Sincretismo religioso – Estudo Prático

É comum ouvirmos dizer que o Brasil é um país caracterizado pelo sincretismo religioso, e que este sincretismo teria se originado pela confluência de povos que constituíram o Brasil, como os europeus, africanos, indígenas e demais grupos que se somaram após a colonização.

Há uma diversidade muito grande de religiões em todo o mundo, e no Brasil não é diferente. Mesmo o Cristianismo, religião predominante no Brasil, possui vários tipos de correntes e movimentos teológicos.

Essa variedade de religiões influencia a cultura dos brasileiros, suas crenças, manifestações, festividades e modos de compreender a vida.

É importante conhecer mais sobre o que é o sincretismo religioso, e como ele está presente em nossas vidas e na cultura do Brasil.

Neste artigo, você conhecerá mais sobre as religiões do mundo, as religiões brasileiras e como se originou este sincretismo no Brasil.

Além disso, vai entender o que significa a palavra “sincrético” e, também, que há pessoas que não possuem religião alguma. Confira!

O que é sincretismo religioso?

Ao longo do tempo, as religiões vão sofrendo algumas mudanças em suas estruturas, especialmente influenciadas pelas transformações da própria sociedade.

Estas religiões podem incorporar manifestações e crenças de outras religiões, porém, sem deixar suas características básicas originais.

Essa confluência entre várias religiões, onde os traços destas de mesclam, embora se mantenham as condições que embasam cada uma delas, é chamada de sincretismo religioso.

Sincretismo religioso é a fusão de duas ou mais religiões (Foto: depositphotos)

De modo bastante claro, pode-se entender o sincretismo religioso como a reunião de várias doutrinas religiosas diferentes. Porém, mantendo-se os principais traços de cada uma destas religiões.

Essa mistura faz com que se torne difícil definir claramente quais são as crenças e manifestações de cada uma das religiões, uma vez que estes elementos se inter-relacionam constantemente.

Algumas religiões se mantêm mais fechadas diante da influência de outras religiões e da própria sociedade. Estas religiões são chamadas de ortodoxas.

A Ortodoxia é um sistema teológico considerado como o único verdadeiro, é uma espécie de dogmatismo religioso, quando os preceitos desta religião são considerados como incontestáveis.

Existem correntes ortodoxas no Judaísmo, no Cristianismo, dentre outras.

Quanto mais aberta está uma religião diante das influências de outras religiões e da própria sociedade, considera-se que mais secularizada ela é.

A Secularidade possui relação com uma adequação às condições do século vigente, ou seja, uma inserção nas transformações que o momento atual apresenta para as pessoas.

Considera-se que esta condição de secularidade seja oposta aos tradicionalismos religiosos, uma vez que enquadra a religião às mudanças sociais, aos novos contextos vividos.

Sincretismo religioso no Brasil

O sincretismo religioso é uma das marcas da cultura brasileira.

No contexto do Brasil Colonial, entraram em contato vários tipos de manifestações religiosas, como aquelas praticadas por cada uma das tribos indígenas que já habitavam as terras brasileiras, as religiões africanas e a religião dos europeus (cristianismo).

No contato entre estes povos e suas manifestações religiosas, houve uma confluência entre os costumes, hábitos e crenças, e isso se estendeu para a forma como a religião era praticada também.

Elementos de diversas religiões

No Brasil, houve a mistura entre as religiões dos indígenas, europeus e africanos (Foto: depositphotos)

Apesar desta mistura, que ocorreu em menor ou maior intensidade em alguns aspectos, os preceitos originais de cada uma das religiões não foram modificados.

Após isso, somaram-se várias outras religiões, as quais eram trazidas pelos povos que chegavam ao Brasil, tornando ainda mais sincrética a religiosidade brasileira.

Hoje, o Cristianismo é reconhecido como religião predominante no Brasil, embora ele próprio seja caracterizado por várias correntes teológicas (catolicismo, protestantismo, pentecostalismo, adventismo, etc).

