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Simone Tebet e Tabata Amaral defendem diálogo

SÃO PAULO – A pandemia do novo coronavírus expôs uma realidade que, por vezes, vinha sendo sobreposta pelos calorosos embates da polarização política brasileira, e agora cobra da sociedade maiores condições de diálogo e a construção de pontes entre quem pensa diferente. Mais do que nunca, as desigualdades social, econômica e educacional cobrarão respostas que exigem um maior nível de convergência em tempos de ânimos acirrados.

Esta é a avaliação da senadora Simmone Tebet (MDB-MS) e da deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), duas gerações do mundo político que participaram do painel “Quais os efeitos da polarização política no Brasil de 2020”, pelo segundo dia da Expert XP. O bate-papo foi mediado por Débora Santos, analista política da XP Investimentos.

“O Brasil é o único país democrático do mundo, que, sendo acometido por uma pandemia sanitária, estando ainda diante de uma crise social e econômica, cria uma crise política desnecessária”, observou Simone Tebet, que preside a Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal e já liderou a bancada do MDB na casa legislativa.

“A pandemia não apenas nos isolou, ela desnudou para o Brasil um país muito mais desigual, muito mais desumano, com uma quantidade de invisíveis que não conhecíamos. Nós sabíamos o número de desempregados, dos informais, sabíamos até daqueles ambulantes que passavam pelas janelas de nossas casas no dia a dia tentando vender o almoço para poder pagar o jantar, mas não imaginávamos que havia uma quantidade de brasileiros à parte da sociedade brasileira sem a proteção social do Estado tão grande quanto essa”, completou.

Na avaliação da senadora, a polarização exacerbada experimentada pelo país cria falsos debates, como o antagonismo artificial entre saúde e economia, e desvia o foco dos problemas mais graves a serem enfrentados. “É como se houvesse uma cortina sobre nossos olhos”, diz. A saída, argumenta a parlamentar, requer união, foco e coragem para que diferentes grupos estejam dispostos a sentar à mesa para dialogar.

Já Tabata Amaral vê na pandemia como um triste exemplo de como a polarização política e a falta de diálogo podem custar vidas. “Temos uma pandemia que expõe e aprofunda as muitas desigualdades e mazelas do Brasil. Diante disso, quando vemos uma crise política que acaba roubando recursos, tempo, atenção e esforços, a conclusão que chegamos é: nosso Brasil não precisava ter sofrido tanto. A pandemia poderia ter durado muito menos e muitas vidas poderiam ter sido salvas se todos estivessem focados no combate ao coronavírus”, disse.

A deputada vislumbra dois problemas urgentes a serem enfrentados pela sociedade brasileira. O primeiro é a desigualdade em suas mais diversas faces (social, econômica, educacional).

“Essa desigualdade toda tira a capacidade das pessoas de sonhar, porque sabemos que um jovem periférico não tem os mesmos sonhos que um jovem de uma região nobre, e ele vai ter que correr muito mais para correr atrás dos mesmos sonhos quando consegue quebrar essa barreira e sonhar”, argumentou.

“A gente vai ter uma democracia mais profunda e um país menos polarizado quando as pessoas sentirem que a competição é justa, que elas têm acesso às mesmas oportunidades”, defendeu a deputada, filha de uma bordadeira e um cobrador de ônibus, criada na na Vila Missionária (bairro no extremo sul de São Paulo), e que se formou em Ciência Política e Astrofísica pela Universidade de Harvard (EUA) – exemplo do potencial transformador da Educação.

O segundo ponto seria a ausência de formação política e maior permeabilidade da política à diversidade existente na sociedade.

“Eu cresci, tanto quando fui bolsista de uma escola particular como quando estudava em escola pública, sem ter ideia do que fazia um vereador. Fui uma pessoa que teve muitas oportunidades na educação, mas cresci em uma comunidade em que, a cada dois anos, ia um cabo eleitoral bater na porta para pintar um número no muro. Quando você cresce achando que isso é política, você liga o noticiário e não se vê lá, é muito difícil você achar que a política pode ser um lugar de transformação”, disse.

Para Tabata, a ausência de diálogo, os altos níveis de desigualdade e a descrença na política, além de excluírem uma parcela importante da população do processo decisório, potencializam os riscos de ascensão de lideranças populistas à direita ou à esquerda.

Em termos de pautas que convirjam com os objetivos de atacar esses problemas centrais e os desafios aprofundados pela pandemia da covid-19, a senadora Simone Tebet chama atenção para uma reforma tributária que inverta a lógica regressiva do atual sistema e que viabilize políticas sociais, como o programa de renda básica em discussão no governo e no próprio parlamento.

“É possível fazer isso sem violar a lei de responsabilidade fiscal, a regra de ouro ou o limite do teto de gastos? A resposta é sim”, disse. Para isso, ela indica como necessidade a discussão sobre privilégios e mesmo questões como a tributação sobre dividendos.

“Precisamos entender que não é mais trabalhar só com desenvolvimento ou só com inclusão social. A gente precisa combinar as duas coisas. Se tem gente passando fome, esse país nunca vai ser tão desenvolvido como ele pode ser”, pontuou Tabata.

Para ela, os desafios de políticas públicas serão ainda maiores, considerando o processo de evolução tecnológica pelo qual o mundo passa. “Quando temos a perspectiva de que, daqui a dez anos, mais da metade das profissões que vão existir não existem ainda e que o jovem que se forma hoje no ensino médio vai ter de 8 a 11 ocupações durante a vida, quando olhamos para os movimentos dos entregadores de aplicativos… As pessoas vão ter que se reinventar muito rápido, muitas vezes ao longo da vida. Então, se não tivermos um colchão para que elas possam se adaptar para as novas tecnologias, a robotização da economia, vamos deixar ainda mais gente para trás”.

A construção de um novo programa de renda básica com responsabilidade fiscal, diz a deputada, pode ser um ponto de convergência entre as mais distintas vozes dispostas a dialogar no mundo político. A despeito do tamanho dos desafios impostos, as duas parlamentares estão otimistas com o ambiente político em emergência em que tais assuntos precisarão ser tratados.

“Estamos prontos para o diálogo, o diálogo é a saída. Mas não é qualquer mesa redonda. Vamos ter que chamar e ter a grandeza de dialogar com o outro lado, com o que pensa diferente de nós. Estou há seis anos no Congresso Nacional e nunca vi um esforço concentrado, com todas as dificuldades de um plenário virtual, de abrir mão das nossas convicções. Tenho visto a unidade dos diferentes em uma reação à polarização exacerbada”, pontuou Simone Tebet.

Mas, para isso, também terão de ser enfrentados interesses que até o momento prevaleceram em boa parte das decisões políticas. “Nós vamos precisar fazer algumas realocações. E aí há a questão dos supersalários, que é algo simbólico para o país. A renda básica pode ser uma oportunidade para falarmos sobre várias batalhas importantes E sabemos que boa parte do orçamento público vai para os mais ricos e para setores que não faz o menor sentido”, citou Tabata.

“É preciso ter coragem para enfrentar os desafios – e estamos prontos para isso. De tudo que a pandemia tem que ter feito conosco é tirado todos de nossa zona de conforto. Não está em jogo eleição, o meu mandato ou o da Tabata. Está em jogo uma legião de invisíveis que vão passar fome em uma recessão sem precedentes”, concluiu Simone Tebet.

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Fonte: Infomoney

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