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Privatização do espaço começou para valer com viagens de bilionários

Jeff Bezos e Richard Branson demonstraram este mês que voar até os confins do céu parece seguro e, sobretudo, uma diversão – apesar de ser uma viagem de apenas dez minutos. Mas, além do deslumbramento, os voos deixaram uma mensagem mais profunda: a “amazonificação” do espaço começou para valer.

Se o espaço antes era dominado principalmente por governos, agora é cada vez mais alvo das gigantes da tecnologia. As pessoas que vendem hoje a internet agora vão lhe vender a Lua e as estrelas.

Na última terça-feira, 20, Bezos, fundador da Amazon e ainda seu maior acionista, deixou claro na coletiva de imprensa após o voo que a Blue Origin estava aberta para negócios. Embora os bilhetes não estejam disponíveis de modo geral, as vendas de voos já se aproximaram de US$ 100 milhões. Bezos não disse o preço de cada, mas afirmou que “a demanda é muito, muito alta”.

Essa demanda já existia antes mesmo da imprensa mundial se reunir em Van Horn, Texas, para uma cobertura ampla e de bajulação de Bezos fazendo algo que Branson havia feito no Novo México na semana anterior. Foi um evento cuidadosamente orquestrado, que contou com a astronauta mais velha e a pessoa mais jovem a irem para o espaço e foi coroado com uma doação filantrópica de US$ 200 milhões.

Até mesmo Elon Musk, presidente executivo da rival SpaceX e às vezes cético quanto aos sonhos espaciais de Bezos, sentiu-se obrigado a dar parabéns. Branson, que teve o direito se gabar por ter completado a façanha primeiro, fez o mesmo.

Toda essa atividade espacial é o começo de algo novo, mas, também, uma repetição dos anos 90. No início daquela década, a internet era propriedade do governo dedicada à pesquisa e comunicação para poucos. No fim, graças a Bezos mais do que a qualquer outro, a internet se tornou um lugar para todos comprarem coisas. E nos 20 anos seguintes, a tecnologia cresceu e se transformou nas gigantes da tecnologia, provocando temores bipartidários de que Amazon, Facebook, Google e Apple agora são poderosas demais.

O espaço sideral agora pode embarcar em uma jornada semelhante de fronteira para os grandes negócios.

Espaço aberto

Durante décadas, a Nasa não conseguiu financiamento suficiente para fazer algo tão épico quanto o programa Apollo. O governo Trump decretou um retorno à Lua até 2024. O governo Biden endossou o objetivo, mas não a data. Se isso acontecer de algum modo, será com a ajuda de empresas como a SpaceX e a Blue Origin. Em contraste com o projeto Apollo na década de 1960, a próxima viagem à Lua será terceirizada. Além disso, as aventuras espaciais menores estão ainda mais abertas aos empresários.

“Se você olhar para como está nossa relação com o espaço hoje, principalmente no que diz respeito às atividades na órbita terrestre inferior, isso realmente é semelhante aos primeiros dias da internet”, disse West Griffin, diretor financeiro da Axiom, uma startup com o objetivo de construir a primeira estação espacial comercial.

Um ecossistema crescente de startups está tentando comercializar o espaço ao criar de tudo, desde tecnologia de lançamento mais barata a satélites menores e até a infraestrutura que compõe as “picaretas e pás” da corrida do ouro do espaço, como Meagan Crawford, sócia-gerente da empresa de capital de risco SpaceFund, chamou isso tudo.

“As pessoas estão olhando em volta e pensando: ‘Existe uma indústria espacial robusta. De onde veio isso?'”, disse Meagan. “Bem, isso tem sido construído de forma metódica e proposital, e deu muito trabalho nos últimos 30 anos para chegarmos até aqui.”

A primeira corrida espacial, que se estendeu por toda a década de 1960 e depois perdeu força na década de 1970, opôs um impetuoso governo dos EUA contra uma União Soviética malévola e sem charme. Os americanos ganharam a competição, embora os críticos argumentem que foi tudo um erro em uma época em que tantas questões domésticas precisavam de atenção e de dinheiro.

Agora acontece quase a mesma coisa, embora a crítica dessa vez seja pessoal. Uma petição solicitando que Bezos não fosse autorizado a retornar à Terra conseguiu 180 mil assinaturas virtuais. A senadora democrata por Massachusetts, Elizabeth Warren, tuitou: “É hora de Jeff Bezos cuidar dos negócios aqui mesmo na Terra e pagar sua parcela justa de impostos”.

Em uma entrevista ao canal americano CNN na segunda-feira, 19, do lugar de lançamento no Texas, Bezos disse que seus críticos estavam “em grande parte certos”. “Temos de fazer as duas coisas”, disse ele. “Temos muitos problemas aqui e agora na Terra e precisamos trabalhar nisso. E sempre precisamos olhar para o futuro”.

Mas é evidente qual perspectiva chama sua atenção. Como orador de sua turma de ensino médio em 1982, Bezos falou a respeito da importância de criar vida em enormes colônias espaciais flutuantes para milhões de pessoas. “A ideia geral é preservar a Terra”, disse o jornal The Miami Herald ao citá-lo na época, acrescentando que seu objetivo final era ver o planeta “transformado em um enorme parque nacional”.

Bezos disse quase a mesma coisa esta semana. Era um sonho utópico com muitas partes móveis complicadas – assim como, em menor escala, a noção de um varejista que venderia de tudo para todas as pessoas e faria as entregas em horas. E, para surpresa de quase todos, ele conseguiu tornar isso realidade.

Branson deu início a outro ramo espacial, a Virgin Orbit, que está lançando pequenas cargas úteis em órbita. Ele não fez alusões a visões grandiosas como Musk e Bezos de espalhar a civilização no sistema solar.

Os sonhos de Musk em Marte começaram com uma pequena missão quixotesca: ele queria enviar uma planta para Marte e ver se ela conseguiria crescer lá. Mas os custos de lançar até mesmo um pequeno experimento eram proibitivos. Até mesmo as opções na Rússia estavam fora de alcance. Então Musk fundou a SpaceX em 2002.

Hoje, ele quer enviar pessoas, não plantas, para Marte. A SpaceX está atualmente desenvolvendo o Starship, um foguete grande o suficiente para fazer a viagem, e a Starlink, uma constelação de internet via satélite, que visa gerar os lucros necessários para financiar os planos em Marte.

Conforme ele segue em busca desses objetivos, a empresa tem se tornado uma gigante no negócio espacial. A Nasa depende dos foguetes e cápsulas da SpaceX para enviar astronautas e cargas para a Estação Espacial Internacional, e operadores de satélite privados, governamentais e militares do foguete auxiliar reutilizável Falcon 9 para lançamentos em órbita.

A Nasa recentemente fechou um contrato com a SpaceX para usar o protótipo do Starship para o programa lunar. Mas o contrato foi contestado pela Blue Origin e outra empresa, a Dynetics. Apesar de toda a camaradagem demonstrada nesta semana, os bilionários jogam para ganhar. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Fonte: Terra

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