No Brasil, em primeiro lugar apare o Catolicismo, em segundo os Evangélicos, posteriormente os Espíritas, já em menor quantidade.

As demais religiões, que são muitas e bem diversificadas, aparecem na categoria “Outras”. Ou seja, não são contabilizadas individualmente e, por vezes, pouco conhecidas.

Principais religiões do Brasil

O Censo de 2010 do IBGE catalogou mais de 40 grupos religiosos no país, mostrando que o país é marcado pelo sincretismo religioso.

No Brasil, os católicos representam 64,6% da população, enquanto os evangélicos vêm em segundo lugar com 22,2% (dados de 2010).

Os Espíritas representam 2% da população, enquanto os adeptos da Umbanda e do Candomblé representam 0,3%.

Há ainda no Brasil os seguidores do Judaísmo, do Islamismo, do Hinduísmo e das tradições indígenas.

As religiões que aparecem em menor quantidade de adeptos são contabilizadas de forma geral pelo IBGE, por isso tem-se popularmente pouco conhecimento sobre quais são elas.

Confira a seguir um pouco mais sobre cada uma dessas religiões mencionadas!

Catolicismo

Escultura de Maria e Jesus

O Catolicismo é a maior manifestação religiosa do país (Foto: depositphotos)

É a corrente teológica predominante no Brasil. Foi trazida pelos europeus no contexto da colonização.

Essa vertente do Cristianismo é uma das mais antigas e consolidadas do mundo todo. O grande líder Igreja Católica Apostólica Romana é o Papa ou Santo Padre, o qual reside no Vaticano (Roma), que é a sede mundial da Igreja Católica.

Evangélicos

Pastor orando um rapaz

Os Evangélicos representam 22,2% da população brasileira (Foto: depositphotos)

O Cristianismo Evangélico é um movimento cristão que surgiu no século XVII, depois da Reforma Protestante de Martinho Lutero.

Os Evangélicos são comumente divididos em fundamentalistas, conservadores, moderados e liberais. A principal corrente de Evangélicos do mundo é o protestantismo.

Espiritismo

Sessão espirítica

Terceira corrente religiosa mais presente no Brasil (Foto: depositphotos)

Também conhecido como Doutrina Espírita ou Kardecismo, é uma doutrina religiosa e filosófica codificada por Hippolyte Léon Denizard Rivail que usava o pseudônimo de Allan Kardec.

Umbanda e Candomblé

Imagens de preto velho

A umbanda mistura elementos do Catolicismo, Espiritismo e de religiões de matriz africana (Foto: depositphotos)

A Umbanda é uma religião brasileira que tem como base uma mistura de elementos de outras religiões originais, como o próprio Catolicismo, o Espiritismo e as religiões de matriz africana.

Já o Candomblé é uma religião afro-brasileira, a qual foi trazida para o país pelos africanos no contexto da escravidão.

Existem várias entidades e orixás nas religiões afro-brasileiras, sendo alguns dos principais: Exú, Ogum, Oxum, Xangô, Iansã, Oxossi, Nanan, Iemanjá, Oxum, Oxumarê, Ossain e Oxalá.

Islamismo, Judaísmo e Hinduísmo

Alcorão

O Alcorão é o livro sagrado do Islamismo (Foto: depositphotos)

São algumas das principais religiões do mundo, mas possuem número menor de adeptos no Brasil do que o Cristianismo.

O Islamismo foi originalmente trazido pelos africanos no contexto da colonização do Brasil. A primeira mesquita islâmica brasileira foi fundada em 1929 em São Paulo.

O Brasil possui a segunda maior comunidade judaica da América Latina, atrás apenas da Argentina. Estima-se que haja no Brasil mais de 120 mil judeus.

O Hinduísmo é a religião predominante na Índia, mas existem também adeptos dela no Brasil, embora em menor quantidade. É uma religião politeísta, ou seja, que tem várias divindades.

