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quem são as vítimas de covid-19 das escolas de samba do Carnaval do Rio

A comunidade carnavalesca também teve muitas perdas com a covid

Foto: BBC News Brasil

A covid-19 tirou a vida de mais de 200 mil brasileiros, e o mundo das escolas de samba do Rio também sofreu perdas. Há entre as vítimas pessoas de várias idades e funções — integrantes de bateria, harmonia, velhas guardas, passistas, compositores.

A BBC News Brasil conversou com parentes e amigos de algumas dessas pessoas e conta abaixo as histórias de vida daqueles que, com mais ou menos destaque, fizeram o Carnaval acontecer.

Seu Tonico trabalhava havia muitos anos no barracão da Grande Rio

Seu Tonico trabalhava havia muitos anos no barracão da Grande Rio

Foto: Lucas Bártolo/Ludens / BBC News Brasil

Tonico, ancião no barracão da Grande Rio

Multiuso e faz-tudo são palavras muito usadas por quem fala sobre o papel do habilidoso Antonio Barbosa, o seu Tonico, no Carnaval da Grande Rio, escola de Duque de Caxias.

Com bom conhecimento técnico, ajudava na manutenção de tudo que envolvia hidráulica, elétrica, solda industrial.

Trabalhador e prestativo também são adjetivos recorrentes.

Quando chegava esta época do ano, não voltava para casa nem para dormir, se aninhava no barracão mesmo, diz seu irmão Inocêncio.

Em dia de desfile, era um dos primeiros a chegar à concentração, e subia e descia a avenida com sua máquina de solda fazendo os últimos reparos.

Octogenário, era de uma geração que viveu as antigas agremiações de Caxias, algumas das quais se juntaram para fundar a Grande Rio. Seu irmão teve participação importante nesse processo. No barracão, Tonico contava aos mais novos histórias de desfiles antigos. “Ele se sentia uma espécie de diretor de patrimônio. Tinha muito carinho pela escola, pelos equipamentos, um olhar muito atento a tudo, era aquele cara chato, num bom sentido”, diz Sylvio Baptista, diretor de barracão da Grande Rio.

Em sua salinha ficava “sua bagunça”, como brinca Sylvio: uma reunião de todas as partes do seu trabalho de manutenção, com equipamentos por todo lado.

Um desfile do qual se orgulhava de ter participado, diz Inocêncio, era o de 2006, sobre o Amazonas, que não venceu o Carnaval daquele ano por um triz e deixou a comunidade de Caxias lamentando.

A escola bateu em trave similar no ano passado, 2020, com um belo enredo sobre Joãozinho da Gomeia, lendário pai de santo baiano que se instalou em Duque de Caxias no final dos anos 1940.

Nesse seu Tonico também teve participação importante. Milhares de fantasias e alegorias vistas na avenida passaram por suas mãos. Tonico foi responsável por bater as placas que são mais tarde enviadas a ateliês para serem decoradas. A tarefa pode soar simples, mas não é, diz Sylvio. É preciso muita organização para manter o fluxo de distribuição funcionando e garantir que todos os componentes terão fantasias iguais, bonitas e no prazo.

Seu Carnaval também era nas ruas, pois Tonico emprestava sua expertise técnica ao Bloco do China, tradicional bloco de enredo de Duque de Caxias. E desfilava também, diz seu irmão Inocêncio.

Fora do mundo das escolas de samba, Tonico era aposentado do Exército. Baiano, veio da cidade de Alagoinhas para Duque de Caxias, quando tinha seus 12 anos.

Tonico tinha 80 anos. Deixa sua mulher, filhos e netos.

