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Reverter o aquecimento do planeta pode prevenir piores efeitos das mudanças climáticas

De acordo com pesquisadores, pontos críticos de irreversibilidade ainda podem ser evitados, mesmo que se exceda as metas de redução da emissão de gases, desde que o mundo seja capaz de reverter este excedente rapidamente.

Modelos matemáticos que simulam quatro pontos de inflexão revelam um atraso entre o momento em que começamos a sentir efeitos críticos e uma mudança irreversível. Elementos de início lento, como o derretimento das calotas polares, operam em escalas seculares, enquanto a retração da Amazônia pode ser irreversível em poucas décadas.

No entanto, especialistas alertam que os modelos falham no que diz respeito à interação entre diferentes pontos de inflexão, o que pode encurtar a janela de tempo necessária para que os efeitos passem do ponto irreversível. Muitas dessas interações ainda não são bem entendidas, fazendo com que seja difícil incluí-las em modelos climáticos.

Pesquisadores dizem que estes resultados mostram que ainda há bons motivos para agir para mitigar o aquecimento global, mesmo que ultrapassemos a meta do Acordo de Paris de 1.5°C. Alguns alertam para a possibilidade do estudo ser usado como pretexto para tolerar mais atrasos nas ações contra o aquecimento global.

De acordo com um estudo publicado na revista científica Nature, pontos críticos de irreversibilidade – como o derretimento das calotas polares – podem ser evitados mesmo que seja ultrapassada a meta de redução das emissões globais de gases estufa, contanto que sejamos capazes de reverter rapidamente essa extrapolação.

A estrutura das Fronteiras Planetárias, criada em 2009, propôs nove sistemas terrestres chave e descreveu os  pontos de inflexão provocados pela exploração humana, a partir dos quais todo o sistema poderia se transformar em um novo estado climático – um onde seria difícil a sobrevivência de civilizações humanas.

No presente estudo, pesquisadores da Universidade de Exeter e o Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido (U.K Centre for Ecology and Hydrology), desenvolveram modelos matemáticos simples de quatro elementos climáticos no sistema terrestre que são relativamente bem estudados: o derretimento das calotas polares, a interrupção da Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico (AMOC), a retração da floresta Amazônica, e a interrupção do ciclo de monções da Índia.

Cientistas descobriram que ultrapassar o limite climático não seria o estopim de uma mudança climática irreversível, contanto que a duração do momento de extrapolação seja relativamente curta comparado com o tempo de recuperação dos  pontos de inflexão . Por exemplo, os modelos do derretimento das calotas polares e da Circulação Meridional de Capotamento Atlântico, mostraram um atraso de aproximadamente 50 anos entre o início dos efeitos e o começo de mudanças irreversíveis. Os autores chamaram esses pontos de inflexão de “slow-onset”, ou seja, de início lento.

“Pontos de inflexão de início lento acontecem em uma escala temporal de muitos séculos e – dependendo do nível de aquecimento – isso nos daria mais tempo [do que previsto antes] para agir”, diz o principal autor Paul Ritchie, pesquisador do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter. Por outro lado, a retração da floresta Amazônica e as monções de verão da Índia são pontos de inflexão de início rápido, diz o autor, porque ultrapassar o limite pode acarretar mudanças rápidas e irreversíveis em questão de décadas.

“Felizmente, os pontos de inflexão que acredita-se estarem mais próximos são pontos de início lento. Isso pode nos dar uma salvação para refrear mudanças climáticas perigosas.” Disse o co-autor do estudo Joe Clarke, um estudante de PhD na Universidade de Exeter.