Tradições Indígenas

Tribo indígena dançando

As crenças indígenas possuem relação direta com os elementos da natureza (Foto: depositphotos)

São as religiões mais antigas do território brasileiro, praticadas pelos indígenas antes mesmo da chegada dos europeus.

São muitas variantes, as quais dependem de cada tribo, mas possuem relação com os elementos da natureza.

No entanto, muitos aspectos destas religiões acabaram sendo modificados a partir da inserção das práticas do catolicismo no território, especialmente por parte dos padres jesuítas através da educação e catequização.

Grande Sertão: Veredas

Um dos textos mais conhecidos sobre o sincretismo religioso no Brasil está no livro “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa onde lê-se:

“O que mais penso, testo e explico: todo mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso, é que carece principalmente de religião: para se desendoidecer: desdoidar. Reza é que salva da loucura. No geral, isso é que é salvação da alma… Muita religião seu moço. Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito todas. Bebo água de todo rio… Uma só para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces do compadre meu Quelemém, doutrina dele de Cardeque. Mas quando posso, vou no Mindubin, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas, é só muito provisório”.

O trecho narrado pelo personagem Riobaldo (Tatarana ou Urutu-Branco), um dos protagonistas da história de Guimarães Rosa, retrata a diversidade de religiões existentes no Brasil, e da relação possível entre estas.

O jagunço da história se beneficia de todas, visto que há uma confluência entre estas matrizes religiosas no país. Talvez essa seja a realidade de muitos brasileiros, a de encarar as religiões como possibilidades, mesmo sem entender ao certo quais são os limites de cada uma delas.

Exemplos de sincretismo religioso

Dificilmente as pessoas conseguem definir como era originalmente a religião que elas seguem hoje, isso porque a religião também sofre com as mudanças sociais ao longo do tempo.

Práticas que eram comuns em milênios passados, hoje não se enquadram mais nos novos moldes da sociedade.

O sincretismo ocorre quando um sistema de crenças incorpora manifestações de outro sistema de crenças, mas sem perder suas condições básicas originais.

O sincretismo é percebido através dos rituais, superstições, processos e ideologias.

Um dos exemplos mais clássicos de sincretismo religioso no Brasil ocorreu durante a colonização do país, quando a religião Cristã (Católica) foi incorporada no conjunto de crenças indígenas.

Isso ocorreu de várias formas, moldando o comportamento dos indígenas segundo os preceitos da religião dos europeus. Ainda assim, os povos nativos não deixaram totalmente suas religiões originais.

Grupo de indígenas

As tribos indígenas no Brasil foram alvos da doutrinação do Catolicismo (Foto: depositphotos)

Os padres jesuítas da Companhia de Jesus realizaram um trabalho de educação e catequização dos indígenas no território brasileiro no contexto da colonização.

Com isso, os povos nativos recebiam um ensino de base católica por parte da ordem religiosa.

Neste processo, vários costumes dos indígenas foram abolidos e modificados, tudo visando enquadrá-los na lógica da religião dos colonizadores.

Esse processo foi marcado por um profundo sincretismo religioso, pois incorporava-se posteriormente também a religião de origem africana (várias matrizes).

Esses contatos e relações formaram o caráter sincrético da religiosidade brasileira.

O que quer dizer a palavra sincrética?

O termo sincrético está relacionado com a mistura de cultos e manifestações religiosas diferençadas, processo este que fornece um novo sentido aos elementos de cada uma das religiões envolvidas.

Há uma fusão de ideologias, filosofias, sistemas sociais, crenças, elementos culturais e práticas. Apesar disso, entende-se que a confluência não elimina as características originais.

Portanto, mesmo que várias religiões entrem em contato e misturem seus elementos, ainda assim elas preservam suas características originais mais básicas.

Implicações desse processo

O sincretismo religioso é uma condição natural do processo de contato entre as religiões. Algumas religiões são mais flexíveis e abertas ao diálogo e relação com outras manifestações religiosas, outras são mais conservadoras e fechadas às influências externas.