Carlão era louco por seu tantan:

Carlão era louco por seu tantan: “Ninguém pega, ninguém toca, ninguém nada. Era assim”, diz sua companheira Lea

Foto: Arquivo Pessoal / BBC News Brasil

Carlão, percussionista da Galeria da Velha Guarda

O calendário da Galeria da Velha Guarda regia o ano na casa de Carlos Alberto Soares, o Carlão, e Ornilea Lopes de Oliveira, a Lea. Nos fins de semana, se encontravam com as velhas guardas das outras escolas, bebiam, riam, cantavam. Depois, seguindo a tradição desses encontros, entravam na quadra da escola da vez cantando o samba daquele ano. Era sempre assim, cada vez em uma quadra diferente.

Carlão, se pudesse, se vestia todo dia de azul e branco, as cores da Portela. “Calça branca de linho, sapato branco, camisa da portela. Até casamento era complicado ir com ele, porque ele queria ir de branco. Mas branco é da noiva, né? Então ele usava um terno de linho bege para disfarçar”, diz Lea.

O casal se conheceu na escola de samba União de Jacarepaguá, da qual também eram integrantes. “A gente se casou num bar. Já nos paquerávamos de longe. Um dia, depois de uma reunião, estávamos todos bebendo uma cerveja e um amigo em comum se levantou e disse, ‘hoje eu sou o padre e vou casar um casal que está se paquerando faz tempo’. Teve brinde. E ali começou nosso namoro”, lembra ela.

Carlão chegou à Portela com seus 18 anos. Foi passista, desfilou em várias alas, inclusive a Ala dos Impossíveis, fundada entre outros por Candeia, e respondia pelo apelido de Comprido.

Depois de décadas, pôde pleitear lugar na Galeria da Velha Guarda. Foi um processo longo. Submeteu seu currículo, esperou mais de um ano e um dia foi chamado para se apresentar ao grupo e defender sua carteirinha de portelense.

Vestiu sua calça de linho branco, “bem passada e engomada”, como conta Lea, uma bata azul e, no ombro, uma toalhinha da Portela para aplacar o suor de calor e nervoso.

Lea não assistiu à apresentação, mas diz que Carlão saiu de lá aclamado. “Como comemorou? Com Brahma”, diz Lea.

Na Galeria da Velha Guarda, era diretor de patrimônio e tocava percussão, uma de suas grandes paixões. “O tantan era meu maior rival”, brinca Lea, que agora vai aprender a tocar o instrumento.

Fora do Carnaval, era “lightiano”, como diz Lea, funcionário aposentado da empresa de energia fluminense Light. “Ele tinha os pés queimados. Um transformador estourou em cima dele uma vez. Ele conseguiu se salvar, mas ficou com essa marca”, diz ela. Como lightiano que era, pôde contribuir para a reforma da Portelinha, a antiga quadra da Portela, hoje administrada pela Galeria da Velha Guarda.

Carlão tinha 77 anos. Deixa Lea, seis filhos, entre eles uma porta-bandeira, e sete netos.

Vilma, que vestia seu cãozinho de Imperatriz

A casa de Vilma dos Santos Gonçalves era cheia de verde e branco, as cores da Imperatriz Leopoldinense. O som tocava sempre os sambas da escola. Até seu cãozinho, Roque, vestia roupinhas da escola quando esfriava e dormia com um manto verde e branco. A quadra era sua segunda casa, diz seu irmão, Haroldo.

“Foi paixão à primeira vista”, conta Haroldo, também membro da escola de Ramos.

Vilma desfilou na ala das damas. Mais tarde, se tornou membro da Velha Guarda. Tesoureira, brigava com quem não pagasse sua parte em dia.

“Ela vivia a Imperatriz o ano inteiro, não só no Carnaval. E era rígida. Quando eu queria ouvir um samba de outra escola, ela não deixava, eu tinha que ouvir no carro”, diz Haroldo, rindo.

Quando o desfile se aproximava, Vilma se empolgava. “Era aquela coisa, ela vestia a fantasia, ia para a casa da prima mostrar, tirar foto”, diz Haroldo.

