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Tablet completa uma década com futuro incerto

Para muita gente, Steve Jobs era uma espécie de profeta da tecnologia. Amanhã, faz dez anos que ele mostrou ao mundo sua última grande invenção. Como um Moisés do Vale do Silício, Jobs trouxe à tona uma nova tábua. No lugar de mandamentos, aplicativos. Em vez de pedra, uma tela sensível ao toque, com 9,7 polegadas. Nascia ali o iPad e, com ele, um mercado de eletrônicos: os tablets. Uma década após seu surgimento, a categoria viveu auge e declínio em vendas, mas nunca conseguiu demonstrar exatamente seu propósito. A dúvida que fica é se o iPad e seus rivais terão fôlego para sobreviver por mais dez anos.

Na época em que foi lançado, o iPad foi descrito por Jobs como uma terceira via da computação pessoal, entre smartphones e notebooks. Mais do que isso, era um sonho antigo do fundador da Apple. Num discurso de 1983, ele deu as primeiras pistas de sua ambição. “Queremos lançar um ótimo computador, em formato de livro, que se possa carregar e aprender a usar em 20 minutos”, disse. A inspiração antevia até a web, que viria anos mais tarde. “Queremos fazê-lo com um link de rádio, para que ele não precise ser conectado e esteja em comunicação com grandes bases de dados e outros computadores.”

O projeto demorou para virar realidade. Uma das primeiras patentes que descreve algo parecido com o iPad é de 2004. Além disso, várias das tecnologias idealizadas para ele acabaram emprestadas para o iPhone, cuja primeira versão veio ao mundo em 2007. Entre elas a tela sensível ao toque, grande novidade do smartphone da empresa. Por pouco, Jobs não perdeu o bonde da história: entre 2008 e 2010, a Microsoft flertou com o Courier, um tablet de duas telas, como um livro. O projeto chegou a ser anunciado, mas não vingou.

Ao chegar às lojas, o iPad passou pelo ciclo de recepção e expansão no mercado, com novos modelos sendo anunciados ano a ano. Naturalmente, não ficou sozinho: fabricantes como Samsung e LG passaram a usar o sistema operacional Android, do Google, para criar seus próprios aparelhos, surfando na onda.

O ápice para a categoria foi em 2014, com mais de 220 milhões de tablets vendidos, segundo a consultoria Gartner, sendo um terço para a Apple. “Na época, era esperado que todo mundo tivesse um celular e um tablet”, diz Gustavo Camargo, analista de marketing do instituto de tecnologia Sidi, de Campinas. Era um plano e tanto para um aparelho que não respondia exatamente a que servia, embora funcionasse bem para ler, assistir a vídeos e navegar na web.

Declínio

O que Jobs não previa, porém, é que o tablet acabaria canibalizado pelo smartphone. Ao longo da década, os celulares começaram a ganhar telas cada vez maiores – algo que causava ojeriza no fundador da Apple. “No começo da década, a tela média de um tablet era de 8,5 polegadas; já a do celular era de 3,1 polegadas”, lembra Fernando Baialuna, diretor da consultoria de mercado GfK. “Em 2019, o tablet caiu para 7,4 polegadas, enquanto o smartphone cresceu para 5,8 polegadas.”

A aproximação fez o dispositivo perder apelo – afinal, já era possível ter uma “telona” no celular. Com isso, as empresas reduziram o ritmo de lançamentos. O tablet acabou virando uma espécie de eletrônico da família, servindo aos vários membros de um lar, em vez de cada pessoa ter um aparelho para chamar de seu.

Além disso, os tablets também não conseguiram ser uma alternativa leve aos notebooks. “Eles não eram potentes o suficiente e seus sistemas operacionais tinham limitações”, avalia Mikako Kitagawa, analista da consultoria Gartner. Com o desencanto, o tablet passou a amargar quedas de vendas a partir de 2015. Em 2018, chegou a 134 milhões de unidades vendidas – redução de 36% em quatro anos.

O que não significa que a categoria não tenha encontrado nichos para agradar, como as crianças – hoje, segundo a GfK, o Dia das Crianças é a principal data de vendas da categoria no País. “Cerca de 30% da nossa demanda hoje vem do público infantil”, diz Fabiano Favero, gerente de produto da Multilaser, um dos principais fabricantes de tablets no País. É o que diz também a mineira DL, também presente no segmento. “Atendemos a um importante público infantil, que demanda um aparelho de uso simples”, frisa Luciano Barbosa, diretor de produtos da DL.

Além disso, os tablets também acharam espaço no setor corporativo e educacional, enquanto a Apple aposta nos criadores de conteúdo que buscam mobilidade com a versão profissional de seu tablet, o iPad Pro.

Futuro

Prestes a completar uma década, o futuro do tablet está ameaçado por mais uma dobra no mundo da tecnologia. Desde 2019, a indústria de tecnologia tem apostado em smartphones de telas flexíveis – aparelhos com corpo de celular e superfície de tablet, completando a fusão entre os dois dispositivos em um só formato.

O dobrável Huawei Mate X, por exemplo, tem tela de 8 polegadas quando está totalmente aberto, superando o iPad mini, de 7,9 polegadas. Os preços ainda são salgados: lá fora, o Mate X é vendido a US$ 2,4 mil (cerca de R$ 10 mil). Mas isso pode ser questão de tempo. “O tablet não resistirá se os preços dos dispositivos dobráveis começar a cair nos próximos anos”, diz Baialuna, da GfK. A tecnologia de telas dobráveis também tem chegado aos notebooks – na última edição da feira CES, em Las Vegas, a chinesa Lenovo mostrou um PC dobrável que poderia ser confundido com um “mega tablet”.

Para especialistas, o futuro do tablet é se reinventar, até mesmo sem a identificação anterior, mas com a marca do impacto tecnológico da categoria. “Hoje, eles estão embutidos em vários lugares: em geladeiras conectadas, despertadores e até mesmo no painel do carro”, enumera Camargo, do SiDi. Assim, mesmo que morra em sua forma atual, “espiritualmente” o tablet estará encarnado em outros aparelhos. A tábua de Steve Jobs pode até ficar no Velho Testamento da tecnologia, mas suas lições poderão ficar para sempre no mundo dos eletrônicos. Nada mau para uma terceira via.

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Fonte: PORTAL TERRA – TECNOLOGIA

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