Buscando por uma zona segura limite

O time combinou seus modelos para mapear a “zona segura” de quanto, e em quanto tempo, nós poderíamos ultrapassar o aquecimento de 1.5°C sem alavancar qualquer mudança irreversível (pelo menos dentro dos quatro pontos de inflexão simulados). “Tanto o tamanho da extrapolação quanto a janela temporal são importantes”, explicou Peter Cox, professor de Dinâmica de Sistemas Climáticos na Universidade de Exeter e co-autor no novo estudo. Por outro lado “alcançar o limite é mais arriscado se nós o extrapolarmos por um período de tempo maior”

“Eu apoio o uso de modelos simples para ajudar a entender dinâmicas não-lineares como as dos pontos de inflexão,” disse Steven Lade, um pesquisador do Centro de Resiliência de Estocolmo não envolvido no estudo em questão. Apesar disso, ele expressou preocupações de que tais “modelos não são complexos o suficiente para distinguir se uma resposta atrasada é reversível ou irreversível”. Por exemplo, processos internos de feedback podem já ter confinado parte do gelo Antártico em um estado irreversível de derretimento, mesmo que estes efeitos não sejam vistos por séculos. “Esta é uma distinção sutil porém importante que poderia mudar as descobertas deles [do estudo]” Lade disse.

“É verdade que os modelos que nós usamos são intencionalmente simples. Isso nos permite demonstrar claramente como a escala de tempo de um ponto de inflexão afeta a “área segura” de ultrapassagem” Cox respondeu. “Nós acreditamos que é geral o suficiente para também aplicar os pontos de inflexão em modelos mais complexos, mas isso ainda precisa ser confirmado”.

Além disso, interações entre diferentes elementos – por exemplo, uma mudança de bioma de floresta tropical para savana degradada na bacia Amazônica, exacerbando a mudança climática e a perda da biodiversidade – “encurtaria o tempo em que o início dos efeitos poderia ser ultrapassado” alertou Lade. Algumas destas interações foram profundamente estudadas mas muitas ainda são um tanto quanto mal entendidas, o que significa que elas são difíceis ou impossíveis de serem incluídas em modelos matemáticos de pontos de inflexão climáticos. Todavia, “negligenciar interações significa que qualquer estimativa de tempo provavelmente será otimista”, observou Lade.

“É possível imaginar um efeito cascata de pontos de inflexão”, Cox concordou. “Esta é outra possibilidade para pesquisas futuras.”

A meta do Acordo de Paris de manter a média de aquecimento global dentro de 1.5°C de níveis pré-industriais, foi selecionada desta forma para prevenir o estopim catastrófico em pontos de inflexão como estes. Mas com o lento progresso dos países em direção a esta meta (quase nenhuma nação está progredindo o suficiente para atingir seus objetivos de cortes de emissão a tempo, objetivos estes que por si são inadequados), parece cada vez mais que a Terra muito provavelmente excederá o aquecimento de 1.5°C – ao menos por um curto período – antes que qualquer estratégia de prevenção das mudanças climáticas que possamos implementar nas próximas décadas comecem a surtir efeito.

“É bastante provável que o início dos efeitos dos pontos de inflexão sejam ultrapassados” disse Cox. Mas estes resultados mostram que “isso não é motivo para desespero, mas sim para ações mais contundentes para frear uma mudança climática”

Este estudo pode oferecer alguma esperança para a humanidade e para o mundo. Relatos extremos que detalham o quão próximo estamos de vários pontos de inflexão climáticos “podem levar ao desencorajamento das tentativas de desacelerar uma mudança climática”, Cox disse, mas essas simulações podem indicar que “é possível ultrapassar o ponto de inflexão sem que isso leve a uma mudança climática abrupta e permanente… isso significa que sempre há mérito em tentar desacelerar e reverter a mudança climática” ele diz.

Ainda assim, Lade cuidadosamente aponta que estes resultados também podem despertar uma reação mais apática. “O artigo poderia facilmente ser mal interpretado para afirmar que nós ainda não precisamos agir por mais um século. Mesmo que esta não seja a mensagem deles (dos pesquisadores), eu me preocupo com como seus resultados podem ser mal interpretados,” ele disse.

Citações

Ritchie, P. D. L., Clarke, J. J., Cox, P. M., & Huntingford, C. (2021). Overshooting Tipping Point Thresholds in A Changing Climate. doi: 10.1038/s41586-021-03263-2.

Fonte: R7

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