Fora do Carnaval, Vilma trabalhava como advogada, tinha seu próprio escritório em que resolvia causas cíveis. Quando sua mãe adoeceu, resolveu se aposentar para cuidar dela. “Minha mãe teve um AVC e também era diabética. Quem controlava tudo era Vilma”, diz Haroldo, seu irmão.

Seu sonho era comprar um apartamento perto da quadra da Imperatriz, em Ramos, zona norte do Rio. Vilma tinha 67 anos. Além de Haroldo, seu irmão, deixa também seu companheiro.

Apaixonado pela Portela, Evandro passou por diversas alas da escola e desfilou também em carro alegórico

Apaixonado pela Portela, Evandro passou por diversas alas da escola e desfilou também em carro alegórico

Foto: Arquivo Pessoal / BBC News Brasil

Evandro, o enfermeiro carnavalesco

Quando acabava o dia de sexta-feira logo antes do Carnaval, Evandro Barbosa deixava seu bairro de Olaria e se mudava com um grupo de amigos para a casa de um deles no centro do Rio, no olho do furacão carnavalesco.

Brincava pelas ruas, desfilava, se fantasiava. “No ano passado, ele pulou tanto que parecia que estava se despedindo”, diz Luiz Amora, grande amigo e parceiro de Carnaval de Evandro.

A noite de domingo ou segunda, dependendo da ordem dos desfiles, era reservada à Portela, sua paixão, pela qual desfilava havia anos. Naquele momento, ficava sério, se maquiava, não bebia até o fim do desfile. Um vez contou a Amora que desatou a chorar na avenida quando saiu num carro próximo à águia, o símbolo da escola.

No resto do ano, Evandro trabalhava como enfermeiro no Hospital Getúlio Vargas, na Penha. Nos meses antes de sua morte, montou kits de prevenção à doença, saquinhos com álcool em gel e máscara, e distribuiu para moradores de rua do seu bairro.

“O Evandro vivia para ajudar as pessoas. Era o tipo de pessoa que daria a roupa do corpo para alguém se a pessoa precisasse”, diz Amora.

Evandro tinha 55 anos. Deixa parentes e amigos saudosos.

Marcia gostava de acompanhar a Portela em eventos nas escolas com irmãs

Marcia gostava de acompanhar a Portela em eventos nas escolas com irmãs

Foto: Arquivo Pessoal / BBC News Brasil

Marcia, integrante empolgada da torcida organizada da Portela

Em dia de ensaio técnico da Portela, era olhar para a arquibancada e lá estaria ela, Marcia Reguffe, em meio à torcida organizada Nação Portelense, estendendo faixas, bandeiras, fazendo um churrasquinho.

Sempre gostou do Carnaval, mas era mais assídua nos bailes de clube do que na Sapucaí, até ser levada à Portela pela amiga Sandra D’Avola. “Não foi muito difícil de convencê-la, não”, diz Sandra. “Ela já gostava. A Marcia era uma pessoa muito alegre, extrovertida”, diz a amiga. É assim também que a descreve o presidente da Nação Portelense, João Paulo Barbosa de Abreu. “Não se via tristeza no rosto dela. Seus olhos chegavam a brilhar quando via a Portela. E era muito participativa. Quando íamos visitar as escolas coirmãs, ela estava sempre lá”, diz o amigo.

O interesse por Carnaval veio um pouco de casa. Sua mãe foi presidente de uma pequena agremiação na cidade de Lambari, no sul de Minas Gerais.

“Minha irmã era muito apaixonada pelo que fazia. E passava isso para a gente”, diz a irmã, Rose.

Fora do Carnaval, Marcia era advogada e morava em Copacabana. Tinha 52 anos. Deixa mãe, irmã e seu sobrinho.

Marcos, ia do trabalho direto para a Grande Rio

Marcos Diniz era conhecido em Duque de Caxias como Marquinhos DJ porque, nas festas de rua, era ele quem pilotava o som para os amigos, conta Fernanda, sua companheira.

E amigos ele teve muitos. Nas redes sociais, centenas de pessoas enviaram mensagens ao saber de sua morte.

