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Volta às aulas após a vacina não é consenso entre especialistas – Educação

Governo do Estado de São Paulo/Divulgação

Escolas estão com aulas suspensas desde março

Em meio às discussões sobre o retorno
das aulas presenciais
durante a pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus
(Sars-CoV-2), especialistas em educação avaliam que aguardar a vacinação eficiente e em massa que só ocorrerá — na previsão mais otimista — a partir do segundo semestre de 2021 será ruim para os estudantes. Esperar até a metade do próximo ano para retomar as atividades na escola prejudicaria demais não apenas o aprendizado, como o desenvolvimento de habilidades socioemocionais de crianças e adolescentes. No entanto, especialistas da área de saúde acreditam que antes de pensar em voltar com as atividades presenciais nas escolas, é preciso controlar a pandemia.

Para Laura de Freitas, microbiologista da Universidade de São Paulo (USP), o medo do coronavírus é a principal consequência dos resultados da pesquisa. Além disso, explica, o levantamento deixa claro que existe um receio maior em relação aos riscos de aglomerações em escolas.

“[As pessoas] Sabem que a gravidade em crianças é menor, mas entendem que elas são um carregador do vírus para várias pessoas. A chance de contaminação em uma sala com 40 alunos é muito grande, pois é muito difícil manter distanciamento social de uma criança. As crianças interagem, se beijam, se abraçam, e então colocamos toda uma rede de pessoas em contaminação”.

Na visão de Mozart Ramos, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), a expectativa de que teremos vacina contra a Covid-19 disponível nos próximos meses pode ter influenciado no resultado da pesquisa. Ele cita como exemplos o presidente americano Donald Trump anunciando que haverá vacina antes de novembro e o presidente russo Vladimir Putin apresentando a vacina contra o novo coronavírus desenvolvida em seu país mesmo sem ter terminado os testes de eficiência necessários.

“Se eu sou um pai e vejo falas como estas de chefes de governo de diferentes países que estão liderando as pesquisas das vacinas contra a Covid, eu também pensaria ‘se a vacina está saindo agora, por que as aulas presenciais não podem esperar por ela?'”, diz. “Há um nível de desinformação muito grande que está prejudicando a decisão dos pais. O prejuízo educacional que as crianças e jovens já estão tendo não vai ser irreversível, mas será muito grande, segundo dados de países que já reiniciaram suas atividades.”

Na opinião da presidente executiva da ONG Todos Pela Educação, Priscila Cruz, a pesquisa do Ibope é reflexo de duas consequências: insegurança da população em relação ao vírus e falta de confiança na gestão pública. Em relação ao primeiro ponto, Priscila chama atenção para o conceito de “segurança seletiva”.

“É insegurança, mas é seletiva, e a gente não pode cobrar tanta coerência da população. O pessoal está na praia, no bar e nas padarias com a máscara no queixo, mas está inseguro de mandar os filhos à escola. Não é hipocrisia, é falta de comando, falta de interação durante o tempo de combate ao vírus. O Brasil cometeu muitos erros na condução da pandemia, desde um presidente negacionista, que dá mau exemplo, a um desencontro de discursos, de comandos e lideranças das autoridades.”

Já sobre a falta de confiança na gestão pública, Priscila lembra que apenas 58% das pré-escolas públicas do país têm abastecimento de água, segundo dados sobre infraestrutura em escolas, de 2018, o que dificulta o processo de contenção do vírus no ambiente escolar.

“As pessoas poderiam estar inseguras em relação ao vírus, mas enviariam os filhos à escola se houvesse um histórico de prover serviços de qualidade. Não tem confiança de que vai ter água limpa para lavar as mãos. Se não tem esgoto direito, como vai ter álcool em gel?”, critica.

A volta às aulas deve ocorrer de forma planejada e apenas em municípios nos quais a transmissão da doença estiver caindo, pontuam os especialistas. As escolas deverão, entre outras ações, adequar seus espaços para permitir o distanciamento social, melhorar a infraestrutura para garantir a higienização constante das mãos e dos espaços usados pelos alunos e mudar os horários de recreio para que turmas diferentes não se juntem.

Claudia Costin, diretora geral do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, diz que as aulas presenciais já voltaram em mais de 20 países atingidos pelo novo coronavírus e que, após o retorno, não houve um surto incontrolável da doença em nenhum deles.

“Naturalmente, as pessoas estão com medo do retorno porque a nossa cultura [de abraçar e beijar] é diferente, que a nossa estrutura é pior. Mas, por exemplo, a África do Sul voltou e tem algumas escolas com condições piores que as nossas. Conversei com o ministro de educação de lá. Eles voltaram e não houve uma grande tragédia. O que eles fizeram foi seguir determinados protocolos sanitários que também são meio contrários à cultura do contato físico. Mas vamos ter que aprender a lidar com isso, porque o dano de ficar fora da escola, segundo o Ofsted (Office for Standards in Education, departamento não ministerial do governo do Reino Unido que define os padrões de qualidade do ensino na Inglaterra) é maior do que o de ir na escola, dada a baixa transmissibilidade da doença pelas crianças. Na minha percepção, haverá um momento em que teremos que voltar e não será quando a vacina estiver pronta.”

Fonte: Google News

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