Um dos riscos que se considera em relação ao sincretismo é a perda da identidade original de uma religião, já que a confluência de crenças e manifestações acarreta no desconhecimento dos elementos básicos que constituíam aquela religião.

Por outro lado, o sincretismo permite que as pessoas vivenciem experiências diversificadas e manifestem sua religiosidade da forma que consideram mais apropriada ou profunda.

Dentro de uma religião conservadora, mais fechada, as experiências ficam limitadas ao já conhecido.

Quando há o contato com outras formas de religião, as possibilidades se ampliam, e tem-se condições de optar por aquilo que mais promove o sentido sagrado.

Considerar o sincretismo como bom ou ruim depende da forma como cada pessoa percebe a religião.

O que é sincretismo religioso na Bahia?

Talvez o estado brasileiro onde o sincretismo religioso seja mais intensamente sentido é a Bahia.

Isso porque ocorreu nesta, historicamente, encontro e confluência de duas correntes religiosas distintas, mas que mesclaram elementos durante o contato.

De um lado o Cristianismo, que era a religião predominante dos portugueses. De outro, o Candomblé, religião predominante entre os negros enviados ao Brasil no contexto da escravidão.

Uma das diferenças mais presentes entre as duas religiões é que o Cristianismo é monoteísta, ou seja, há apenas um Deus. Já o Candomblé é panteísta (acredita-se que Deus esteja em todas as coisas).

Parede de fitas

A Bahia é o ponto de encontro de diversas religiões do Brasil (Foto: depositphotos)

O Catolicismo da época não aceitava essa visão do Candomblé, então as ritualísticas eram reprimidas.

No entanto, os santos eram bem aceitos pelos Católicos, por isso, os africanos disfarçavam seus deuses em forma de santos, para que não sofressem punições.

Hoje, as duas matrizes religiosas são muito presentes na Bahia, na figura das igrejas e dos terreiros.

Os sem religião, ateus e agnósticos

Existem muitas religiões e o sincretismo religioso é uma realidade no Brasil. No entanto, é cada vez mais crescente o número de pessoas que se definem como “sem religião”.

São normalmente pessoas que não se identificam com nenhuma crença oficial, mas que podem ter formas de se relacionar com divindades, ou ainda, que praticam as chamadas “religiões individuais”.

Já os ateus são aqueles que não acreditam na existência de Deus: A (não) + Teu (Deus). Ou seja, são pessoas que podem ter outros tipos de crenças, mas que não acreditam em divindades.

Já os agnósticos são aqueles que não acreditam, mas também não negam a existência de divindades, pois por serem bastante racionais, não aceitam aquilo que não podem provar.

Conclusão

Existem muitas formas de manifestação da religiosidade. Há pessoas que não acreditam em divindades, mas há também aqueles que creem na existência de muitos deuses. A questão religiosa é bastante individual para cada pessoa.

O Brasil é caracterizado pelo sincretismo religioso, especialmente pela confluência entre as religiões Cristã (Catolicismo), africanas e as tradições indígenas. Somando-se a isso também as demais religiões que vieram posteriormente com outros povos.

O sincretismo religioso é, basicamente, uma fusão entre elementos de duas ou mais religiões. Porém, neste processo, há a manutenção de alguns elementos básicos de cada uma das religiões, preservando sua identificação.

É um processo que ocorreu naturalmente ao longo do tempo e que também foi influenciado pelas mudanças na sociedade. Essa mistura de crenças faz do Brasil um país rico em diversidade cultural.

Referências

BRASIL. Governo Federal. “Diversidade religiosa é marca da população brasileira“. 2018. Disponível em: http://www.brasil.gov.br/noticias/cidadania-e-inclusao/2018/01/diversidade-religiosa-e-marca-da-populacao-brasileira . Acesso em 18 jul. 2019.

BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE. “Censo 2010“. Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/. Acesso em 18 jul. 2019.

Fonte: Portal Estudo Prático / Terra

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