“Sempre sorridente e brincalhão. Vou lembrar dos momentos bons que tivemos e da última vez que conversamos. Perguntou por todos, era sempre alegre e animado”, escreveu uma amiga.

Já nasceu numa família carnavalesca. Sua mãe, já falecida, também gostava de escola de samba. Na Grande Rio, Marquinhos era diretor de harmonia, ajudando a organizar os componentes no desfile. Seu primo e sua irmã também são integrantes da escola.

Marquinhos trabalhava numa equipe de apoio de segurança.

Às vezes saía do trabalho, depois de um turno de 12 horas, e mesmo cansado, ia direto para o ensaio.

“O orgulho dele era poder participar e ajudar no que fosse preciso. Com ele não tinha isso de ‘ah, isso é muito difícil, não vai dar para fazer’. Era ‘vamos, sim!'”, diz ela.

E não ficava só na Grande Rio, sua escola de coração. Ajudava outras também. Não gostava era de ficar parado. “Isso se notava porque até dentro de casa ele fazia a maior bagunça”, lembra Fernanda.

Marcos nasceu em Caxias, mas brincava que se considerava mineiro, estado de onde vinha a sua família. Gostava da ideia de uma vida pacata, mais rural.

Ele tinha 50 anos. Deixa sua companheira e dois filhos.

Eder, o manauara na Mocidade

Eder Jefferson Feitosa de Oliveira nasceu longe da Marquês de Sapucaí, mas desde pequeno frequentou escolas de samba na sua Manaus, no Amazonas. Sua mãe, Deuza, o levava consigo aonde fosse, e todo domingo, era para ensaio de Carnaval que iam. Tinham vasta oferta perto de casa: as escolas manauaras Vitória Régia, Andanças de Ciganos e Reino Unido da Liberdade. Foi nessa última em que acabou se firmando.

Começou como lanterninha, a pessoa que acende e apaga uma lanterna para comunicar aos componentes quando eles podem ou não seguir adiante num desfile.

Aos poucos foi ganhando espaço na escola, e finalmente virou diretor de harmonia, agora responsável por ajudar a organizar os componentes na hora do desfile.

“Quando terminava, ele dizia, ‘mãe, eu não sei se choro ou grito’. Era tudo o que ele gostava de fazer, dar o sangue e ver um belo desfile, ver que deu tudo certo”.

As cores verde e branca da Unidos da Liberdade eram as mesmas da carioca Mocidade Independente de Padre Miguel. Além da coincidência, seus tios eram Mocidade doente, segundo Deuza. Foi assim que Eder a tornou seu lugar no Rio.

Todo ano, Deuza, Eder e Luciana, mulher dele e tocadora de chocalho, desfilavam em Manaus num dia e no seguinte embarcavam para a capital fluminense, para ver as escolas de lá. Até que um dia Eder conheceu um integrante da Mocidade que lhe abriu as portas para desfilar e participar da organização do desfile de 2020.

“Aí foi que ele realizou o sonho. Ele falava, ‘mãe, fui tão bem recebido, parecia que a gente já se conhecia há anos'”.

Fora do Carnaval, Eder trabalhava num banco, gostava de futebol — era flamenguista — e da Festa do Boi Garantido e Caprichoso.

Eder tinha 37 anos. Deixa sua mãe e sua mulher.

Outras vítimas

Segundo as agremiações, também foram vítimas de covid-19 os integrantes abaixo. A BBC News Brasil não conseguiu, até a publicação deste texto, contato com seus parentes.

– Ana Maria Almeida Vitalino, integrante da Portela

– Anderson Dias da Silva, o Andinho, diretor de bateria da Unidos do Porto da Pedra

– Diego Tavares, compositor do Salgueiro

– Maria de Lourdes, porta-bandeira da Mocidade

– Sinval, integrante da ala de comunidade da Mocidade

– Tânio Mendonça, compositor da Mocidade

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Fonte: Terra

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