Sérgio Moro nas mãos de Bolsonaro ou fortalecido com respostas? Analistas se dividem sobre futuro do ministro

SÃO PAULO – A divulgação de conversas privadas entre o ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública), na época em que era o juiz responsável por casos da Lava-Jato na 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba, e membros da força-tarefa da operação provocou mudanças na disposição das peças do xadrez político em Brasília. Embora Moro mantenha boa parte do prestígio que conquistou nos últimos anos, analistas divergem sobre como o ex-magistrado deverá sair do episódio.

De um lado, há quem enxergue um inevitável enfraquecimento e uma maior dependência da figura do presidente Jair Bolsonaro (PSL), o que em tese o colocaria em posição mais distante de uma possível participação na próxima corrida presidencial.

Em outro flanco, chama-se atenção para o desempenho do ministro em audiência pública realizada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal e o apoio recebido de parlamentares e parcela da opinião pública. Para este grupo, o respaldo popular ao ex-juiz e à própria Lava-Jato pode crescer.

“O juiz da Lava-Jato era considerado uma espécie de fusível capaz de evitar eventuais escorregadas autoritárias por parte do governo Bolsonaro. Seria a garantia interna – isto é, afora os ‘checks and balances’ externos – de que o estado democrático de direito não seria conspurcado por Bolsonaro. Nesse sentido, estava de certo modo, acima do próprio presidente”, pontua Ricardo Ribeiro, analista político da MCM Consultores.

“O episódio da divulgação dos supostos diálogos entre Moro e os procuradores da Lava-Jato rebaixou o status do ex-juiz, embora provavelmente não tenha, por enquanto, afetado de maneira significativa sua imagem fora dos círculos que já não lhe viam com simpatia. Agora, Moro ganha medalhas e camisa de time de futebol pelas mãos de Bolsonaro. Vai ao programa do Ratinho. Falta pouco para ‘pagar’ flexão de braço com Bolsonaro. Ou seja, Sérgio Moro se incorporou ao bolsonarismo”, complementa.

Na prática, isso significa mais força ao presidente e menos risco de disputa por espaço com seu próprio ministro na cena política. Com os episódios recentes, diz o analista, o ex-juiz precisou recorrer ao apoio do bolsonarismo para evitar um nível de desgaste ainda maior.

Vale lembrar que diferentes institutos de pesquisa mostraram, ao longo dos primeiros meses de governo, que Moro era a figura mais popular do país, superando até mesmo o presidente.

O tamanho do “superministro” agora deverá ser testado em manifestações de rua convocadas para o próximo domingo (30) em sua defesa e da operação Lava-Jato. Para os analistas políticos da consultoria Arko Advice, a tendência é que os atos contem com adesão expressiva, sobretudo após o bom desempenho do ex-juiz em audiência pública com senadores. Seria uma oportunidade para virar a página.

“Moro colheu uma vitória política durante sua passagem pela CCJ do Senado. Além de ter pautado o debate na comissão, recebeu um significativo apoio do presidente Bolsonaro. Assim, o que parecia um princípio de crise perdeu força”, observam em relatório.

“Como consequência [do bom desempenho no Senado], o respaldo popular a Moro e à Lava-Jato deve crescer e a tendência é que as manifestações de apoio marcadas para o próximo dia 30 obtenham grande adesão. Com a popularidade da agenda de combate à corrupção e ao crime organizado, os obstáculos ao pacote ‘anticrime’ de Moro podem diminuir no Congresso”, complementam.

Nesta semana, estava prevista audiência pública do ministro na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados, mas ele cancelou sua participação e não propôs nova data para o encontro. Havia expectativa de clima mais hostil nesta segunda visita de Moro ao parlamento para tratar do caso.

Apesar do ambiente mais favorável ao ministro em comparação com semanas anteriores, seu destino também vai depender do teor das próximas revelações feitas. No último fim de semana, o site The Intercept Brasil e o jornal Folha de S.Paulo divulgaram novos trechos de conversas que indicam que procuradores se articularam para proteger Moro e evitar que tensões entre o então juiz federal e o Supremo Tribunal Federal paralisassem investigações em 2016.

A parceria entre os dois veículos pode dar novo fôlego às revelações. “Em lance rápido após o bom desempenho de Sergio Moro na CCJ do Senado sobre o caso, [o jornalista Glen] Greenwald (responsável pelo Intercept) marcou um gol ao ampliar a base de vazamentos para veículos como a Folha e a Band News, ampliando o público e agregando credibilidade quando um dos eixos da narrativa do governo era de que havia dúvida sobre a autenticidade”, avalia Leopoldo Vieira, analista político da Idealpolitik.

Embora haja perspectivas favoráveis a Moro, ainda há uma série de fatores de incerteza no caso. O primeiro deles reside na própria natureza do conteúdo ainda não revelado pelos jornalistas. Além disso, está pendente de análise na Segunda Turma do STF um pedido de suspeição do ex-juiz, apresentado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O caso, contudo, deve ficar somente para agosto.

“A oposição no Senado aguarda o posicionamento do STF em relação ao pedido de suspeição da atuação de Moro como juiz da Lava-Jato para só então avaliar a possibilidade de articular um pedido de CPI. Na Câmara, Moro não será tão bem tratado. Por outro lado, espera-se que novas revelações venham a público. Assim, apesar de ter se saído bem num primeiro momento, Moro ainda não tem o seu destino definido”, concluem os analistas da Arko Advice.

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Fonte: INFOMONEY

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