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‘Usar o LinkedIn é como trabalhar além do horário’, diz pesquisador

Professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e pesquisador de redes sociais, Luiz Peres Neto vê com ressalvas o crescimento do LinkedIn – se por um lado a plataforma traz um ambiente mais saudável que outros serviços da atualidade, por outro ela pode ser bastante exaustiva.

“Estar ali, discutindo sobre trabalho, usando a rede, é acrescentar horas além das horas de trabalho normal”, afirma o especialista, em entrevista ao Estadão. “É a lógica de que até mesmo nas horas de lazer, é preciso fazer algo produtivo”. Para ele, a rede cresceu em importância e popularidade à medida que houve uma flexibilização nas relações de trabalho.

Por outro lado, o pesquisador acredita que o LinkedIn não vá se “orkutizar” – no início dos anos 2010, o termo foi usado para se referir à popularização do Facebook, com certo tom elitista. “É difícil, porque é uma rede mais moderada. Talvez o que a gente comece a ver mais são perfis de outros tipos de profissionais, o que é normal e saudável, mas não haverá memes e trolls no LinkedIn”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O LinkedIn existe há quase duas décadas, mas só se tornou social de fato recentemente. Por quê houve essa demora?

O LinkedIn, como rede social, pertence à chamada web 2.0, que trouxe a interação das pessoas como marca. Mas em seus primeiros anos, ele parecia feita ainda para a web 1.0, dos sites e páginas pessoais. Essa evolução foi muito lenta, mas justamente porque eles não queriam se transformar rapidamente em uma rede social como o Facebook ou o Twitter. Eles foram bastante cuidadosos para ter um posicionamento de mercado bem definido, com regras próprias e sem o descontrole de outras redes.

Na sua visão, o que impulsiona o crescimento recente do LinkedIn?

Acredito que há uma mudança nas relações de trabalho. Cada vez mais, o vínculo de trabalho é flexível, o que faz com que as pessoas tenham que estar numa vitrine, buscando uma vaga sempre. Por outro lado, o trabalho é cada vez mais colaborativo, seja porque as pessoas estão espalhadas em lugares diferentes, mas também pela ligação entre empresas. Mais do que nunca, a ideia de rede traz isso. É um tipo de trabalho um tanto quanto precário, com pouca proteção social. Mas, para quem precisa estar em rede e buscar conexões, o LinkedIn faz isso. Ele traz novas possibilidades de interação, ele permite a construção de uma reputação profissional. Aqui no Brasil, pesa ainda a crise econômica, que é um fator que faz mais pessoas estarem em busca de um emprego ao mesmo tempo.

Ao contrário de outras redes sociais, o LinkedIn tem um caráter profissional. Não é cansativo ter que estar sempre em contato e pensando em trabalho?

Sim. Existe um autor coreano, Byung-Chul Han, que fala sobre a sociedade do cansaço. É o nome de um livro dele, e ele fala bastante sobre isso: lá atrás, existiu uma utopia de que a revolução digital traria mais tempo para o ócio, e um ócio criativo. Mas o resultado é o contrário: as redes sociais não só não trouxeram mais tempo, como também achataram o tempo. Pioraram as relações humanas e geraram-se relações mais superficiais e menos empáticas. No LinkedIn, isso avança: estar ali, discutindo sobre o trabalho, usando a rede, é acrescentar horas de trabalho para além das horas de trabalho formal. É a tese de que, até mesmo nas horas de lazer você precisa fazer algo produtivo para a sociedade, criando conteúdo interessante e relevante a qualquer momento. E é um espaço pouco crítico, muitas vezes: ali há sempre um discurso hipster da felicidade no ambiente de trabalho, no máximo há uma discussão sobre equilíbrio entre trabalho e qualidade de vida – mas que está sendo feito numa rede que estimula o produtivismo, então é uma crítica complexa. É uma crítica ao capitalismo e suas transformações atuais: uma vez que se esgota o modo de produção, o caminho é esgotar as pessoas – e não é à toa que há o crescimento, hoje, de problemas psicológicos, psicossomáticos, até mesmo de neuroses coletivas.

Há algum tempo, o LinkedIn era reduto de profissionais liberais e graduados. Mas ele está se popularizando. Quando o Facebook passou por esse movimento, muita gente achou que ele estava se ‘orkutizando’, isto é, deixando de ser um espaço restrito e de qualidade. Há um risco do LinkedIn se orkutizar?

Há duas formas de analisar isso. Se a gente olhar pela questão do elitismo, é uma contradição das redes sociais. O (sociólogo) Jessé de Souza escreve de forma categórica: o Brasil é elitista e a classe média tem um certo ranço, um certo elitismo. E é uma elite do atraso: a dinâmica das redes sociais induz a gente a pensar que, quanto maior a rede, maior o volume de energia ali, maior é o potencial de conexões. Ao pensar dessa forma, elitizada, muita gente “gourmetiza” as redes sociais. Por outro lado, o LinkedIn me parece pouco sujeito a passar pelo processo que o Facebook passou, de virar um lugar de memes, de discussões políticas agressivas, até mesmo dos trolls. É difícil, porque é uma rede mais moderada, que combina o conteúdo profissional de executivos, profissionais liberais, empreendedores, analistas. Talvez o que a gente comece a ver mais são perfis de outros tipos de profissionais, o que é normal e saudável para a rede.

Há quem afirme que as redes sociais buscam transpor espaços da vida física no ambiente digital. Nessa lógica, o que é o LinkedIn?

O LinkedIn tem a lógica da “firma”. Tem gente que diz que ele é o happy hour com o chefe e os colegas do trabalho. Não acho: o happy hour está no Twitter ou no Instagram. Porque, na maioria dos casos, a melhor parte do happy hour acontece quando o chefe vai embora e todo mundo fica falando mal dele. No LinkedIn, o problema é que o chefe pode ver depois. Por isso, ele é a própria lógica da firma, do corredor, do cafezinho. As redes sociais tem mesmo essa característica: nelas, nós exageramos algumas características e omitimos outras, mas o universo digital é tão social como a interação face a face.

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Fonte: Terra

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