações, da família Marinho, que controla a Rede Globo.

Os contatos que fez nesta época ajudaram em uma tentativa de aproximação do então candidato Bolsonaro à grande imprensa. Mas as reuniões agendadas por Guedes não foram suficientes para resolverem o ambiente conflituoso de Bolsonaro com a mídia.

Além de investir em empresas, Guedes fez parte do o conselho de administração de empresas listadas na bolsa, como a PDG Realty, a Localiza e a Anima Educação.

Aproximação com a política

A presença constante de Paulo Guedes no debate econômico nacional, com seus boletins do Pactual, palestras, colunas em jornais e revistas, Ibmec e no Instituto Millenium, criado em 2005 para promover de estudos liberais, fez com que ele passasse a ser sondado para ocupar um cargo no governo.

Só para a diretoria do BC, foram dois convites diretos. Em 1984, Delfim Netto, que era ministro do Planejamento, sondou Guedes para o cargo. Mas ele negou o convite, achando que era uma armadilha – Guedes vivia criticando a política econômica do governo. No ano seguinte, foi a vez da equipe de transição do governo de Tancredo Neves convidá-lo para um cargo. Guedes recusou novamente.

Com a posse de Collor em 1990, e a indicação que o novo governo faria a abertura comercial do país, a ministra Zélia Cardoso de Mello o convidou para participar da equipe econômica – ela também ouviu um “não”.

O desejo de participar do governo só viria 15 anos depois. Curiosamente, ele chegou após uma conversa com a presidente Dilma Rousseff.

Chamado ao Palácio do Planalto, Guedes ouviu de Dilma que o Joaquim Levy – bombardeado por petistas no governo Dilma e por bolsonaristas anos depois – iria sair do cargo de ministro da Fazenda e que ela gostaria de ouvir sua opinião sobre a política econômica.

Como é de sua prática, Guedes foi direto: disse que a Dilma deveria abraçar o plano ‘Ponte Para o Futuro’, que Michel Temer e o PMDB (agora MDB) de Eduardo Cunha e outros desafetos da presidente haviam apresentado meses antes. Como contrapartida, ela deveria exigir que o Congresso aprovasse uma reforma política.

A conversa de mais de quatro horas não terminou com um convite para Guedes assumir o ministério ou outra posição no governo. Pouco tempo depois, Nelson Barbosa foi o indicado para o ministério da Fazenda.

Outsider em 2018

Dessa emblemática reunião com Dilma, em 2015, Guedes saiu com a certeza que a inflação iria disparar, já que não havia sinais de compromisso do governo com o controle das contas públicas. E, de fato, o IPCA superou os 10% ao ano com a economia sob o comando de Dilma, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini.

Mas suas previsões, muitas vezes certeiras, sobre a economia nacional também funcionaram em alguns momentos para o mundo da política.

Depois de se reunir com a presidente, Guedes e sua filha Paula apostaram que o cenário estava se encaminhando para o país eleger um outsider, sem a marca da “velha política” e com forte presença nas redes sociais. Para eles, o nome favorito nesse cenário era o de Luciano Huck.

Pelo intermédio de Gilberto Sayão, colega da época do Pactual e sócio de Huck na Joá Investimentos, Guedes conseguiu uma reunião com o apresentador da Globo em 2016. Adepto das longas explanações, Guedes dividiu com Huck sua visão sobre a eleição seguinte e defendeu que ele deveria ser o candidato de centro.

Dois anos depois, o apresentador de televisão desistiu publicamente da ideia e acabou “entregando” Guedes a Bolsonaro.

O Posto Ipiranga

No início de 2018, o atual presidente buscava de um economista para orientar sua equipe de campanha. Bolsonaro diversas vezes assumiu entender pouco do assunto. Além disso, sua histórica defesa do nacionalismo e protecionismo não inspirava muita confiança do mercado, o que dificultava a conquista do voto da direita.

Na primeira reunião com Bolsonaro, Guedes informou que apoiava Huck, mas que poderia opinar e colaborar com a campanha do capitão reformado. O futuro presidente gostou da forma direta que Guedes usava para se comunicar e acertou que gostaria de conversar novamente com o economista, caso a candidatura de Huck não fosse à frente.

Se Guedes teve quatro anos em Chicago para ser convertido ao liberalismo econômico, Bolsonaro precisou fazer um intensivo de poucas semanas: o economista foi o grande responsável por ‘converter’ o futuro presidente.
Bolsonaro, que na época de deputado federal votou contra projetos de reforma da Previdência e de privatizações, teve seguidas conversas – ou aulas – com Guedes para passar a defender o corte de gastos públicos,nas descentralização do poder econômico, a reforma tributária e a privatização de estatais, até mesmo de empresas consideradas estratégicas pelos militares.

Com o apoio de Bolsonaro, Guedes dominou o debate econômico na campanha e foi o grande fiador do candidato para o empresariado e o mercado financeiro. Sua presença se tornou tão relevante que Bolsonaro praticamente não debatia assuntos econômicos: mandava perguntar ao Guedes, seu “Posto Ipiranga”, referência às propagandas da rede de combustíveis.

Com a vitória da chapa Bolsonaro-Mourão, Guedes foi alçado ao cargo de “superministro” da Economia, acumulando as funções dos extintos ministérios da Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio.

Jair Bolsonaro e Paulo GuedesJair Bolsonaro e Paulo Guedes
(Crédito: Edu Andrade/Ascom/ME)

Desafios como ministro

À frente do superministério, Guedes tentou implantar sua cartilha liberal e trouxe para o governo o estilo ortodoxo dos ‘Chicago Boys’.

Formou uma equipe com Roberto Campos Neto, no comando do BC; Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras; manutenção de Mansueto Almeida no Tesouro; Pedro Guimarães, para a Caixa, Rubem Novaes, no Banco do Brasil, além de indicar Joaquim Levy para o BNDES. O último caiu seis meses após assumir, bombardeado pelos bolsonaristas nas redes sociais.

O primeiro desafio foi vencido com o apoio do Congresso, ao aprovar a Reforma da Previdência no primeiro ano de mandato de Bolsonaro. O texto acabou diluído e foi aprovado com um impacto fiscal estimado pelo governo de R$ 855 bilhões.

A reforma tributária dos sonhos de Guedes já foi detonada pelo Congresso atual e até mesmo Bolsonaro. Guedes defende a simplificação dos tributos em uma só cobrança sobre transações. O tema pegou mal por ter semelhanças com a odiada CPMF e o presidente descartou a ideia.

Sobrou para Guedes a unificação de tributos e a taxação de dividendos com compensação de redução do imposto de renda sobre pessoa jurídica. Mas a proposta ainda não foi apresentada pelo governo.

A vontade de privatizar todas as estatais está em curso, mas Guedes perdeu as primeiras batalhas.

Bolsonaro rejeitou vender o ‘núcleo duro’ da Petrobras, Caixa e Banco do Brasil e a venda de Eletrobras enfrenta grande rejeição do Congresso, responsável por aprovar a desestatização. Guedes prometeu acelerar o processo, que coleciona algumas vitórias, como a venda do controle da BR Distribuidora e o avanço da privatização de dutos, campos e refinarias da Petrobras.

Mas o maior desafio – e o objeto de seu grande desejo – de zerar o déficit público foi descartado com o estouro da pandemia de Covid-19 e o consequente aumento dos gastos e redução de receitas.

Os planos de zerar o rombo em apenas um ano, como foi anunciado na campanha, ficaram ofuscados pela a realidade que se impõe.

Para saber mais

Fonte: Infomoney

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